Mais uma vez, Persona mostra por que é a vanguarda dos JRPGs

Alguns jogos demoram para sair, mas valem a pena esperar. Serei bem sincero: não sou o maior fã de Persona que existe por aí: nunca busquei pelo universo estendido ou joguei os mais antigos e undregroud títulos da franquia. Contudo, todas as minhas dezenas de horas em Persona 3 e Persona 4 foram suficientes para me encantar pela franquia.

Porém, confesso: apesar de jogar Persona 3 em 2006 ter sido incrível e o contato com Persona 4 em 2012 no Vita ter sido melhor ainda, jogar esses games no fim de 2016 mostrou que a idade os tornaram um pouco datados. Ao me deparar com Persona 5, tive uma experiência incrível e senti como se estivesse experimentando a franquia pela primeira vez de novo. Uma experiência fresca e moderna.

Persona 5 se provou encantador. Se você já jogou algum game da série e gostou muito, o quinto exemplar traz todos os elementos que fazem a série ser tão boa de maneira acentuada e no ápice de qualidade. O novo título da Atlus é mais do que um jogo, é uma experiência, quase episódica, de uma história colegial fantasiosa japonesa que mais se parece um anime de altíssima qualidade.

Persona 5 é simplesmente incrível

Mais do mesmo? Manda mais que a gente gosta

O gênero JRPG costuma ser enraizado e engessado, com poucas mudanças e repetições de fórmulas que agradam a um público específico que, nesse caso, é o japonês e um nicho ocidental. Persona sempre foi uma franquia que se posicionou na vanguarda do gênero, trazendo os ventos da mudança sem deixar para trás o seu legado.

Persona 5 segue a mesma receita de bolo dos anteriores, mas isso não é ruim. Muito pelo contrário, é a receita do bolo quase perfeito, mesmo que o sabor já seja conhecido. A Atlus não mexeu em time que está ganhando e trouxe todos os antigos elementos que fazem a franquia ser tão boa, mas melhorou cada aspecto ruim ou datado também. Ou seja, apertem os cintos e bora para uma aventura nipônica de centenas de horas que vai desde combates desafiadores a fazer provas na escola.

É a mesma receita de bolo? Sim, mas é um baita de um bolo gostoso e com sabor conhecido, mas agora com cobertura e recheio de primeira

Absolutamente tudo foi refinado em relação aos seus antecessores. Persona 5 saiu do cenário rural do quarto game e chegou à cidade grande: uma Tóquio recheada de coisas para fazer e passar o tempo. O grande charme da franquia desde o terceiro game é conciliar a rotina de um estudante com a vida de “aventuras” em um metaverso cheio de demônios (na verdade, eles se chamam “Sombras”).

A grande questão aqui é que a Atlus conseguiu transformar o título em algo moderno e sem os elementos que, atualmente, estão datados nos anteriores. As dungeons procedurais forçadas acabaram, há save points entre os cenários, as viagens rápidas existem nos cenários principais do metaverso e todos os elementos de RPG clássico estão ainda mais incríveis. 

Narrativa imersiva, sensacional e metafórica

Como é de praxe, a temática principal que circula o jogo mudou, e agora o tema “liberdade” ou “recuperação” é explorado, apresentando uma história bem requintada e com o tempero certo: não é rebuscada, mas utiliza uma simplicidade da forma certa para empolgar e entreter. Essa é uma das grandes sacadas de Persona 5: trazer assuntos sérios e recorrentes, mas com uma linha narrativa suave, que não sobrecarrega o jogador com complexidade.

Liberdade é um dos temas de Persona 5

Dessa vez, o protagonista tem um plano de fundo muito mais detalhado e rico, apesar de ainda se comportar como um avatar do jogador. Isso cria uma identidade maior com a trama, tornando o que já é bom muito mais interessante e desenvolvendo uma experiência capaz de prender qualquer um na cadeira, mesmo nos momentos triviais que se parecem com “fillers”.

