Um mundo tenebroso o aguarda atrás da TV. Basta esperar a meia-noite...

É sempre difícil partir para a análise de um jogo pertencente a uma série já bastante consolidada e famosa sem possuir algum tipo de pré-conceito. Por isso, para avaliar Persona 4, um membro de nossa equipe que nunca havia jogado um título da franquia antes foi escolhido. Se ele soubesse no que estava se metendo...

Antes de mais nada, vale ressaltar que o jogo é enorme. É imenso. É colossal. Existem tantos elementos diferentes em um só game que fica extremamente difícil perceber logo no começo que tipo de jogo ele é. Portanto, preparem-se para uma jornada bastante intensa através de escolas, ruas, campos de futebol e – não menos importante – televisões.


No início, havia apenas confusão

Tendo isto em vista, analisemos por partes as inúmeras facetas do game, começando pela história. O cenário é uma pacata cidade do interior do Japão, para onde nosso protagonista – cujo nome é determinado pelo jogador – se muda para viver por um ano com seu tio Dojima e sua prima Nanako. A princípio, não há nada de mais a respeito de nenhum destes três personagens, mas rapidamente as características de cada um vêm à tona.

Dojima é um detetive da força policial local, que passa muito tempo fora de casa devido à natureza de seu trabalho. Nanako é uma criança que, por causa da ausência de seu pai, toma conta de praticamente toda a casa, assistindo TV nas horas vagas. E o protagonista logo percebe que ele possui um dom especial, após concordar em participar de uma brincadeira.

Lar, doce lar

Tal brincadeira é o chamado “Midnight Show” (algo como Programa da Meia-noite), em que uma pessoa olha fixamente para a tela de uma televisão desliga em um dia chuvoso, à meia-noite em ponto. Isto, em teoria, deveria revelar a alma-gêmea do espectador, mas logo aprendemos que a imagem que aparece é algo muito mais tenebroso...

Ao cumprir a promessa e olhar para a TV, o personagem principal descobre que ele possui a habilidade de atravessar a televisão, o que o leva a um local desconhecido. Embora não entre totalmente no aparelho em um primeiro momento, sua cabeça fica presa e ele decide conversar com os amigos no dia seguinte.

Seus primeiros colegas

Enquanto isso, pouco após a chegada do protagonista à pequena cidade, um acontecimento sinistro abala a população: uma apresentadora de TV, que estava envolvida em um escândalo de adultério, aparece morta e pendurada em uma antena no meio da área urbana. Pouco depois, a estudante que encontrou o corpo aparece pendurada em um poste, também morta. Estes fatos, juntamente com a névoa sobrenatural que parece ter tomado conta da cidade toda e que aparece toda vez que chove por vários dias, levam o protagonista e alguns colegas de escola a investigar.

O show de Persona, o show da... morte

Embora não levem o novato a sério de início, eventualmente dois de seus colegas, Chie e Yosuke – vão até a loja de departamentos e presenciam a bizarra habilidade do protagonista. Após caírem os três dentro do mundo que existe na televisão, eles conhecem um urso caricatural, que se identifica como sendo um dos únicos habitantes desta dimensão paralela - juntamente com as Sombras, monstros que também percorrem o plano.
A entrada para uma das
É neste mundo que se passa a maior parte da ação deste título, em contraste com o mundo real, em que o foco é nas interações sociais e na aquisição de itens e dinheiro. No decorrer da trama, pessoas são jogadas dentro desta dimensão e cabe ao grupo de heróis - que se expande conforme as pessoas vão sendo salvas - resgatá-las, fazendo-as enfrentar seu lado obscuro.

Falando em ação, o combate no game é por turnos, sendo que o jogador pode controlar os personagens individualmente ou designar perfis de inteligência artificial para cada um. Ao encontrar inimigos pelo mundo de jogo, um evento será desencadeado e uma batalha será carregada. Os golpes e habilidades que podem ser utilizados dependem da Persona - uma espécie de avatar - utilizado pelo personagem. Estas personas podem ser coletadas após cada batalha e um misterioso homem chamado Igor permite que você una algumas destas entidades para criar uma nova.
A persona de um de seus companheiros, Yosuke
O lado RPG deste aspecto fica por conta da evolução tanto de seu personagem quanto de suas diversas personas. Enquanto o nível do protagonista define qual o nível máximo que pode ser atingido pelas personas, o nível destas últimas define as habilidades disponíveis para uso e o poder das mesmas. Parece complexo, e de início realmente o é. Mas após algumas horas você já se acostuma.

