Sonic Forces corre rápido demais em direção à mediocridade

2017 tinha tudo para ser “o ano de Sonic”. Não somente tivemos o lançamento do excelente Sonic Mania, como Sonic Forces trazia a promessa de ser uma sequência direta de Generations, game que provou há alguns anos que o Sonic Team ainda entendia seus personagens e conseguia fazer uma experiência divertida.

No entanto, Sonic Forces chegou às lojas mostrando que é, literalmente, um jogo “feito para os fãs”. Longe de oferecer a experiência mais traumática da série (o Sonic de 2006 ainda é imbatível nesse quesito), o game só revela alguns relances rápidos de brilho próprio que passam tão rápido quanto os protagonistas navegam por suas fases principais.

Oferecendo uma trama que se leva a sério demais para seu próprio bem e um design de fases que parece indeciso em relação ao que pretende entregar ao jogador, o título é a definição da palavra “medíocre”: algo sem expressão, mediano, passável. Infelizmente, nem mesmo o divertido modo de criação de personagens e a oficialização de vários fanfics consegue fazer com que o jogo escape do trágico “ciclo do Sonic”.

Um mundo destruído

Sonic Forces tem uma das histórias mais pesadas de toda a franquia Sonic: com a ajuda de um novo aliado conhecido como “Infinite”, Eggman finalmente consegue vencer o porco-espinho. Com Sonic aprisionado (e supostamente torturado) durante meses, o vilão consegue dominar o mundo e a força de resistência formada por personagens como Knuckles, Amy e Silver, entre outros, mal consegue se manter em pé.

com a ajuda de um novo aliado conhecido como “Infinite”, Eggman finalmente consegue vencer o porco-espinho

É nesse contexto que entra você, o jogador: representado por um avatar personalizável, você encara o papel de um “novato” que traz algo especial que pode mudar de vez o rumo dessa batalha. Com a ajuda do Sonic clássico “barrigudinho” e da versão mais moderna do personagem, sua missão é viajar pelo mundo destruindo as invenções de Eggman e trazendo a paz de volta a todos.

O que me incomoda na trama de Sonic Forces é o fato de que ela simplesmente “não cola” no universo que é apresentado pela SEGA. É difícil se convencer da gravidade do que está acontecendo quando os personagens em tela são animais falantes, ainda mais quando parece que não há consequências reais ao que é dito: supostamente “torturado”, Sonic se livra de maneira bastante fácil de sua prisão e não parece nem um pouco afetado pelo tempo de prisão.

Sonic ForcesSei não, Tails...

Da mesma forma, o vilão Infinite perde em questão de pouquíssimo tempo qualquer sentimento de ameaça que poderia transmitir. Se nas cenas iniciais ele parece invencível e imprevisível, a primeira batalha contra ele revela que Sonic perdeu a batalha mais pressão dos roteiristas do que por ter menos habilidades à sua disposição.

Depois de algumas fases fica evidente o caminho previsível que a trama vai tomar, e não dá para levar com seriedade um jogo de Sonic que tenta simular batalhas que parecem inspiradas por séries como Game of Thrones. Uma ou outra piadinha até que faz um sorriso surgir no rosto, mas a SEGA errou ao tentar vender a trama fraca como algo grandioso ou que iria mudar tudo o que sabemos sobre o personagem.

Criador de personagens que se destaca

A melhor parte de Sonic Forces é, sem dúvida, seu criador de personagens. Admito, passei muito mais tempo criando combinações de roupas do que explorando as fases do título: algo que não é exatamente difícil, visto que mesmo os cenários mais extensos não demoram mais do que 3 minutos para serem completados.

Sonic ForcesSeu personagem pode ser bastante gamer

Em um momento inicial, você define somente qual espécie de criatura será — cada uma com um poder especial específico —, mas logo um grande guarda-roupa se mostra disponível. A cada fase completada você expande um pouco suas opções, que são incrementadas ainda mais ao atingir a classificação “S” em cada cenário.

Para completar, também é possível expandir a seleção de equipamentos completando algumas missões específicas, que variam entre coletar uma quantidade determinada de moedas vermelhas e terminar certos desafios respeitando um limite de tempo. Ao final da aventura, você terá mais peças de roupa do que consegue lidar, podendo criar visuais bastante específicos (eu, por exemplo, terminei o jogo usando uma armadura no melhor estilo Dark Souls).

Sonic ForcesVocê pode alugar personagens de outros jogadores

A quantidade de colecionáveis disponível estimula a trocar a aparência de seu personagem constantemente, o que se mostra algo bastante divertido.  Também há diversos tipos de arma a escolher (o que muda um pouco a maneira como você explora alguns cenários) e a possibilidade de “alugar” um avatar criado por outro jogador para complementar suas habilidades ou para simplesmente ver como outras pessoas estão usando o sistema.