Você controlará durante muito tempo um colegial que está cumprindo condicional por um crime que não cometeu, e isso é envolvido na narrativa inteira, pois o personagem não pode fazer nada errado com o risco de ser expulso da escola. Obviamente, tudo o que você fará dali para frente será um risco para o futuro, com chances de ser preso ou manchado para sempre como um criminoso. O interessante é que a história começa do fim e vai recontando tudo, uma estrutura bem legal, mas sobre a qual evitarei entrar em detalhes para não dar spoilers.

A história de Persona 5 é muito interessante e densa, mas o jogo consegue diluir muito bem esses elementos em pedaços menores e bastante divertidos

É incrível o quanto Persona 5 mescla a história principal até nos mais simples detalhes do game, sempre marcando presença e realçando os acontecimentos recentes. Em Persona 4, parecia que havia muita divisão entre o conteúdo da narrativa principal e o conteúdo entre um arco e outro, quase como um "filler" de anime. Felizmente, isso não acontece no quinto jogo, pois, ao mesmo tempo que o enredo é incrivelmente bem-feito e denso, ele também é leve e gostoso de consumir, quase como um anime episódico que preenche as lacunas menos importantes com trechos de qualidade.

Os vilões são pessoas comuns que, apesar de serem ruins na trama, são personagens problemáticos por algum motivo – que é revelado posteriormente. Inicialmente, todos os personagens (vilões, mocinhos ou qualquer outro) são rasos e estereotipados, mas Persona 5 consegue conduzir uma história excepcional, que se aprofunda detalhadamente em cada um deles, com muita reflexão no caminho e humanizando o lado sombrio das pessoas. Há muita metalinguagem, metáforas, hipérboles narrativas e tons de cinza.

Na verdade, tudo do mundo real impacta o metaverso, já que as dungeons não passam de uma concretização do subconsciente, de desejos retorcidos e emoções negativas reprimidas de todas as pessoas. Se estiver chovendo, os cidadãos ficam mais depressivos e o metaverso se torna mais difícil. Se estiver com muito pólen no ar, as pessoas ficam sonolentas e o metaverso fica fácil. Esses são apenas exemplos, mas há muitos outros durante a aventura.

Um ótimo ritmo de progressão

Se tem uma coisa em que a Atlus acertou em cheio foi corrigir com maestria o ritmo de progressão do jogo. Em pouquíssimas horas, você já terá experimentado os dungeons e a rotina de um colegial comum, testando grande parte do que Persona 5 tem a oferecer. Como é de praxe, a série continua abordando, e de uma forma muito boa, temas recorrentes da adolescência, como abusos, depressão, suicídio, pressão da sociedade, bullying, preconceitos e muito mais, e isso é muito bem distribuído na trama.

Persona 5 aborda muitos assuntos sérios

Felizmente, as dungeons principais não são mais procedurais e podem ser segmentadas, ou seja, diferentemente de Persona 4, você entra em um ambiente com level design soberbo e que tem várias save rooms, o que significa que você pode voltar ao mundo real e retomar o progresso de onde parou (em Persona 4, você tinha que fazer tudo de uma vez, algo que demorava mais de duas horas e não salvava o progresso caso o jogador voltasse ao mundo real). E o melhor: agora há viagens rápidas também. Existem sete Palácios e cada um representa um pecado capital, um tema bem bacana.

As dungeons procedurais e os momentos prolongados de marasmos de Persona 4 sumiram, dando lugar a um ritmo muito melhor

Se você não quiser explorar a cidade como “civil” depois de terminar um Palácio (nome das seções principais), há a opção de adentrar dungeons procedurais paralelas (chamadas de Mementos), outro elemento muito bem-vindo e que completa perfeitamente a jogabilidade de quem busca grindar e focar mais no combate. A parte mais legal é que tudo, tudo mesmo, é contextualizado com a história.

Além de conquistar equipamentos nos Mementos, você também pode ganhar experiência extra. Certamente, o level design não é tão bem-feito, mas há dezenas de horas de diversão por ali. O mais legal é que até essa atividade secundária é explicada e inserida no enredo, pois se trata do subconsciente coletivo da cidade que contém diversas pessoas más.

