Começarei sendo bem sincero aqui: não acho Splatoon, do Wii U, o modelo de jogo que foi pintado como revolucionário na época (com perdão do trocadilho). Eu gostei da experiência, mas ela me cativou pouco pelo tempo que tive o game em mãos. Por conta disso, estava realmente cético em dar mais uma chance à franquia recém-lançada da Nintendo. Surpreendentemente, Splatoon 2 me encantou de uma maneira que jamais imaginaria.

Com promessas de uma campanha, mais armas, modos e mapas, tudo parecia melhor no papel. O que deixou muita gente com o pé atrás foi o game ter saído em um intervalo de tempo pequeno desde o primeiro e em uma época em que a Big N está apostando em remasters. Seria um Splatoon 1 levemente diferente? Pode ficar tranquilo, porque na prática quase tudo está melhor. Quase. Confira a análise completa do jogo!

Tão rápido e divertido que há pouco tempo para frustrações

Splatoon 2 é um jogo extremamente divertido. A Nintendo acerta a mão na dose de simplicidade e traz uma experiência leve e agradável em um gênero saturado de seriedade e competição extrema. Quem diria que um shooter poderia ser descomplicado e acessível de uma maneira quase mágica?

De certa forma, é isso que a sequência mantém e realça com maestria. É só ligar o Nintendo Switch e começar a jogar. Simples, fácil e rápido. As partidas têm três minutos de duração, a progressão é fácil de entender e perder um jogo não é o fim do mundo: todo mundo ganha experiência e gasta um tempo ínfimo.

Essa sensação de ganhar diversão independente da vitória, da estratégia e da ajuda do time é o ponto forte de Splatoon 2. Novatos e veteranos podem se dar muito bem de qualquer forma. Lógico, coordenação e objetivos em comum trazem uma nova camada de diversão à jogatina, mas, no geral, é como um paintball: o legal é pintar o cenário e tentar eliminar os outros. No fim, todo mundo ganha.

Em sessões pequenas ou na companhia de amigos, Splatoon 2 é um dos shooters mais divertidos que existem por aí

A XP adquirida entre uma partida e outra aumenta o seu level, que, basicamente, serve para liberar novos equipamentos para compra. Não há diferenças brutais entre eles, mas sim maneiras variadas de jogar. A parte legal é que isso cria um contraste pequeno entre um jogador level baixo e outro com level alto. Por falar em armas, há muitas novidades por aqui e todos os especiais foram reformulados, dando um tom de novidades bem interessante.

Novos modos de jogo são bem-vindos

Apesar de o multiplayer ser bem divertido, ele é o único modo que é sempre igual. As coisas começam a ficar interessantes ao alcançar o level 10, no qual você pode participar das batalhas ranqueadas, ou seja, as que são para valer. O que é curioso é que as regras da partida mudam, passando de uma competição de quem pinta a maior área da tela para um dos três modos: conquista, igual às capturas de base de um Battlefield, pega-bandeira (que, na verdade, é uma arma) ou defesa de torre.

Além desse modo, temos o Salmon Run, uma das maiores surpresas dessa sequência. Basicamente, ele é um modo horda de Splatoon que você pode jogar com mais três companheiros e deve sobreviver a três ondas de inimigos. Há diversos tipos diferentes de chefões e ainda mais modificadores que criam uma experiência muito desafiadora mesmo, contrastando bastante com a dificuldade geral do game.

Apesar de serem apenas quatro modos no total (multiplayer normal, ranked, campanha e Salmon Run), dá para ter bastante variedade e em doses homeopáticas, sempre com pequenas experiências divertidas. Essa diversão parcelada é um dos pontos negativos que comentarei mais abaixo, mas no geral e em pequenas seções, Splatoon 2 é fenomenal.

Campanha legalzinha, mas nada surpreendente

Como é que a Nintendo lidou com a campanha, que é estreante desta vez? É aí que Splatoon 2 começa a perder o vapor, mas não deixa a peteca cair. O modo história do game é divertido e traz níveis com level design bem interessantes (na maioria das vezes) e com colecionáveis. De quebra, as batalhas contra os chefões são criativas e seguem o tradicional estilo de acertar três vezes para ganhar, assim como nos títulos do Super Mario.

Contudo, a narrativa, imersão e até mesmo a apresentação dos elementos do universo da franquia são no máximo ok. Nada espetacular, nada marcante, mas também sem problemas ou apresentação fraca. É divertido e vai servir para matar o tempo, mas não é a campanha singleplayer que vai convencer os lobos solitários a comprar o game.

No fim, você vai consumir um conteúdo divertidinho se entender inglês (sim, esqueça as legendas em português), mas também não vai ter nada memorável como Luigi, Toad, Diddy Kong e outros personagens icônicos da Nintendo. Acho que dá para dizer que Splatoon 2 não chega em primeiro lugar, mas também não escorrega na banana.

