Homecoming traz muitas novidades a uma franquia de essência delicada.

Em 1999 um novo jogo sob responsabilidade da Konami chegava às prateleiras para satisfazer, e aterrorizar, usuários de um dos mais grandiosos consoles de todos os tempos, o PlayStation. Ao contrário de muitos títulos da época, Silent Hill não apelava para um terror essencialmente brutal, em que o jogador tem de aniquilar zumbis como em Resident Evil, mas sim para momentos agonizantes, repletos de terror psicológico.

Logo, o jogo ficou conhecido pela sua atmosfera única e totalmente marcante. Alguns elementos como a neblina predominante em toda a cidade, as criaturas de aspecto deformado e perturbador e a sensação de fragilidade caracterizaram Silent Hill. O gênese de uma nova série indicava que as colinas silenciosas ainda renderiam muitos horrores.

Com a aprovação das críticas e do público, a equipe de desenvolvimento Team Silent resolveu dar continuidade à série. Em 2001, Silent Hill 2 debutava no PlayStation 2, Xbox e também no PC. A recepção foi estrondosa graças ao poder gráfico das plataformas nas quais o jogo aportava. Além disso, todo o clima característico foi mantido e a adição de novas criaturas, como o infamante Pyramid Head, ao universo do jogo só trouxe benefícios sobre o nome Silent Hill.

Além disso, o titulo era regado por melodias incrivelmente belas, compostas por Akira Yamaoka — nome que ficou na mente dos fãs da franquia. Yamaoka transcrevia todo o terror psicológico apresentado no jogo para seus instrumentos, gerando músicas repletas de sentimentos e que se encaixavam perfeitamente ao game.

Silent Hill marcou presença em vários consoles.

Evolução ou retrocesso?

Dois anos após o lançamento de Silent Hill 2, o terceiro jogo relacionado à série era lançado para PlayStation 2 e PC. Mais uma vez, sua recepção foi agradável, suprindo as necessidades dos fãs da franquia aterrorizante da Konami. Contudo, em 2004 a série viu os primeiros indícios de algumas mudanças radicais que iriam ocorrer. Silent Hill 4, a quarta seqüência direta da franquia, apresentava uma fórmula muito diferente de seus antecessores, algo que não agradou boa parte dos fãs.

Silent Hill 4 foi o último jogo desenvolvido pela equipe Team Silent, que acabou se dispersando. Atualmente, boa parte de seus membros trabalham em outros jogos, sendo Siren um dos melhores exemplos. A partir de 2007, os jogos de uma das séries mais aterrorizantes de todos os tempos começaram a ser desenvolvidos por equipes americanas. Silent Hill: Origins para PlayStation 2 e PSP, sob responsabilidade da Climax Studios, é um deles e obteve uma reação medíocre do público.

Muitos viram Silent Hill em decadência. A adaptação cinematográfica, lançada em 2006, também foi considerada mediana pela maioria do público e, principalmente, pela crítica especializada. Será que, após anos de sucesso, a franquia finalmente perdeu todo seu espírito aterrorizante? A resposta veio com o mais novo título da série: Silent Hill: Homecoming.


De volta para casa

Desde as primeiras exibições através de dezenas de vídeos, Silent Hill 5, que teve seu nome alterado para Silent Hill: Homecoming, deixou os fãs boquiabertos com suas imagens alucinantes. Contudo, um fato preocupava milhares de jogadores. A equipe encarregada pelo desenvolvimento do jogo era, mais uma vez, um time estadunidense. Trata-se da Double-Helix, responsável também por Buffy the Vampire Slayer e The Matrix.

Felizmente, desta vez os desenvolvedores conseguiram manter Silent Hill preso às suas raízes, mesmo com a adição de diversos recursos que deram um toque a mais na franquia. A experiência deve ser familiar e agradável para os fãs, mesmo que em alguns momentos chegue a parecer genérica. Sem dúvidas, em Homecoming você estará de volta a Silent Hill, com ajuda da conhecida atmosfera repleta de passagens tensas nos momentos iniciais até o fim do jogo.