Apesar de serem muito bem-vindos, os Mementos substituíram as sidequests de Persona 4, que focavam na vida real do estudante, como encontrar itens na cidade ou conversar com pessoas. A solução atual é mais interessante, mas a Atlus poderia ter mesclado o melhor dos dois mundos.

Mesmo com um ritmo muito bem balanceado, as mais de 100 horas de jogo não são perfeitas. Há um elemento que, apesar de não ser uma crítica negativa, vale chamar a atenção: Persona 5 é separado em alguns arcos de enredos individuais que estão situados dentro de uma história principal. Essa narrativa principal é muito demorada para ser apresentada e muitas vezes fica aquém da qualidade dos “capítulos” fechados. Isso pode, de vez em quando, gerar algumas situações nas quais o ritmo do game cai. A parte boa é que o título nunca se torna entediante.

Combate refinadíssimo e com novidades

Outro ponto muito bom que está ainda melhor é o combate, que é incrivelmente divertido. Estruturalmente, não há um avanço enorme em relação aos anteriores, mas cada nova adição é magnífica e capaz de sustentar o jogo por si só. Os comandos únicos de arma de fogo foram resgatados dos primeiros jogos, a possibilidade de conversar com os inimigos foi implementada diretamente de Shin Megami Tensei e o sistema de fraquezas está ainda melhor, adicionando movimentos extras sempre que o jogador descobre o ponto fraco do oponente.

O combate está ainda melhor

Apesar de manter a estrutura raiz, com turnos e todos os elementos clássicos, Persona 5 não teve medo de se modernizar. Muitos elementos dos primeiros títulos e da série Shin Megami voltaram, como extorquir os inimigos para capturá-los, ganhar itens ou dinheiro. A tática é sempre necessária e a dificuldade alta está sempre presente. Se você é um marinheiro de primeira viagem, não se aventure no modo hard.

O combate é essencialmente o mesmo dos Personas anteriores, mas com novos elementos e fórmulas dos games mais antigos

Toda a exploração das dungeons principais é focada no modo furtivo, favorecendo quem utiliza coberturas e avanço progressivo. Nesse tempo todo, você passará muitas horas na Velvet Room combinando Personas , que são as entidades que fornecem força para os personagens, para conseguir habilidades, magias e táticas novas, ou coletando-as no campo de batalha. Apesar de parecer complexo, Persona 5 consegue entregar tudo de forma intuitiva e simples.

Uma aventura episódica de grande imersão, mas com um porém

O maior e mais impressionante trunfo de Persona 5 é a capacidade de imergir o jogador em um mundo paralelo. Se você é fã da cultura japonesa, assim como eu, é embasbacante a qualidade da atmosfera em que somos incluídos. Sem brincadeira ou exageros: eu me sinto parte de um anime episódico de longa duração, como já mencionei anteriormente. Eu não vejo uma representação de um personagem na tela: eu me vejo em uma aventura incrível.

Há muito o que fazer em Persona 5, mas o mais interessante é o quão contrastante e variada é a rotina de um colegial com a identidade secreta de herói

Sabe, são poucos os títulos que conquistam tamanha façanha. Ao mesmo tempo, você deve investir o tempo na vida pessoal do protagonista, já que aumentar a amizade com os seus companheiros fortalece o elo do coração e, consequentemente, aumenta o poder e os atributos e acrescenta novidades ao acervo de habilidades dos demais personagens. A vida pessoal e a vida de um ladrão no metaverso são diretamente interligadas de maneira genial.

A rotina de colegial é bem interessante e funciona de maneira muito diferente

Há muitas coisas para fazer aqui. Jogar Baseball, ir à lavanderia, estudar na biblioteca, ler em casa, ler durante os trajetos de metrô, praticar exercícios com os amigos, chamar os amigos para passear, ir ao cinema, ser cobaia de experimentos médicos, assistir DVDs em casa, treinar e muito mais. A lista é imensa e é muito divertido viver essa rotina de colegial. Há tanta coisa que existe até um sistema pra ver o que outros jogadores fizeram no seu lugar, algo que pode ser uma boa orientação.

