Análise de Shin Megami Tensei: Devil Summoner: Soul Hackers

Um JRPG que recompensa a paciência com uma experiência profunda e interessante

Desenvolvido e publicado pela Atlus, Shin Megami Tensei: Devil Summoner: Soul Hackers é a mais nova aquisição em termos de JRPG para o Nintendo 3DS. O console portátil da Big N não é exatamente um fenômeno no que diz respeito ao tamanho e à qualidade da biblioteca de jogos, mas possui uma boa gama de títulos, e Soul Hackers certamente chegou para somar.

A primeira informação relevante sobre Soul Hackers é saber que ele é um remake de um jogo lançado em 1997, que nunca saiu das terras japonesas. A segunda coisa que todo mundo precisa saber sobre a franquia Shin Megami Tensei é que ela trata quase invariavelmente de dois temas obrigatórios: tecnologia e ocultismo. Sendo assim, já podemos esperar que este game tenha uma temática que abrace o que o próprio nome evoca: hackers e almas.

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O universo cyberpunk do game conta a história de um grupo de jovens que venera a tecnologia e se autodenomina “The Spookies”. Você assumirá o controle de um dos membros dessa gangue pela cidade high-tec de Amami, passando inclusive por dentro de uma outra cidadela virtual — conhecida como Paradigm X.

E é exatamente nesse espaço do mundo online que se encontra o lado obscuro dos habitantes de Amami, juntamente com todas as entidades mais demoníacas e poderosas da existência humana. E isso não é exagero, pois quem acompanha a franquia Shin Megami Tensei desde Nocturne, Digital Devil Saga e o primeiro Devil Summoner sabe que o pessoal da produção japonesa gosta de um bom (e avantajado) tom dramático.

Inclusive, um de seus problemas é que sua melhor amiga, Hitomi, é possuída por um demônio logo no começo do jogo. A tal da “Nemissa” faz parte de uma série de jornadas espirituais (ou não) nas quais você terá que embarcar, sempre orientado por um misterioso homem chamado Redman, que assume a forma de um lobo.  

Shin Megami Tensei: Devil Summoner: Soul Hackers é um jogo que adiciona um caráter sério e adulto para as telinhas do Nintendo 3DS. Juntamente com a remasterização de quesitos técnicos, que não é nenhuma atração muito chamativa para ajudar na decisão de comprar ou não o game, Soul Hackers traz 30 novos demônios, incluindo criaturas inéditas e outras retrabalhadas da versão original.

Quem é fã de JRPGs e, consequentemente, da franquia Shin Megami Tensei ou de Persona encontrará em Soul Hackers uma experiência que até então estava faltando para completar o que havia sido entregue em Shin Megami Tensei: Devil Survivor Overclocked — que chegou há dois anos também para o portátil da Big N.

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No entanto, a exigência que o game faz dos jogadores é alta demais. É realmente preciso ter muita, mas muita paciência para começar a conhecer o enredo que será vivido no jogo. Sem falar que, assim que você liga o jogo, são mais de 16 minutos sem que você praticamente precise tocar no seu 3DS, bastando apenas assistir tudo o que acontece... E mais: a primeira luta de verdade só acontece perto da primeira hora de jogatina.

Assim, não podemos dizer que Shin Megami Tensei: Devil Summoner: Soul Hackers é um jogo feito para qualquer gamer, de qualquer idade. Muito pelo contrário: ele requer tanta dedicação que praticamente já tem um público bastante específico. Portanto, se você acha que tem os atributos para ser um “jogador de Shin Megami Tensei”, prepare seu melhor humor e vista a camisa dos jogadores hardcore de RPG e vá à luta.

Do contrário, é possível que você não aguente nem os cinco primeiros minutos. Com SMT é assim: ame-o ou o odeie.

Profundidade do enredo

Adoradores de JRPG sabem que uma das principais características do gênero são a amplitude e a profundidade com a qual os enredos são contados. A seriedade na construção das histórias, ainda que elas tragam passagens bem-humoradas e descontraídas, denota que a equipe por trás do enredo de um role playing game nunca trata a aventura como um simples quesito, e sim como o aspecto principal.

