Um mundo fantástico fadado ao esquecimento [vídeo]

Desde seu anúncio, Remember Me tem chamado a atenção dos jogadores por conta de seu conceito único. Por ser uma franquia inédita, a Dontnod e a Capcom tiveram total liberdade para explorar um universo novo para apresentar ao jogador uma experiência totalmente diferente daquela com que ele está acostumado. Em tempos em que as sequências saturam o mercado, qualquer respiro de originalidade é bem-vindo.

No entanto, isso é o suficiente para fazer com que um jogo seja bom? Novamente, o dilema sobre o peso da narrativa e da jogabilidade volta à tona em um game que tinha tudo para dar certo, mas que falha ao pensar alto demais e não cumprir o básico. Na tentativa de criar uma história complexa e repleta de nuances, o estúdio se preocupou em fazer um filme e não um jogo.

Um jogo não é feito apenas de boas ideias. Por mais que inovação seja algo em falta nos lançamentos recentes, ela não é sinônimo de sucesso. No caso de Remember Me, a criação de um conceito interessante, mas cercado de soluções simplistas gera uma decepção enorme. Você consegue ver o potencial que a Dontnod tinha em mãos, mas que foi desperdiçado.

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E não foi por falta de tentativa. O estúdio procurou maneiras de fugir do comum com uma temática diferenciada e que fizesse de seu projeto algo único. E nesse aspecto, não há do que reclamar, já que Remember Me consegue instigar o jogador como poucos. O problema é que ele esquece aquilo que é básico em um jogo e se concentra apenas na narrativa. Com um level design sem inspiração e um nível de desafio que beira a inexistência, o jogo mata a diversão em prol da história que ele quer contar.

Voltando ao embate entre narrativa e jogabilidade, o game da Dontnod mostra que não existe uma fórmula que indique qual a dosagem certa de cada elemento. É uma busca por equilíbrio que varia constantemente e cujo resultado você só descobre quanto testa o título em si. No caso de Remember Me, o ótimo conceito é construído sobre uma base fraca e não consegue se sustentar por mais do que alguns minutos. Ele falha ao criar um mundo que encanta, mas que não oferece maneiras de explorá-lo e conhecê-lo a fundo.

É uma pena que, apesar das boas intenções, a cruzada de Nilin por suas recordações esteja fadada ao esquecimento.

Bem-vindo a Neo Paris

O ano é 2084. A cidade de Neo Paris vive as maravilhas trazidas pela tecnologia. Robôs ajudam os seres humanos em tarefas domésticas, painéis digitais estão espalhados por todos os lugares e a comodidade trazida pelas máquinas deixa claro que o futuro é aquilo que nós sempre sonhamos.

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E no topo de tudo está a Memorize, uma megacorporação que comanda toda a cidade graças ao Sensen, um dispositivo criado por ela que permite que as pessoas compartilhem memórias como se elas fossem um produto qualquer. Nesse mundo, lembranças podem ser trocadas e você pode comprar a recordação de um passado nunca vivido. Lembra-se do filme “O Vingador do Futuro”? Pois a ideia é basicamente a mesma.

Só que essa utopia é para poucos. Enquanto a elite vive em um mundo perfeito, os moradores da periferia precisam encarar a violência gerada pela segregação social e as péssimas condições de vida nas áreas “esquecidas” de Neo Paris. E esse tipo de situação é terreno fértil para que grupos rebeldes, como os Errorists, apareçam.

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É no meio desse turbilhão de acontecimentos que somos apresentados a Nilin, uma caçadora de memórias que, já nos primeiros minutos de jogo, tem suas recordações apagadas e precisa escapar da prisão para tentar resgatar as lembranças de sua vida antes de parar nas frias celas da Bastilha.

E por mais que acompanhemos a cruzada da protagonista em busca de sua própria história, isso é apenas um detalhe perto de tudo o que a Dontnod criou em ternos de ambientação. Neo Paris é uma cidade viva e tão complexa que você sente vontade de deixar os dilemas da heroína de lado por alguns instantes para explorar tudo aquilo que nos é apresentado. Você sente que, por trás da beleza da área rica ou da imundície da periferia, há muito o que ver e isso cria um envolvimento que há tempos não aparecia em um video game.

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E Remember Me faz isso muito bem, apresentando a cidade, sua sociedade e seus problemas de maneira que você se importe com tudo aquilo. Como nos filmes de Paul Verhoeven, Nilin é apenas o fio condutor de uma história repleta de críticas e metáforas sobre nós mesmos. Neo Paris é o mundo distópico criado para 2084 que aponta as nossas falhas em 2013 — e tudo isso faz com que você queira mergulhar mais e mais nessa realidade.

Do seu jeito

Mas não é apenas na história que Remember Me tenta inovar. A Dontnod se preocupou em criar uma mecânica para fugir da mesmice dos Beat ‘em Ups e trouxe um sistema inédito que vai além do esmagar de botões. Você tem toda a liberdade para personalizar os combos de Nilin, fazendo com que os combates sejam muito mais estratégicos do que a velha porradaria desenfreada.

