O morfador ainda funciona, mas parou no tempo

Na década de 1990, Mighty Morphin Power Rangers era uma verdadeira febre no Brasil – e eu fazia parte dela. Ficava na frente da televisão religiosamente todos os dias, contava o tempo para a estreia do longa-metragem, tinha os bonecos que trocavam de cabeça e passava horas jogando o título no estilo beat ‘n up para Super Nintendo.

O tempo passou, mas a franquia da Saban ainda existe. O que parece não ter mudado é a transposição da série para os games: Power Rangers Super Megaforce, desenvolvido pela 7th Chord para o Nintendo 3DS, mistura os moldes do estilo antigo com uma roupagem original, finalizando com um toque de nostalgia.

Nada de Alpha, Zordon, Bulk ou Skull

Cuidado para não se perder: com temática pirata, Power Rangers Super Megaforce é a continuação de Power Rangers Megaforce. Trata-se da 21ª temporada de Power Rangers, uma celebração dos 20 anos de aniversário da franquia da Saban, atualmente exibida nos Estados Unidos pela Nickelodeon.

Assim como nas temporadas anteriores, essa é a versão ocidentalizada de um Super Sentai, série japonesa de tokusatsus (programas de TV com efeitos especiais e atores de verdade) envolvendo supergrupos de heróis coloridos com robôs gigantes. No caso, Super Megaforce utiliza filmagens, roupas, trama e outros elementos de Kaizoku Sentai Gokaiger, exibido no Japão entre fevereiro de 2011 e 2012.

A história começa exatamente onde Power Rangers Megaforce parou. Os alienígenas Warstar foram derrotados, mas o Príncipe Vekar, irmão do comandante que fracassou, chega à Terra com um exército renovado. Para vencer a Armada, o supergrupo ganha os Poderes Lendários, que fazem não só com que eles tenham mais força e um uniforme diferente, mas também um poder especial que pode ser descrito como "morfagem regressiva" — ou seja, virar grupos antigos de Power Rangers.

20 anos depois? Nem parece!

O game é um beat ‘n up clássico no estilo plataforma horizontal que segue uma fórmula: uma fase com história (leia-se três falas rasas antes começar), três só de pancadaria entre você e os capangas, uma só contra o chefão e a última controlando o megazord. A quantidade de fases é altíssima, mas por conta da repetição isso se torna uma verdadeira tortura.

Apesar de contar com cenários que garantem uma movimentação (quase totalmente) livre, os golpes são desferidos somente na horizontal. Ou seja, você pode se aproximar de um inimigo por "cima" ou por "baixo" da tela, mas a pancadaria precisa ser desferida pela esquerda ou pela direita. Na jogabilidade, as semelhanças com Mighty Morphin Power Rangers se tornam mais gritantes.

Os ataques são feitos com o botão “A”, enquanto o “B” serve para salto. O “X” dispara tiros de longa distância, enquanto o golpe carregado de “Y” desarma defesas. Completando os comandos, “L” e “R” servem para soltar um escudo e um ataque especial, respectivamente. O domínio dos controles é rápido, mas a limitação das animações e dos combos tornam o processo um pouco repetitivo.
E se as lutas contra capangas são "mamão com açúcar", o desequilíbrio é notável na hora de encarar os chefes. Eles têm uma vida altíssima, o que obriga você a evoluir muito os rangers nas fases menores. Há sempre uma estratégia para derrotá-los que envolve quebrar a defesa e escapar dos golpes, mas nem todos repetem o mesmo padrão de comportamento.

RPG: não é o ideal, mas é o que tem

Como novidade, Power Rangers Super Megaforce apresenta um sistema de evolução de personagens que é muito básico, mas adiciona elementos interessantes de RPG – quanto maior o level, maiores os status do ranger, que fica cada vez mais forte e resistente.

O nível de dificuldade é um pouco desequilibrado: o “Normal” é ridiculamente fácil para personagens evoluídos e o “Hard” é quase frustrante, especialmente nas batalhas contra chefes. Quer jogar com todos os rangers alternadamente? Então boa sorte, porque isso vai exigir muito treino (ou seja, repetir fases) antes de seguir na campanha.