Mais uma vez, para confirmar essa prerrogativa, Shin Megami Tensei: Devil Summoner: Soul Hackers entrega uma narrativa que começa tênue e desinteressante e vai se tornando mais e mais intensa. Depois que os principais elementos são apresentados aos gamers, parece que o mundo dentro do jogo começa a ganhar uma vida completamente nova, e cada novo demônio descoberto traz uma dezena de minutos muito interessantes.

A mistura entre tecnologia e elementos místicos é uma proposta que já pode ser considerada antiga, mas que ainda foi muito bem executada em Soul Hackers. Tirando a demora que a história leva para engrenar, vale muito a pena prestar atenção em todos os detalhes que são demonstrados pelas ruas de Amami.

Exploração em primeira pessoa

Diferentemente de RPGs convencionais, Shin Megami Tensei: Devil Summoner: Soul Hackers adota um curioso sistema de exploração das dungeons com uma visão em primeira pessoa. Quem já conhece a série não vai achar isso tão impressionante, mas, para quem está chegando agora, a proposta é diferenciada e muito legal.

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Mapa onipresente

Quem joga JRPG se preocupa com a história, com os desafios que encontra aleatoriamente pelos cenários e principalmente em administrar estratégias viáveis para detonar múltiplos inimigos, utilizando vários personagens diferentes. Agora, quando você ainda precisa se atentar ao caminho que deve seguir, em termos de complexidade (os lugares com gráficos ruins parecem verdadeiros labirintos), geralmente a jogatina perde muito em diversão.

Em Shin Megami Tensei: Devil Summoner: Soul Hackers, você realmente não vai se preocupar muito com isso. Acontece que existe um mapinha no lado inferior direito da tela, que é praticamente onipresente e realmente não deixará você se perder. É a mesma sensação que tínhamos ao jogar GoldenEye 007 para Nintendo 64 e encontrávamos um inimigo antes de ele aparecer apenas olhando no mapa. Excelente!

Visual sinceramente cansado e datado

Bom, quem está acostumado com um PlayStation 2 já iria reclamar do visual de Shin Megami Tensei: Devil Summoner: Soul Hackers... Os gráficos não deixam dúvidas de que o jogo foi criado na era dos 32-bits, passando por algumas modificações técnicas mínimas, priorizando o som ao visual.

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A adaptação ao efeito em 3D do Nintendo 3DS não renova em nada a apresentação do game, sendo que a única modificação realmente notável é o aumento da profundidade do cenário em determinadas ocasiões — com o 3D ligado no máximo. Tirando isso, Soul Hackers passaria fácil por um jogo realmente muito inferior.

Interface pouco intuitiva

Shin Megami Tensei: Devil Summoner: Soul Hackers consegue entregar uma interface complexa mesmo para quem está acostumado com RPGs. Não que seja impossível concluir as coisas apenas lendo as opções do menu principal das lutas, mas, mesmo que você esteja atento aos comandos, é possível que algumas lutas desandem vorazmente.

Há uma espécie de ataque surpresa que pode ser infligido e acaba por adulterar a ordem esperada de batalha — lembrando que a hierarquia de atacantes é um dos elementos fundamentais no planejamento da estratégia em um RPG de turnos. Portanto, sua equipe pode ser devastada no mais improvável “de repente”.

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Fora isso, não há tutorial e as explicações sobre os demônios e sobre suas possibilidades de ataque são dadas com muita discrição lá pela segunda hora de jogatina. Assim, quem ainda não está familiarizado com a dinâmica de Shin Megami Tensei terá sérios problemas para descobrir o que fazer.

Mecânica de jogo quase nada fluida

A falta de explicação sobre os comandos que devem ser utilizados nas lutas só não é maior do que a falta de fluidez durante o andamento da campanha principal do game. Assim que os diálogos acabam, você tem uma vaga ideia do que fazer, pois é sabido que se trata de uma história linear, mas ainda assim é complicado encontrar o lugar certo.

Para dificultar um pouco mais o trabalho de quem não é um fã antigo da série, é preciso deixar uma característica extremamente em evidência. Realmente: o jogo é complicado e possui uma curva de aprendizado bastante obtusa.

70 3ds
Bom