Ao contrário de outros jogos do gênero, a evolução da personagem não é feita a partir de novas habilidades que são desbloqueadas. A experiência obtida nas batalhas é convertida em movimentos que devem ser usados para a criação de uma sequência de golpes bem variada. A diferença é que isso vai além de um recurso meramente visual.

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Cada um dos Pressens — nome dado a esses comandos — tem um efeito próprio. Alguns são dedicados à força física, enquanto outros recuperam sua energia ou diminuem o tempo de espera para o próximo especial, mas todos exigem que você pense muito bem na hora de criar um combo.

Por mais que você tenha de seguir um padrão de botões — é o jogo que determina quais serão as sequências que devem ser apertadas —, é a organização desses Pressens que vai ditar o ritmo das lutas. Dependendo da combinação escolhida, o dano de seu ataque é maximizado ou Nilin pode regenerar sua energia enquanto surra alguns inimigos.

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O resultado disso na jogabilidade é muito positivo. Fugindo dos clichês do gênero, Remember Me consegue adicionar uma boa dose de estratégia às batalhas. Isso não impede que tudo fique repetitivo em pouco tempo, mas ainda exige que você pense antes de encarar determinado tipo de inimigo em vez de macetar seu controle.

Reconstruindo suas memórias

E se nós pudéssemos controlar nossas memórias? É a partir desse questionamento que o mundo de Remember Me foi criado. Portanto, é natural que as recordações tenham um peso muito grande não só para a narrativa, mas também na jogabilidade, criando diferentes situações.

Algumas delas são bem básicas e previsíveis, como as missões em que você deve procurar algum figurão da Memorize para roubar suas lembranças ou extrair as memórias de alguém para seguir seus passos. No entanto é quando decidimos reescrever a história é que as coisas ficam realmente interessantes.

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O maior destaque de todo o jogo é o chamado Remix, um sistema em que você invade a mente de alguém para redefinir a forma como algo aconteceu para que, com isso, seja possível convencê-lo de algo que você precisa. É mais ou menos o conceito utilizado no filme “Inception — a Origem”, mas um pouco mais divertido.

No caso, Nilin consegue reviver algumas situações e fazer pequenas mudanças que, à primeira vista, são inofensivas, mas que podem alterar toda a percepção do alvo sobre o ocorrido. Para isso, é preciso estar atento às possíveis falhas de memória — as pequenas incertezas que todos nós temos — para “hackeá-las” e modificá-las a seu bel prazer. No fim das contas, não é na sua versão que a vítima vai acreditar, mas naquilo que você fez ela se lembrar.

O mais divertido de tudo é que essas alterações são feitas na base da tentativa e erro. Nem todas as interferências possíveis vão gerar o resultado necessário e tentar descobrir o que fazer é quase tão prazeroso quanto ver que sua percepção está apurada.

Sempre em frente

Por mais que a Dontnod tenha tentado criar um universo grandioso para contar a história de Nilin, as coisas ao funcionam tão bem quanto a produtora gostaria. E o mais curioso — e triste — de tudo é que Remember Me tomba por não conseguir sustentar tudo aquilo que ele se propõe a ser.

Como eu falei no começo da análise, a construção de Neo Paris faz com que você queira explorar aquele mundo, conhecer seus segredos e ver além daquilo que a trama apresenta. A ambientação instiga o jogador a ir além, mas o jogo não permite que isso aconteça.

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Tudo isso porque o mundo futurista de Neo Paris é, na verdade, um grande corredor em que você só precisa seguir em frente. Do momento em que Nilin acorda desmemoriada na Bastilha até a última batalha, tudo o que você precisa é andar em linha reta e acompanhar o caminho que já está pronto. A estrada de tijolos amarelos está na sua cara e não há nenhuma rota paralela que permita que você se aprofunde naquela realidade.

E por mais que a linearidade tenha sido uma triste característica dessa geração, Remember Me consegue levar o conceito ao extremo ao eliminar qualquer possibilidade de exploração. Não há brechas para que você conheça a cidade além das paisagens que estão em torno do corredor que se abre à sua frente — e isso é incrivelmente frustrante. O jogo faz com que você acredite que há um mundo em ebulição ao seu redor, mas não permite que isso possa ser visto e vivido.

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Como se não bastasse, o game ainda trata o jogador como idiota e acentua a falta de liberdade ao trazer indicações desnecessariamente didáticas sobre o que fazer. São setas apontando por onde ele deve seguir, em quais plataformas pular e quais estruturas é preciso evitar para não tomar dano. É como se ele duvidasse da capacidade de quem está com o controle ou segurasse em sua mão para atravessar a rua. É algo que vai contra o desafio que faz parte da experiência de um video game.

De quebra, ainda temos outras pequenas falhas que apenas complicam a situação. A câmera é confusa e atrapalha suas lutas, impedindo que você tenha total visibilidade do que acontece ao seu redor. Em um jogo em que o ritmo de seus golpes é fundamental para seu desempenho nas batalhas, trazer uma perspectiva limitada e que mais favorece seus inimigos do que a protagonista é um erro banal e que desvia a atenção a todas as novidades trazidas para a mecânica.

65 pc
Regular

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65 ps3
65 xbox-360