Outro aspecto interessante é que não é possível ficar neste mundo das sombras por muito tempo. Eventualmente, seu personagem não possuirá mais itens para regenerar o seu espírito ou seus pontos de vida e deverá retornar ao mundo real para reabastecimento, pois não há como consegui-los aqui. O que motiva os jovens a retornar é o fato de que se as pessoas que aparecem no Midnight Show não forem salvas antes da névoa desaparecer desta realidade alternativa - e consequentemente aparecer na real - elas serão mortas pelas sombras.

Não é somente um RPG de combate

Além deste aspecto de RPG tradicional, de combate e evolução de personagens, existe também um outro lado todo peculiar que remete a vários outros gêneros tipicamente orientais, sendo que desta vez eles possuem impacto direto no poder das personas do protagonista. Isto faz com que exista uma motivação para explorar todos os aspectos do game, e não somente moer através dos níveis sombrios para terminar o jogo.

Se relacionar faz bem

Um destes aspectos é o de interação social e de formação de relacionamentos. Ao conhecer novas pessoas e dialogar com elas, o protagonista irá fazer novos amigos - e cada um deles possui características distintas que influenciam determinadas áreas específicas das personas. Além disso, as escolhas feitas pelo jogador no que diz respeito às conversas com as diversas pessoas define a modificação de algumas características como: bravura; conhecimento; compreensão; expressão e perseverança.

Além de relacionamentos, existem outras formas de se aumentar estes valores. É possível ler, participar de clubes de cultura e esportes, arranjar um emprego, estudar, entre outras atividades. Existem também missões específicas disponbilizadas pelos mais aleatórios personagens, desde estudantes até pessoas na rua. Tudo isto para desenvolver o seu personagem da forma mais completa possível.

Sol e chuva... dá em névoa!

Outra coisa à qual o jogador deve prestar bastante atenção é o sistema de previsão do tempo. Dias ensolarados ou chuvosos possuem impactos diferentes nos monstros do mundo das sombras e nas atividades diárias. Por exemplo, a névoa aparece após vários dias de chuva; o treino de futebol não acontece durante dias chuvosos; as sombras ficam mais fortes quando a névoa se dissipa na dimensão alternativa. Isto vem substituir as fases da lua de títulos anteriores da franquia.

Excelente apresentação

No quesito visual e sonoro, Persona 4 não deixa a desejar. Os gráficos são muito bons e fluidos, considerando a plataforma em que roda. Diversos elementos gráficos, como os efeitos visíveis quando o protagonista coloca os óculos "anti-neblina", são bem-feitos e convincentes. A trilha sonora é bastante boa e apropriada às diversas situações, mas peca bastante na repetitividade.

A navegação pela cidade é bem simples, através do botão quadrado

A história em si é muito cativante, embora ela demore para deixar o jogador completamente à vontade e no controle da situação. Durante as primeiras horas de jogo você deverá se contentar em acompanhar diálogos, presenciar eventos e apertar o botão X para avançar. Isto pode se tornar bastante frustrante para novatos, que deverão se manter firmes para chegar às partes interessantes do jogo. Veteranos da franquia, no entanto, não terão problemas para acompanhar os acontecimentos e a lógica que permeia as ações dos diversos personagens.

Além disso, existe toda a história para desvendar o mistério dos assassinatos que serve como força motriz de todos os acontecimentos. Embora seja possível passar inúmeras horas se dedicando à diversas atividades paralelas, eventualmente o jogador deve seguir a trama principal ou o jogo terminará, juntamente com a névoa. Isto faz com que a todo momento exista tanto uma sensação de liberdade de escolha quanto de pressão para solucionar os diversos casos que aparecem no canal da meia-noite.

Em suma, Persona 4 é um ótimo game de RPG, no sentido mais abrangente que o termo possa significar, que com certeza proporciona inúmeras horas de diversão. No entanto, é preciso ser um amante deste tipo de jogo que precisa ser compreendido profundamente e que requer muitos momentos de leitura paciente e de acompanhamento da sequência de eventos. Só cuidado se o estiver jogando à meia-noite de uma madrugada chuvosa...

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