Você pode trocar mensagens de celular com os amigos, marcar encontros no dia anterior, encontrá-los na cidade, liberar novos lugares para gastar o tempo livre, visitar outros distritos que têm atividades noturnas e muito mais. A sensação realmente é de que você está dentro de um simulador nesses momentos.

A grande sacada está na simplicidade do game: apesar de contar com muitas mecânicas complexas, no final das contas, o combo geral é simples. Diferente de The Witcher 3 e outros RPGs densos, nos quais realizar uma única missão pode durar horas, Persona é dividido em um calendário comum, com dias divididos entre manhã, tarde e noite. E acredite: passar cada dia é rápido e gratificante como uma conquista. Em outras palavras, terminar a rotina de um único dia é recompensador e não demanda muito tempo, quase como um episódio de anime bem curtinho.

Contudo, vai um aviso: apesar de Persona 5 ter pequenas ressalvas que, de uma forma geral, não atrapalham em nada, há um aspecto negativo que pode ser bem subjetivo, mas que dessa vez pesa mais: as legendas são apenas em inglês. Mesmo eu, redator aqui do TecMundo Games e que lê textos em inglês todos os dias para formular matérias, me deparei com palavras incomuns e alguns trechos de inglês arcaico. Entender o enredo principal é relativamente fácil, mas às vezes pode ser um desafio participar e responder às atividades escolares. Vai de cada um, mas fica a recomendação: é bom ter um tradutor do lado de vez em quando.

Que trilha sonora!

Acho que desde Final Fantasy VII eu não me empolgava tanto com as faixas musicais ao entrar em uma batalha ou sair vitorioso de um combate. Persona 5 tem faixas memoráveis em diversas parte do jogo, seja na rotina de colegial ou nas dungeons temáticas com os sete pecados capitais.

A produtora fez um trabalho soberbo ao criar músicas memoráveis, como você pode conferir no vídeo abaixo. Toda a trilha sonora é inspirada em trilhas de jazz, com muita animação e ritmo empolgante. Claro, dependendo da situação, a temática das faixas pode mudar drasticamente, mas no geral, todas seguem a linha agitada.

Outro ponto digno de elogios é a dublagem do jogo. Dublagem, no caso, como atuação de voz, já que o título não está em português. Tanto as falas em inglês quanto em japonês são incrivelmente bem-feitas e estão presentes em boa parte da campanha. Em alguns pontos mais triviais, os balões de texto assumem os holofotes e não há participação de dubladores, mas esses momentos não constituem a maior parte dos diálogos.

Grande direção de arte, mas gráficos... ok

Persona 5 tem algo bem inusitado de se elogiar: um sistema de menus e animações incrível. É muito fácil encontrar as informações que você precisa na genial e belíssima interface. Pode parecer falta de assunto elogiar os elementos da tela e os menus, mas é sério, eles realmente são muito fora do padrão e extremamente criativos.

Os menus são incríveis

Infelizmente, essas animações lindas são contrapostas com o primeiro dos pouquíssimos pontos negativos do game. Os gráficos de Persona 5 são, no máximo, ok. A estilização à la anime e o cel shading ajudam muito a disfarçar, mas o jogo é uma obra de PS3 em ambas as plataformas, mas com resolução diferente no PS4. É muito claro que o produto foi pensado para ser cross-gen.

Apesar de ser um grande avanço em relação ao visual anterior (dos bonecos cabeçudinhos) e ter uma direção de arte incrível, Persona 5 ainda não parece dar um salto enorme. Os modelos 3D podem ter mudado, mas ainda não há um bom detalhamento facial ou detalhes bacanas nos personagens. Contudo, a Atlus compensa isso de forma muito inteligente ao aliar a interface riquíssima com animações 2D, quase como um recorte de animação para apresentar as falas.