Qualquer semelhança é mera coincidência.O ritmo de Homecoming é equivalente aos seus antecessores. Logo no início, é possível perceber que a equipe também conta com influências semelhantes às de Team Silent. Uma animação com o personagem principal preso a uma maca relembra, e muito, uma cena referente ao filme Alucinações do Passado (Jacob’s Ladder, em inglês). Este filme é conhecido por ser utilizado como base nos primeiros jogos da série Silent Hill desenvolvidos pela Team Silent. Ponto positivo para a Double-Helix.

Um estranho na família
 
A história também é extremamente cabível à franquia, e pode até ser considerada como banal pelos fãs. Como muitos já sabem, em Silent Hill: Homecoming você encarna Alex Shephard, um veterano da guerra que volta para sua cidade natal em busca de seu irmão. Após acordar de um terrível pesadelo, que é vivido pelo jogador, Alex depara-se com Travis Grady — a quem muitos irão reconhecer de Silent Hill: Origins — enquanto readquire seus sentidos no banco de passageiro do caminhão dirigido por Travis.

Após alguns momentos, Alex chega a sua casa onde encontra sua mãe — que não é nada amigável. O encontro repleto de tristeza rende ao protagonista algumas dicas essenciais para que possa encontrar seu irmão e seu pai. Shepherd então faz uma promessa, e inicia uma aventura muito pior do que qualquer guerra poderia desencadear. Sua cidade natal, Shepherd’s Glen, possui muitos segredos com a temida Silent Hill, e isso é bom, pelo menos para quem está jogando.

Enfermeiras que se cuidem...
 
Em muitas de nossas prévias, deixamos claro que Silent Hill: Homecoming contaria com algumas mudanças significativas no sistema de combates. Como um veterano de guerra, Alex conta com diversas habilidades que não faziam parte dos atributos dos personagens dos jogos anteriores da série.

Nas entradas anteriores da franquia, lutar contra inimigos era realmente perturbador. Os personagens não apresentavam qualquer afeição com armas, o que resultou em conflitos extremamente frustrantes. Isso se tornou marca registrada da franquia, e foi mantido ao longo dos anos.

O sistema de lutas é uma das novidades mais marcantes.Em Homecoming, as lutas são completamente diferentes. Ao entrar no modo de batalha, você pode focar sua atenção no oponente e até mesmo utilizar um comando para desviar de seus golpes. Isso é completamente cabível, pois agora os inimigos possuem uma inteligência artificial aprimorada em relação aos anteriores. Ao contrário do que se pode imaginar, Silent Hill não virou um jogo focado na ação. Podemos dizer que o sistema de combates foi simplesmente aprimorado, o que é completamente aceitável devido à trama que envolve o jogo.

No início, o jogador poderá estranhar suas novas habilidades, mas nada que um pouco de treino não resolva. Basicamente, você terá de alternar entre ataques e defesa para se sair bem nos combates. Caso desejar, você ainda pode finalizar seu inimigo com um golpe fatal, que resulta em uma animação cinematográfica de arrancar regozijos. Enfrentar diversos inimigos ao mesmo tempo é algo comum em Homecoming, e pode ocasionar algumas mortes ao jogador.

Uma nova visão

Outro aspecto que sofreu diversas mudanças, além do sistema de combates, foi a câmera. Desta vez, você não terá perspectivas fixas, como ocorria nos jogos anteriores. Agora, o jogo apresenta uma câmera em 3D, que pode ser manuseada pelo jogador através do analógico direito. Isso contribui para a jogabilidade e ainda consegue manter o clima assustador do jogo, pois a maioria dos ambientes é claustrofóbico e não permite uma boa perspectiva. Felizmente, você também conta com uma visão em primeira pessoa, acionada com um clique do analógico direito.

O mapa também conta com novidades. Para se basear enquanto está jogando, Homecoming apresenta uma lista de objetivos que devem ser concluídos quando o jogador verifica o mapa. Isso é extremamente útil, e evita alguns momentos frustrantes que ocorriam nos jogos antecessores. Fora isso, o jogador também pode selecionar qual resposta será utilizada nos diálogos, algo que influi diretamente no resultado final do jogo.

A câmera mudou, mas o clima continua igual.