Gotta go fast!

O que mais incomoda em Sonic Forces é o fato de que o jogo parece indeciso sobre o que pretende ser. A ideia em si é até legal: oferecer um estilo de jogabilidade específico a cada protagonista, permitindo que o jogador experimente o que cada um tem a oferecer. Na prática, a execução não acontece tão bem assim.

Sonic Forces

A jogabilidade mais problemática é a do Sonic moderno, que preza bastante pela velocidade. Na maioria das fases, basta apertar o botão de dash para sair atropelando tudo o que aparece pelo caminho, resultando em uma experiência quase sem desafios: vez ou outra o game apresenta alguma plataforma que você não vai conseguir ver a tempo, resultando em alguma morte injusta.

Sonic Forces parece indeciso sobre o que pretende ser

Isso é um tanto minimizado pelas fases com o Sonic “gordinho”, que apresenta um gameplay um pouco mais cadenciado. No entanto, apesar de ser mais fácil controlar o personagem, ele parece ter controles muito “soltos” e parece um tanto imprevisível em alguns momentos devido à sua grande aceleração — as coisas nunca parecem tão “certas” quanto os controles de Sonic Mania.

Já o personagem criado pelo jogador parece o mais deslocado desse universo: em vez de correr rápido, ele pode usar armamentos como um lança-chamas ou um chicote elétrico. Os golpes aplicados com esses meios são extremamente poderosos, o que elimina qualquer potencial de desafio que os inimigos poderiam trazer à experiência. O personagem também sofre com controles pouco responsivos, o que pode resultar em algumas mortes que você tem certeza que não foram sua culpa.

Para completar, Sonic Forces volta a trazer o “sistema de mira” que surge na série de uma forma ou outra desde que Sonic Adventure foi criado. O problema, nesse caso, é que muitas vezes o botão que você apertou não é registrado direito, fazendo com que o jogador perca o ritmo de plataforma e deixe de conseguir algum item especial ou morra no processo.

Sonic Forces

O jogo compensa essas mortes acidentais ao não trazer qualquer espécie de punição significativa para suas falhas. Caiu demais em um buraco ou demorou muito para matar um chefe? Tudo bem, sempre há um checkpoint próximo para você tentar de novo, e sua única “perda” será obter uma pontuação ligeiramente menor no final da fase.

Os momentos em que o jogo brilha um pouco são nas batalhas com chefes, que exigem um pouco mais de estratégia do que o comum. Infelizmente, uma mecânica específica (que envolve correr em direção a seu inimigo) é usada de forma excessiva, tirando totalmente qualquer sensação de novidade ou diversão depois de certo tempo.

Não foi dessa vez

Mesmo com uma trilha sonora bastante divertida (especialmente se você, assim como eu, ama o “hard rock farofa” dos anos 90) e gráficos aceitáveis, Sonic Forces não consegue fugir do fato de que é um jogo completamente esquecível. Pulando diálogos e filmes, o jogador consegue terminar a aventura em pouco mais de duas horas — algo chocante para um título com 30 fases —, tendo pouco estímulo para retornar uma segunda vez.

O Episode Shadow, DLC que mostra um prelúdio da trama, é igualmente mediano: com somente três fases, o conteúdo não traz a grande revelação que prometia e pode ser finalizado com bastante facilidade. O conteúdo parece ter sido criado com o puro intuito de ser um “fanservice” para os fãs e faz muito pouco sentido que ele seja apresentado como algo distinto da aventura principal.

Sonic Forces parece ser aquele tipo de jogo que foi criado para os fãs da franquia — e somente para eles —, não se esforçando nem um pouco em trazer um design de fases memorável ou uma trama que não ofenda a inteligência. Não estou dizendo que tudo aqui é ruim e nada funciona, mas sim que, logo após chegar ao fim, você está mais preocupado com seu próximo jogo ou em arranjar algo para comer do que em reviver o que foi apresentado pela SEGA.

Caso você realmente faça questão de ter tudo relacionado ao porco-espinho mais famoso do mundo, o game traz alguns momentos de diversão, mas não é nada memorável. No entanto, se eu tivesse que recomendar que você jogue alguma coisa envolvendo o personagem em 2017, minha escolha para isso sem dúvida seria Sonic Mania.

60 ps4
Regular
"Naquele que podia ser o “ano do Sonic”, Forces chega como mais um game esquecível do personagem"

Pontos Positivos

  • Trilha sonora divertida
  • Criador de personagens completo
  • Algumas batalhas contra chefes são legais

Pontos Negativos

  • História que se leva a sério demais para seu próprio bem
  • Jogabilidade pouco responsiva
  • Quase nenhum desafio

Outras Plataformas

60 pc
60 xbox-one
60 Switch