Análise de Ragnarok Online II: Legend of the Second

O novo e o velho se encontram em um modelo já ultrapassado

A continuação de Ragnarok Online já é um rumor desde meados dos anos 2000 e, inclusive, algumas supostas imagens do game em três dimensões (o que era uma revolução para a época) apareceram para fomentar a imaginação dos jogadores viciados no vasto e árduo reino de Rune-Midgard. Porém, foram muitos os anos sem qualquer novidade e muita gente provavelmente se esqueceu da possibilidade – afinal, muita coisa muda em quase 10 anos.

Não muito tempo atrás, novidades apareceram e o título Ragnarok Online 2: The Gate of the World foi mostrado ao público, algo parecido com os antigos moldes mostrados anos antes. Porém, aparentemente a Gravity Corporation não estava satisfeita com o resultado obtido, tanto porque os gráficos não estavam bons, quanto pelo fato de o MMORPG não lembrar quase nada em relação ao original. Então, a equipe inteira foi demitida e outra foi contratada para fazer Ragnarok Online II: Legend of the Second, que conseguiu o resultado esperado.

No final do ano passado, Ragnarok Online 2 já estava disponível em países asiáticos, porém não era necessário fazer nenhuma gambiarra para jogar por aqui, como baixar patch de tradução, pois o game já foi criado inteiramente em inglês, o que facilita a vida de muita gente. Não passou muito tempo e a empresa responsável bloqueou IPs brasileiros, porém o game foi parar o Steam, e agora já é possível jogá-lo, mesmo que ele esteja supostamente “indisponível” em nossa região.

Jogar Ragnarok Online II: Legend of the Second compensa para quem deseja matar as saudades e a curiosidade em relação a uma fantasia presente na cabeça de praticamente todos os jogadores do primeiro título da série: como seria o game com gráficos melhores. Ou seja, ao considerar o jogo por si mesmo, talvez não fosse interessante recomendá-lo devido à sua simplicidade, ou melhor, pelo fato de ele estar ultrapassado – na verdade, provavelmente ele nem sequer seria avaliado aqui.

Entretanto, como você deve saber, Ragnarok Online foi um enorme sucesso entre os brasileiros, então não poderíamos deixar de analisá-lo. Trocando em miúdos, o game não é perfeito, mas tenta recriar RO em um ambiente mais aprimorado, o que é uma tentativa válida da Gravity, embora extremamente atrasada. Então, por mais que o game tenha lá os seus defeitos, ainda assim você consegue mergulhar na aventura e perder completamente a noção do tempo.

Embora isso já acontecesse no jogo anterior, o fato de agora existir uma história relativamente envolvente e bem estruturada deixa Ragnarok Online II: Legend of the Second ainda mais interessante. Logo, mesmo que você não tenha tempo para criar sua própria guilda e administrá-la como já deve ter feito antigamente, jogar apenas casualmente “pelos velhos tempos” é uma experiência bacana.

Narrativa envolvente

Muito embora você possa ignorar totalmente a história e seguir em frente na velocidade da luz para tentar atingir rapidamente o nível máximo para conseguir aproveitar todo o conteúdo do game sem dificuldades, talvez compense dar pelo menos uma passada de olho no texto das missões principais (as secundárias são irrelevantes, do tipo “mate aqueles monstros-flores porque estão me fazendo espirrar”, por exemplo). As tarefas principais podem ser identificadas quando o NPC recebe um zoom da câmera quando você vai conversar.

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Assim como outros MMORPGs mais simples, RO2 apresenta apenas o texto escrito na maioria de suas missões, porém há momentos-chave nos quais você se depara com animações relevando parte da história, as quais são narradas em tempo real, sem nenhum texto para você ler. Isso torna o título melhor do que outros games do gênero, porém não podemos compará-lo nem de perto com os grandes nomes do setor.

Comparativamente com o primeiro Ragnarok Online, apenas o fato de existir uma história já é algo excepcional. Ainda, considerando que existe uma cadeia de missões que guia você por um tutorial básico e entre os principais lugares do mundo, sem nunca deixá-lo sozinho, aí sim temos algo que chama a atenção: em RO, você era guiado muito “mais ou menos” até trocar de profissão, mas logo depois era largado ao léu, precisando ler guias online para descobrir onde ir ou como ficar mais forte.

Familiaridade aconchegante

Você consegue reconhecer praticamente todos os monstros de RO2 se já jogou o outro game, principalmente aqueles das regiões iniciais. Porém, muitos dos chefões que você encontra também são repetições vindas do primeiro título. Ou seja, você não vai encontrar apenas Porings, Lunatics e Creamies, mas também pode desafiar o temível Baphomet. Entretanto, os monstros mais difíceis estão escondidos em locais onde você chega apenas com grupos, dificilmente sendo possível matá-lo sozinho nesta continuação do jogo.

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Não apenas monstros, mas os próprios lugares de Rune-Midgard são familiares: embora nem todas as cidades do game original tenham sido mantidas, você pode encontrar Prontera, Payon e Alberta, por exemplo. Além disso, a sua arquitetura continua a mesma, então não há como se perder nas cidades principais. Contudo, os mapas de exploração estão um pouco diferentes, até porque se passaram pouco mais de 300 anos desde os eventos de Ragnarok Online.

As mesmas classes

Esse lapso temporal pode explicar o completo sumiço das novidades que você encontrava nas expansões do primeiro título, como classes diferentes e regiões longínquas. Porém, você continua podendo se tornar espadachim, gatuno, arqueiro, noviço ou mago: em sua maioria, elas mantêm as suas respectivas especializações, com exceção do arqueiro que agora não pode mais virar um bardo (o que, pessoalmente, tira um pouco a graça do jogo).