O bom e velho Silent Hill

Mesmo com todas essas mudanças, a essência ainda foi mantida, principalmente na representação visual. Ao perambular pela cidade, é possível notar que a densa neblina ainda faz parte do universo Silent Hill. Além disso, o clássico filtro que simula filmes antigos também está presente em uma versão aprimorada em relação aos antecessores. Os puzzles continuam a quebrar a cabeça dos jogadores, mantendo a essência de Silent Hill.

Fãs da franquia podem reconhecer facilmente a maioria dos inimigos do jogo, pois muitos já habitavam os títulos anteriores. Novamente, você contará com armas não muito poderosas, com a exceção das armas de fogo. Canos, facas e machados em um estado não muito adequado para serem utilizadas em seu arsenal são apenas alguns dos exemplos que serão encontrados em Homecoming.

Enfrentar um bicho desses com um cano não é uma boa idéia...A munição e os outros recursos essenciais para a sobrevivência do protagonista continuam escassos. Encontrar munição para sua pistola é algo extremamente raro, e acaba exigindo um racionamento pelo jogador. Além disso, o espaçamento entre um ponto de save e outro requer o uso cauteloso dos itens utilizados para recuperar a saúde do jogador.

Em jogo, Alex conta com dois itens clássicos da franquia: Uma lanterna e um rádio. Novamente, a luz artificial torna-se muito útil na maioria dos locais, iluminando — ou tentando — o caminho à frente. O misterioso radinho à pilha alerta o jogador caso algum inimigo se aproxime, emitindo ruídos esquisitos que só são agradáveis graças à sua função.

Tentando visualizar sob neblina

Os visuais são curiosos, pois sofrem constantemente de altos e baixos. A modelagem de alguns dos inimigos, e também do personagem principal, esbanja beleza, assim como boa fração das demais texturas. Um belo exemplo disso é quando o jogador atinge os inimigos. As feridas dos monstrengos são representadas com muita beleza, e a cada golpe o jogador é premiado com um novo rasgo no oponente.


Os gráficos também sofrem em alguns momentos.Muitos momentos apresentam visuais emprestados de outras entradas da franquia. O mais interessante é a transição de uma dimensão para outra. A maneira de como isso ocorre é impressionante. Em tempo real, o cenário começa a se transmutar lentamente, de forma similar à adaptação cinematográfica de 2006, e o resultado é avassalador.

Contudo, existem momentos com visuais não muito agradáveis. Algumas representações gráficas não contam com a atenção merecida, e acabam denegrindo, literalmente, a imagem do jogo. Homecoming ainda conta com quedas na taxa de quadros por segundo em determinados momentos, mas nada que consiga aterrorizar o jogador.

Retornando ao lar

A movimentação dos personagens é, na maioria das vezes, aceitável. Destaque para as Enfermeiras e para o restante das criaturas, que se movem de maneira surreal e aterrorizante. Já Alex apresenta uma gama de movimentos fluidos e convincentes, mas também conta com algumas esquisitices. Os diálogos entre o protagonista e os demais personagens carecem de expressões faciais, fazendo com que a sensação de medo seja reduzida.


Por outro lado, contamos com uma trilha sonora excelente, sob responsabilidade do já conhecido Akira Yamaoka. Novamente, um dos compositores mais bem conceituados dos videogames desempenha suas melodias de maneira magistral, captando todo o clima da série e emitindo-o em suas notas harmoniosas. Os ruídos provenientes das criaturas e do próprio ambiente também são muito bem aplicados, e ampliam significativamente a experiência de Homecoming.

Quem nunca jogou um dos jogos da série Silent Hill será muito bem-vindo em Homecoming. A maioria dos elementos que caracterizam a série está reunida neste jogo, incluindo até mesmo alguns inimigos e passagens famosas. Além disso, a adição de um novo sistema de combates incrementou, e muito, a experiência proposta pelo título — mesmo contrariando sua fórmula estrutural. Os gráficos sofrem com altos e baixos, mas Homecoming consegue se sobressair como um dos títulos mais aterrorizantes da atual geração, ofuscando os demais com muita neblina.

Homecoming faz bonito na nova geração.
83 xbox-360
Ótimo