Além disso, você recebe uma quantidade de estrelas a cada fim de fase, de acordo com o seu desempenho em três tópicos: tempo de jogo, quantidade de dano recebido e combos aplicados. Esse valor também é convertido em moedas que podem ser usadas para comprar itens de cura e evolução na loja virtual do game.

Nostálgico é diferente de preguiçoso

Depois de jogos como o novo Super Smash Bros. e Super Mario 3D World, vai ser difícil encarar títulos visualmente inferiores – por maior que seja o esforço, eles parecem ter um abismo de distância. Ainda assim, a aventura dos Power Rangers ao menos se esforça. O visual dos personagens está bastante fiel, dos guerreiros aos monstros, passando pelos megazords. O que deixa a desejar é o cenário, que parece sempre o mesmo em todas as fases, com pequenas variações de textura e obstáculos.

Por outro lado, as músicas são um pouco antiquadas, é verdade, mas trazem boas lembranças de jogos antigos da série. Elas equilibram bem o uso de sintetizadores com guitarras mais pesadas – e, sim, há uma variante instrumental da clássica “Go, go, Power Rangers!”.

“É hora de morfar!”

O grande trunfo de Power Rangers Super Megaforce para tentar fisgar o público veterano é a inclusão de 30 personagens na lista de selecionáveis. Além da equipe atual, é possível desbloquear os rangers vermelhos de todas as gerações anteriores da série, além da equipe completa da fase Mighty Morphin Power Rangers (Jason, Billy, Zack, Kimberly, Trini e os dois uniformes de Tommy).

Os inimigos são pouco variados, mas até os clássicos “bonecos de massa” da primeira temporada estão presentes – e o chefe final é um velho conhecido que vai fazer com que os fãs mais ardorosos comemorem tanto quanto a chegada de Mewtwo em Super Smash Bros...

Para liberar os extras, ou você cumpre certos objetivos no jogo ou escaneia as chaves Super Megaforce, uma linha de brinquedos relativa à temporada atual da série. O desbloqueio desses personagens é relativamente fácil, e eles são representados com fidelidade: as armas e até o estilo de luta de cada geração foram respeitados. É tanta gente que quem acompanhou todas as sagas dos heróis vai demorar até escolher quais personagens controlar em cada fase.

Vale a pena?

Power Rangers Super Megaforce não é um super megajogo. Porém, isso também não significa que ele seja totalmente descartável: o game segue uma fórmula de sucesso e se revela divertido para quem é fã de beat ‘n up e, especialmente, amante da franquia da Saban. Ele é obviamente destinado ao público infantil, e isso pode prejudicar a experiência de fãs veteranos atraídos pela possibilidade de controlar rangers antigos. Ainda assim, cumpre muito bem o papel de entreter gerações mais novas – e pode até servir como um gancho para que elas corram atrás das séries clássicas.

É verdade que o título tem uma cara de “feito nas coxas” e é repetitivo demais, mas a própria série também não é episódica e muito parecida em estrutura? Por isso, dê uma chance ao game, jogue paciente e gradativamente e tente viver a aventura como se estivesse jogando uma espécie de sequência perdida no tempo de Mighty Morphin Power Rangers no Super Nintendo.

Elementos como o sistema de RPG e o fator nostalgia com o alto número de personagens jogáveis são qualidades que destoam bastante do resto do game e merecem destaque. Tudo isso faz com que ele seja muito superior ao anterior, Power Rangers Megaforce, o que indica que a 7th Chord sabe o que fazer para revitalizar a franquia nos games e merece uma nova oportunidade.

Power Rangers Super Megaforce não é a melhor forma de celebrar 20 anos de uma franquia tão importante, mas é uma maneira simples e digna de assoprar as velinhas. Zordon ficaria orgulhoso.

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60 3ds
Regular
"Não exija demais: tem limitações, mas é um bom passatempo para quem vê a série ou morre de saudades de gritar "É hora de morfar!"."

Pontos Positivos

  • Nostalgia, nostalgia e nostalgia
  • Um bom sistema básico de RPG
  • Trilha sonora adequada e empolgante

Pontos Negativos

  • Nível de dificuldade desequilibrado
  • Estilo preguiçoso e sem detalhes
  • Repetitivo demais