Os gráficos basicamente são idênticos no PS3 e PS4, apenas com a resolução alterada

Contudo, anti-aliasing, detalhes ao fundo, texturas, taxa de frames e todo o resto são do nível da sétima geração. Mesmo que você tenha um PS4 Pro ainda verá serrilhados bem ruins. Persona 5 não ficará datado rapidamente devido à direção de arte e à estilização, mas claramente não é uma obra com qualidade atual.

Não há nem reflexões nos espelhos ou qualquer outro detalhe

A interface, aquela mesma bonitona citada agora há pouco, pode atrapalhar quando a câmera decide não ajudar. Em diversos momentos, o indicador de objetivo bloqueou a visão do local ao qual você precisa ir, algo que gera um trecho de tentativa e erro chato de progredir. Mesmo com qualidade gráfica aquém do esperado, esse é o menor ponto negativo da obra.

Nem tudo é perfeito

Apesar de Persona 5 ser um jogo que me manteve entretido e animado por dezenas e dezenas de horas, há alguns probleminhas no caminho. Eles são pequenos e não atrapalham a experiência geral, mas geram ruído e incômodo de vez em quando. O mais estranho é que não se trata de um descuido da desenvolvedora, mas sim de uma opção de game design. No mínimo estranho.

Um desses contras é o sistema de decisão forçada do game. Isso ocorre com uma frequência relativamente regular e pode acabar quebrando um pouco do ritmo divertido. Algo aconteceu na história durante a tarde e você quer realizar alguma tarefa durante a noite? Frequentemente o game me fez salvar o seu progresso e dormir para passar para o outro dia, limitando as minhas ações. Ler a Morgana dizer “você está cansado, é melhor ir dormir” é algo que vai enchendo o saco. Essas limitações são bem contraditórias, já que Persona 5 oferece uma liberdade imensa na maior parte do tempo.

"Você deveria descansar para amanhã" é uma frase recorrente e incômoda

Outra coisa estranha é como o dia da rotina do personagem foi dividido desta vez. Temos o período da manhã, o período depois da escola e o período da noite. Com exceção da manhã, que é o tempo da escola, o resto é livre para fazer o que quiser, mas com o limite de uma atividade por período. Contudo, nos dias livres, como no domingo, uma única atividade ocupa o dia todo. O tempo livre é escasso, mas um dia inteiro para treinar barra dentro do quarto pode parecer um pouco forçado.

Vale a pena?

Apesar dos pesares, Persona 5 é uma coletânea de acertos tão grande que os pontos negativos são facilmente ofuscados. O JRPG é enraizado e pouco flexível, mas o game mostra que é possível unir o legado de um gênero com elementos modernos. História incrível, mais de 100 horas de conteúdo de diversão pura, trilha sonora viciante e uma jogabilidade única constroem uma experiência sem igual. Um jogo ideal para os fãs da cultura japonesa e que gostam tanto de diálogos quanto de combates em um sistema de turno da velha guarda.

Se você é fã de longa data da franquia, as melhorias estarão evidentes logo de cara, com um ritmo muito mais rápido. Se você é um novato, fique tranquilo, pois as novidades tornam o game extremamente divertido para marinheiros de primeira viagem e uma experiência moderna. Sem dúvidas, um RPG japonês extremamente duradouro e que pode ser o renascimento e reinvenção do gênero, algo louvável nos dias de hoje.

Vale ressaltar que as notas com valores numéricos são bem particulares e subjetivas. Apesar de ter gasto dezenas de horas em Persona 5, há pessoas que podem simplesmente não se identificar com o jogo ou achar que as legendas em inglês são um grande impeditivo. No final, nem sempre as qualidades e competências técnicas ajudam a segurar um jogador na experiência. Abaixo, você confere a colaboração do nosso querido Felipe Gugelmin sobre o game.

Persona 5 é um jogo sobre aproveitar o tempo – Por Felipe Gugelmin

Uma das mensagens mais frequentes de Persona 5 é “Take Your Time” — que poderia ser traduzida livremente para algo como “aproveite seu tempo”. Isso pode parecer estranho para um game que trabalha com tantas restrições quanto ao que você pode fazer em um dia: fora as atividades escolares, não sobra muito para investir em relacionamentos ou explorar outra dimensão.

