Um survival horror com crise de identidade

Como você definiria Silent Hill? É verdade que há uma boa distinção entre os vários games da franquia. Entretanto, deve haver um código genético comum, não? Digamos, mesmo que você considere a releitura controversa de Shattered Memories — em que sequer é possível atacar os inimigos —, ainda há uma série de elementos familiares ali. Ainda é possível identifica-lo como um Silent Hill genuíno.

Ok, dizer que o novo Book of Memories escapa abertamente de todo o tradicional clima de terror psicológico da série seria “chover no molhado”. Como você já deve saber, o Silent Hill que inaugura o Vita poderia ser mais facilmente comparado com uma proposta estilo Diablo — ou algum outro título do gênero.

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Afinal, não apenas a ação da câmera não tem precedentes em qualquer SH anterior, como toda a proposta é aqui orientada para uma ação frenética — trocando as pauladas psicológicas de outros tempos por golpes muito mais... Materiais. Há inúmeros inimigos, há itens variados e, de forma geral, há o tipo de progressão que normalmente seria encontrado em um típico RPG de ação.

Naturalmente, apenas essa nova orientação já seria um problema — embora algo ainda restrito a públicos mais saudosistas, por assim dizer. O problema é que não fica só nisso. Quer dizer, caso o trabalho da Vatra Games tivesse originado um game realmente divertido de ação, é provável que a utilização leviana do título fosse, aos poucos, deixada de lado. Ao final — quem sabe? —, mesmo os fãs de carteirinha poderiam encontrar algumas horas de diversão.

O problema aqui, entretanto, é que, ao tentar flertar com dois gêneros consideravelmente discrepantes, a desenvolvedora acabou não contemplando assim tão bem nenhum deles. Há algumas sacadas boas, é claro. Mas, no geral, é pouco provável que Book of Memories possa realmente se tornar “o Silent Hill do Vita”. Vale conferir os detalhes, é claro.

Book of Memories não é um bom Silent Hill... E também não é um RPG de ação realmente decente — apesar da história psicologicamente carregada e de algumas boas escolhas em relação ao sistema de jogo. Trata-se, no fim das contas, de um título que ficou em cima do muro.

Sem preciosismos aqui, é claro. Afinal, reinventar uma franquia — seja remodelando a partir das bases ou acrescentando novos elementos — é sempre algo tão arriscado quanto potencialmente interessante. O problema é que aquele equilíbrio particular entre inovação e tradição simplesmente não foi encontrado pela Vatra Games.

Enfim, você não levará sustos aqui e terá apenas uma dose mediana de diversão baseada em pancadaria. Jogue por sua própria conta e risco, portanto.

A história é interessante

Esquecendo-se um pouco da proposta central, Book of Memories certamente traz alguns bons elementos. Entre eles, por exemplo, a história. A trama que embala a coisa toda aqui certamente faz jus ao “fabulário” particular da série — sempre cheio de perguntas sem respostas e com sombras em cada canto (literal e figurativamente).

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Aqui você encarnará um personagem genérico (mais detalhes adiante) que, no dia do seu aniversário, recebe de um misterioso carteiro um livro no qual constam mesmo os menores detalhes da sua vida passada. A fim de resolver a coisa toda, o seu avatar precisará se embrenhar por uma série de cenários carregados da estética tradicional de Silent Hill.

Sistema de armas confere alguma tática

Embora a maior parte de Book of Memories seja tomada de uma pancadaria um tanto repetitiva, o sistema de armas aqui certamente representa uma boa escolha. Basicamente, você pode equipar sempre duas (tanto brancas como de fogo), sendo que cada uma das mãos do personagem corresponde a um único botão.

Além disso, conforme ocorria em outros games da série, as armas aqui quebram após algum tempo. Isso com certeza infunde alguma tática no game — já que não basta simplesmente sair despejando porradas de qualquer jeito. Ademais, as armas mais raras ainda podem ser reparadas pelo item chave de boca.

Interação com touchpad

Embora Book of Memories utilize as funções do Vita de foram um tanto tímida, há algumas boas sacadas aqui. Em uma espécie de magia, por exemplo, você precisará drenar a energia dos inimigos ao seu redor — e essa seleção é feita por meio do painel touch traseiro do console.

Não deve agradar nem a gregos e nem a troianos

Book of Memories é um game “em cima do muro”. Mesmo com a boa história e a estética familiar dos mundos de jogo, não chega jamais a convencer como um Silent Hill. Também, mesmo com itens variados e inimigos “a dar com o pé”, é impossível reconhecer aqui algo realmente relevante para a categoria de RPGs de ação.

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Padrões repetitivos

A maior parte das fases aqui se desenvolve sempre da mesma forma, o que com certeza acaba cansando após algum tempo. Trata-se sempre de despachar dezenas de inimigos utilizando armas variadas enquanto se buscam elementos que ajudem a resolver o enigma de cada fase. Eventualmente, há algumas animações para aquecer um pouco a atmosfera — mas mesmo estas são previsíveis, ocorrendo sempre em salas específicas. Sempre igual. Sempre do mesmo jeito.

Dublagem

Dublagens de games para o português são historicamente mal feitas. Mas Book of Memories é com certeza um caso à parte. De fato, mesmo o pouco clima “à La Silent Hill” aqui é constantemente destroçado por interpretações terríveis e até mesmo por traduções desleixadas.

Seleção de itens pouco prática

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Embora seja louvável a tentativa da Vatra Games de utilizar as funcionalidades características do Vita, nem tudo aqui sai como deveria. A seleção de itens utilizando a funcionalidade touch da tela, por exemplo, pode te deixar realmente em apuros — isso porque pode ser complicado tocar exatamente na minúscula caixinha localizada no rodapé. Se você tiver os dedos “avantajados”, fica pior ainda.

Crie o seu próprio estereótipo

A criação de personagens é sempre algo controverso. No caso de Silent Hill, dificilmente o sistema de personalização adotado por Book of Memories poderia ser uma boa saída. Isso porque, em vez de um personagem com história e problemas particulares, há aqui alguns poucos estereótipos — desportista, nerd, roqueiro e gótico — que incapazes de gerar qualquer tipo de empatia na maior parte dos jogadores.

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