Mesmo com boas idéias, Siren não oferece uma diversão aterrorizante.

Jogos como Resident Evil e Silent Hill foram responsáveis pela consolidação do gênero survival horror nos videogames. Ambos aterrorizaram o saudoso PlayStation, da Sony, e renderam boas horas de um tipo de diversão que também gerava calafrios. Mas, o resultado final era sempre satisfatório, e a experiência única e completamente cativante.

Com o passar do tempo, diversos “clones” destes jogos surgiram, o que já era presumível devido ao sucesso das franquias. Felizmente, alguns dos jogos lançados conseguiram adicionar inovações à fórmula estabelecida por RE e SH, e o resultado foi igualmente satisfatório.

Um dos exemplos é o aclamado Fatal Frame, lançado em 2001 para PlayStation e portado dois anos depois para o Xbox. Mesmo abraçando o terror, a proposta do game era bem diferente dos demais jogos do gênero. Você contava apenas com uma câmera fotográfica especial, e tinha de usá-la para acabar com espíritos para que pudesse encontrar seu irmão mais velho. O jogo foi uma das provas que indicavam como o horizonte do survival horror poderia ser expandido.

Em 2004, o PlayStation recebia uma proposta ainda mais ousada, que misturava a ação furtiva, presente em jogos como Metal Gear Solid, com a mais pura atmosfera do survival horror. Mas, será que essa combinação realmente funciona? Siren está aí para dar a resposta.

Uma vila nada bacana

O perigo no ar

Basicamente, a trama de Siren colocará você na cidade rural de Hanuda, onde você controla diversos personagens. Logo no início, o jogador encarnará Kyoyo Suda, um adolescente que vai para a cidade com o objetivo curioso de testemunhar um estranho ritual que ocorre na floresta. Contudo, ao ser visto por um dos participantes, Suda foge e é perseguido por um policial.

Mas, algo aparenta estar errado com o suposto guarda. Suda descobre então que a maioria dos aldeões não é humana e foram transformados em Shibitos. Estas criaturas são como zumbis, mortos-vivos que clamam pela sua morte. Para desvendar o mistério do vilarejo, você terá de viver na pele de diversos personagens diferentes que, assim como Suda, acabaram presos à cidade quando um misterioso terremoto ocorreu. As sirenes começam a ecoar, e a água agora é vermelha como sangue.

Cada um dos personagens possui uma história e motivo diferente para estar na cidade. Alguns deles são residentes, outros visitantes e há ainda aqueles que estão apenas de passagem, mas é bem provável que todos tenham algo em comum.

Ao longo do jogo você controla vários personagens diferentes

Em cada estágio do jogo você é presenteado com uma missão a ser cumprida. Normalmente, ela consiste em objetivos teoricamente simples como escapar da área em que se você se encontra — algumas vezes acompanhado de outro ser humano. Mas, obviamente, em seu caminho você encontrará diversos Shibitos, e terá de incapacitá-los, se possível, ou passar tentando não chamar a atenção.

O problema é que estas criaturas não podem ser mortas, e isso acaba gerando ainda mais desespero ao jogador. É possível derrubá-las com uma arma branca ou com pistolas e rifles, dependendo da situação em que você se encontra, mas os shibitos não ficarão deitados por muito tempo. Após alguns minutos, as criaturas simplesmente retomam seus passos e voltam a causar problemas. E ainda: existem ocasiões em que você não terá nenhuma arma, e deverá ser muito cuidadoso. Felizmente, Siren introduz uma função muito útil para momentos como este, a Sightjacking.

Nos olhos do inimigo


Talvez este seja um dos maiores diferencias de Siren em relação a outros jogos, como Silent Hill, por exemplo. Falando na franquia da Konami, vale a pena destacar que alguns dos membros responsáveis pela produção do primeiro jogo da série SH também estavam envolvidos com Siren, e isso fica bem explícito em determinados momentos do game.

Para ativar o Sightjack, tudo que o jogador tem a fazer é pressionar o botão L2. Isso fará com que você entre na visão de seu personagem, que, devido ao recurso, será preenchida com uma imagem estática. Ao movimentar o analógico esquerdo na direção certa, você irá “sintonizar” na visão de determinado shibito e para embarcar no ponto de vista de outro monstrengo, basta movimentar novamente o direcional. Você ainda pode criar atalhos utilizando os botões da face, basta pressionar o comando desejado e ele facilitará a sintonia.

Visualizando o perigo Mas, o Sighjack só permite que os jogadores observem pelos olhos dos shibitos. Ou seja, não é possível controlá-los e nem realizar qualquer outro tipo de ação. Entretanto, o recurso é bem útil, já que você saberá o que os inimigos estão fazendo. Em alguns casos, você irá encontrar shibitos que realizam patrulhas por determinadas áreas, e isso pode facilitar sua passagem. Existem ainda outros oponentes que permanecem estáticos e alguns que movimentam apenas a cabeça. De qualquer forma, é bom manter o cuidado.