Falando sobre as classes, vale notar que não é mais possível ser exclusivamente ferreiro ou alquimista: elas deixaram de ser classes para se tornar profissões. Isto é, agora é possível ser um espadachim ferreiro ou um mago alquimista, por exemplo. Contudo, cada personagem está limitado a apenas uma profissão – aliás, agora todo mundo pode abrir a sua própria lojinha no meio da rua (o que promete resgatar o caos de não conseguir andar direito no centro das cidades).

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Novidades antigas e recentes

De maneira geral, você consegue encontrar praticamente tudo o que existia no game original em sua continuação, porém com modificações para melhorar o seu desempenho. No entanto, é possível encontrar novidades realmente “novas”, sobretudo campos de batalha entre jogadores com sistemas elaborados que você não acha em nenhum outro MMORPG.

Mas agora há também elementos como serviço de voo entre cidades próximas, para acabar com o antigo terror de morrer dezenas de vezes ao pensar sobre a necessidade de ir de um ponto X até um ponto Y, já que o caminho estava repleto de inimigos agressivos e até mesmo chefões (que agora não são mais encontrados andando pelos mapas). Além disso, outra melhoria é que todos podem andar de PecoPeco na continuação, algo que antes era exclusividade dos cavaleiros.

Modelo ultrapassado

Se você pegar todos os MMORPGs lançados nos últimos oito anos, a esmagadora maioria não apenas apresenta comandos de teclado semelhantes, como também um sistema de batalha reconhecido pelo uso da tecla Tab para selecionar qual inimigo você vai atacar. Isso não apenas torna os combates mecânicos e monótonos demais, como também limita basta o uso de táticas durante o combate.

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Quer um exemplo? Jogando como arqueiro, você não consegue encontrar praticamente nenhum lugar para usar a tática de “sniper”, isto é, acertar o inimigo sem que ele possa revidar: isso acontece porque o sistema de combate impede você de acertar golpes caso o alvo não esteja na sua “linha de visão”, então os cenários nem sequer apresentam áreas nas quais você possa tentar aplicar a tática.

Outro exemplo de arqueiro (a classe testada por mais tempo, embora espadachim tenha sido jogada também): você se vê obrigado a lutar “corpo a corpo” com os inimigos, pois a sua única armadilha que os faz ficar parados no lugar pode ser usada apenas a cada 30 segundos (cada luta demora 15) e ficar correndo não adianta: mesmo a mais de 5 metros de distância, os inimigos conseguem acertar o seu personagem pelo simples fato de estarem em “modo de combate”. Dessa forma, o lobo solitário acaba sendo obrigado a formar grupos.

Ao compararmos RO2 com os MMORPGs aclamados mais recentes, como RIFT, D&D Neverwinter, TERA e Guild Wars 2, podemos reparar que todos apresentam um combate mais realista; por exemplo: sair da área de alcance do inimigo torna impossível que ele acerte determinados ataques. Comparando com o RO original, o mapa quadriculado tinha suas desvantagens, mas era mais preciso: ao fugir de um inimigo, ele perseguia você até você sair do mapa, porém agora ele deixa de fazer isso, o que pode estragar a tática “bater e correr”.

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Gráficos pouco elaborados

Obviamente que, comparando com o primeiro título, os gráficos melhoraram bastante, algo muito interessante, pois podemos dizer que este game é tudo o que RO deveria ter sido no seu lançamento. Ou seja, embora tenha sido lançado no ano passado, a “atualidade” do jogo está atrasada muitos anos: ele teria sido um concorrente forte contra World of Warcraft caso tivesse sido lançado do jeito como está hoje naquela época. Mas agora já é tarde demais.

Embora WoW tenha melhorias visuais apenas em suas expansões e ainda apresente algumas coisas horríveis nos cenários mais antigos, comparativamente, isso não é pretexto para a Gravity lançar um game no qual as texturas são tão pouco elaboradas como em RO2 – isso torna missões de coleta muito difíceis, pois você quase não consegue encontrar onde estão os itens a serem colhidos da natureza, já que não há distinção visual entre eles e o cenário.

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Entretanto, nem tudo é ruim nos seus gráficos: a aparência dos personagens, usando traços de anime, os torna muito mais expressivos, diferente do game anterior, no qual uma cabeça não tinha boca nem nariz. Nesse quesito, por mais que as expressões faciais não mudem, RO2 consegue bater games atuais por tornar o seu personagem expressivo, saindo um pouco do padrão de rosto “psicopata incapaz de mostrar emoções”. E ainda, os gráficos são bons apenas em comparação a RO, pois são a forma 3D deles: de resto, eles deixam a desejar na qualidade.

Mais do mesmo

Tudo bem que a maioria dos jogadores de Ragnarok Online está longe do jogo há vários anos (considerando que boa parte deles já entrou na vida adulta e não tem mais tempo para passar a tarde jogando), porém simplesmente remodelar o visual e dar algumas melhorias talvez não seja interessante o bastante para manter o público. Tudo bem, muita gente vai voltar a jogar por saudades daquela época, mas a falta de originalidade, apostando inteiramente na renovação visual de conteúdo antigo, talvez não seja suficiente para mantê-los jogando.

Existe sim uma narrativa interessante da história, com animações para as cenas mais marcantes, porém deixar de lado as histórias secundárias e dá-las apenas um caráter de “faça isso para ganhar experiência” é um erro gigante. Além disso, mesmo quando as tarefas são bem encaixadas no contexto, absolutamente tudo se resume a “mate tal quantidade de monstros”. É repetitivo. Falta inovação. Contudo, como RO era assim, talvez isso acaba não sendo visto como um problema tão grande. Afinal, o game serve de passatempo.

72 pc
Bom