A campanha é legal, mas não espere nada surpreendente ou revolucionário: apenas um quebra-galho divertido

Apesar de servir como uma forma de treinar para o multiplayer, é bem importante ressaltar que cada modo do jogo tem um próprio sistema de progressão. Se você gastar algumas horas na campanha, nada será importado ao multiplayer. Ganhou XP e novas armas no online? Nenhum equipamento é levado ao modo história ou para o Salmon Run. Isso prolonga a vida do jogo, mas também é meio chatinho ter que recomeçar em cada modalidade.

Gráficos de encher os olhos e trilha sonora duvidosa

Outro aspecto no qual a Nintendo caprichou, e bastante, foi a qualidade gráfica. O poder maior do Nintendo Switch é ótimo para entregar uma qualidade de imagem bem superior à que vimos no Wii U. Splatoon 2 constrói um universo bem exuberante e, ao mesmo tempo, simplista. As cores vibrantes e a estética criativa dão o impacto gráfico que você espera de um jogo da Nintendo. E, claro, como não pode faltar, tudo rodando a 60 fps lisos (com exceção do HUB, que roda em 30 fps).

Não há nada visualmente complexo ou fotorrealista, mas toda a magia da Nintendo está presente. É bonito contemplar a caminhada pelo HUB do game ou ver o cenário depois de camadas e mais camadas de tintas. E o que dizer dos chefões? Tanto do modo campanha quanto do Salmon Run, todos são bem criativos.

O que acaba dividindo opiniões é a trilha sonora. Ao mesmo tempo que você vai se pegar cantarolando algumas faixas mais marcantes e divertidas, há outras que simplesmente enchem o saco e são cansativas, principalmente enquanto espera algo demorado, como filas no multiplayer ou coisas do tipo.

Sistemas datados, engessados e antiquados

Apesar de ter alguns probleminhas pontuais já citados, eles não são o que tornam a experiência ruim. Acontece o seguinte: Splatoon 2 é um jogo que representa a Nintendo perfeitamente de todas as formas, tanto nos pontos positivos quanto nos negativos. O game tem toda a magia e o brilhantismo que só a Big N sabe fazer, assim como todos os erros e problemas nos quais a companhia costuma insistir.

Entre as partidas rápidas e experiências extremamente divertidas, há um sistema de jogo muito truncado, limitado e datado. Quer trocar de arma em uma partida? Não é possível. Quer trocar de arma entre as partidas? Não é possível. Quer entrar em party com amigos? Não é possível. Quer conversar por voz? É preciso baixar um app para celular e ele não está disponível no Brasil.

São coisas que parecem tão simples e tão comuns em outros games, mas não há nada disso em Splatoon 2. Sério, não dá para cancelar a busca por partidas e você precisa sair de uma sala para trocar de arma. Se você estiver jogando com amigos, vai ter que esperar a próxima rodada para voltar, simplesmente porque quis alterar o equipamento.

Há zero categorias para modelos customizáveis do personagem. Se quiser selecionar outras armas e equipamentos, terá que trocar tudo um a um. Lembra do Salmon Run, uma das experiências mais divertidas que mencionamos? Ela acontece em formato de eventos e em horários específicos. Adivinha? No Brasil, esses horários correspondem às nossas madrugadas.

Nada é pensado para o Brasil e há muitas coisas engessadas e datadas para 2017

Por último, há um elemento que, ao mesmo tempo que é interessante, também é cansativo. Lembra que eu disse lá em cima que Splatoon 2 só funciona em doses pequenas de jogatina? Pois é. O game utiliza um sistema que troca os mapas das partidas normais e ranqueadas a cada duas horas, algo que oferece ao jogador uma sensação de fazer parte de um grande evento global.

Porém, duas horas é um tempo bem grande. Pode acreditar, pois apenas dois mapas em duas horas de jogatina é algo bem repetitivo. A lista de cenários é grande e esse tempo poderia ser menor.

Vale a pena?

Basicamente, entre camadas de burocracia e sistemas datados, há uma experiência excelente em Splatoon 2. O game é extremamente divertido, leve, simples e fenomenal para jogar com amigos ou pessoas desconhecidas da internet. Gráficos refinados, modo campanha, modo horda desafiador e muito mais. E pode apostar: dificilmente você vai encontrar bugs ou sofrer com problemas de latência nas partidas. Porém, há coisas aqui que simplesmente são imperdoáveis em 2017.

Splatoon 2 é uma evolução clara de seu antecessor e um trabalho melhor do que poderíamos esperar. Sem dúvidas, não é uma experiência de mais do mesmo, pois há muitos mapas, armas e modos novos, tudo muito bem-feito. Mas a Nintendo ainda precisa comer muito arroz com feijão para criar um jogo que seja mais robusto e moderno nos dias de hoje.