Fora isso, nesta visão você também perceberá uma ou duas cruzes coloridas. Estes objetos indicam o local em que você se encontra na perspectiva dos inimigos e podem ser vistos até quando seu personagem estiver atrás de um obstáculo. Sem dúvidas, um recurso muito útil que facilita sua aventura.

Mas, mesmo assim, você irá sofrer — pelo menos no início do game. Acostumar-se com o recurso exige certo tempo, e, enquanto isso, seu personagem irá morrer várias vezes. Você irá tentar e tentar, até finalmente descobrir como passar por determinadas áreas. Isso é um processo doloroso, que exige muita paciência do jogador.

Pancadaria frustrante


Encarar um shibito também não é uma boa opção. Mesmo que você esteja armado, os combates são relativamente difíceis. Se seu personagem não possuir uma arma de fogo, as coisas podem se tornar ainda piores, já que os encontros mano-a-mano com as criaturas não são nada fáceis.

Caso depare-se com um shibito armado, é bom ir dizendo adeus. Com apenas dois tiros, seu personagem já cai ao chão. Uma das únicas alternativas é passar sem chamar a atenção, mas em alguns momentos isso é quase difícil. Se avistado, o shibito irá disparar contra seu personagem, e raramente irá errar. O resultado é a morte certa.

O sistema de combate também não colabora. Com as armas brancas, como ferros e madeiras, é necessário chegar perto dos oponentes para desferir os ataques. Mas, normalmente, os shibitos contam com ferramentas com um alcance melhor, ou até mesmo armas, e você acabará morrendo e retornando ao início do nível.

Muita calma nesta hora

Outro fator que incomoda é a necessidade de utilizar o Sighjacking a todo o momento. Mesmo que os ambientes não sejam grandes, é necessário verificar a visão de cada um dos oponentes se deseja obter sucesso. E isso é frustrante. Você terá de esperar calmamente até que os shibitos realizem seus ciclos de ações para então trocar para outro oponente e observar o processo novamente. Qualquer erro pode chamar a atenção dos inimigos, o que certamente irá resultar na sua morte e obrigará você a retornar novamente ao começo da fase. O desafio acaba sendo apenas um obstáculo frustrante, já que é necessário tentar várias vezes até conseguir cumprir o objetivo.

Todo cuidado é pouco

A inteligência artificial dos shibitos é algo que sofre de altos e baixos. Muitas vezes, você será visto a metros de distância ou quando caminha próximo a um deles. Mas, há também momentos em que os inimigos demonstram seu cérebro de alcachofra. Ruídos como tiros não serão ouvidos pelos oponentes. Se você decidir se movimentar abaixado e com a lanterna desligada por trás de um personagem, é bem provável que passe despercebido.

Gráficos convincentes Como se não bastasse, em alguns momentos você só conseguirá cumprir seus objetivos se seu parceiro estiver junto. É possível dar diversas ordens aos amigos, e eles reagem de maneira adequada. Mas, assim como em na maioria dos games com estes elementos você habitualmente terá de retornar e encontrar seu companheiro parado para retomar a jornada. Como se não bastasse, eles também são atacados e mortos pelos shibitos, o que ocasiona um “Game Over”.

Hanuda é uma só, e não é um vilarejo relativamente grande. Sendo assim, será normal ter de percorrer o mesmo caminho de anteriormente para cumprir objetivos diferentes, assim como percorrê-los com diferentes personagens. Além dos tipos de missões já citadas, o jogo ainda oferece momentos em que você deve procurar por itens-chave. Uma boa dica para encontrá-los é utilizar o Sightjacking, já que alguns shibitos normalmente encaram os elementos que você precisa.

Boas idéias, má execução

Graficamente, Siren não deixa a desejar. Alguns efeitos, como o granulado, contribuem para o clima do jogo. Além disso, as feições dos personagens foram mapeadas de atores reais, o que acaba fornecendo uma sensação de realismo. Mas existem alguns pontos baixos, como a modelagem, por exemplo.

Em termos de áudio, o game se destacaria se não fossem as terríveis dublagens em inglês. O sotaque britânico e o exagero dos diálogos denigrem significativamente a experiência do jogo. Felizmente, a desenvolvedora caprichou nos ruídos dos shibitos e na trilha sonora, que é de arrepiar.

Siren conta com algumas propostas interessantes. Contudo, a maneira de como foram aplicadas acaba influenciando negativamente na diversão. O Sightjacking, por exemplo, seria um excelente recurso, mas o jogo explora demais esta possibilidade e acaba se tornando frustrante. Tentar, morrer e recomeçar também é um processo deplorável. Mas, fãs persistentes e com paciência conseguirão podem até conseguir desfrutar do jogo, ou terão certeza que devem manter distância de Hanuda.
66 ps2
Regular