No entanto, a mensagem faz completo sentido após investir pouco mais de 22 horas na aventura — o que me levou até o final de seu segundo palácio. Para que eu realmente pudesse aproveitar a história até esse ponto, valorizando seus personagens e entendendo suas mecânicas, foi indispensável que em alguns momentos houvesse um desenvolvimento mais lento do que eu esperava.

Essas restrições podem ser uma fonte de frustração, mas são fundamentais para a experiência que a Atlus quis construir. Persona 5 é um game que, em essência, trata sobre escolhas difíceis: se revoltar contra um sistema opressor com o risco de ser visto como um pária, decidir até que ponto vale a pena ir em um labirinto ou se é melhor trabalhar ou passar um tempo com seus amigos.

Tal aspecto tornou a experiência particularmente interessante para mim, que considero raro ver um jogo que consegue conciliar tão bem uma filosofia em aspectos que vão de sua história até o design de sua jogabilidade. Isso é feito de maneira tão brilhante que o fato de ter gastado 22 horas em somente duas dungeons — tempo que em outros RPGs teria sido suficiente para ver dezenas de cenários diferentes — não me incomodou.

Familiaridade necessária

Ao forçar o jogador a passar tanto tempo nos mesmos cenários e convivendo com as mesmas pessoas, Persona 5 permite apreciar todos seus detalhes e se importar com eles. Os palácios que pude explorar já estão marcados como locais memoráveis e que têm conceitos muito mais interessantes do que vi em jogos inteiros (o que é facilitado por um level design realmente inspirado).

Da mesma forma, a maneira um tanto lenta com que os Phantom Thieves of Hearts se desenvolvem e bolam suas missões fez com que eu sempre conseguisse entender o que estava acontecendo. Mesmo quando a história parecia “não estar andando”, havia algum detalhe que ajudava a desenvolver melhor esses personagens e a me habituar a cada um deles — mesmo processo que ocorre com as diferentes regiões de Tóquio pelas quais você passa.

Essa “lentidão” aparente é combinada a uma série de tarefas pequenas que ajudam a manter o jogador engajado no que está acontecendo. Trabalhar ou ler um livro não são atividades que exigem muito esforço mecânico, mas saber que você está evoluindo de alguma forma (mesmo que lentamente) ajuda a manter o foco em seus objetivos futuros.

Ainda não evolui o suficiente em Persona 5 para atribuir uma nota ao jogo (isso é com o Vini), mas já posso dizer que é um game que mantém a trajetória de sucesso da Atlus. Fazendo com que o jogador entenda rapidamente seu ritmo próprio (e fazendo com que ele se divirta com isso), o RPG compensa toda a espera necessária para seu lançamento ocidental e merece a atenção mesmo de quem já está desiludido com a interpretação japonesa desse gênero cada vez mais diluído nos dias atuais.

97 ps4
Excelente
"Persona 5 trouxe melhorias muito boas em relação aos anteriores e, mesmo com alguns pontos negativos, é um dos maiores JRPGs de todos os tempos"

Pontos Positivos

  • Experiência riquíssima e com muito conteúdo variado que dura mais de 100 horas
  • Uma melhoria completa em relação aos anteriores
  • História fantástica e muito gostosa de consumir
  • Ritmo muito mais rápido e balanceado
  • Dezenas de novas adições modernas ao combate clássico de JRPG
  • Extremamente imersivo e com muitas atividades extras para fazer
  • Uma das melhores trilhas sonoras dos últimos anos e
  • As dublagens, tanto em inglês quanto em japonês, são sensacionais
  • Direção de arte e estilização fantásticas
  • As novas dungeons são bem mais criativas e têm level design fantástico

Pontos Negativos

  • Câmera e a interface podem atrapalhar de vez em quando
  • Apesar de ter direção de arte maravilhosa, Persona 5 tem gráficos da geração passada
  • Algumas decisões forçadas são chatas
  • Legendas em inglês podem atrapalhar a experiência de alguns

Outras Plataformas

97 ps3