Um jogo com bonecas russas pode ser divertido? Certamente

Imagine se você pudesse voltar à sua infância e criar jogos de todas as brincadeiras que você já fez. Ou melhor ainda, imagine se os mundos e personalidades geradas em sua imaginação durante aqueles simples momentos em que os únicos integrantes da cena eram alguns bonecos e seu quintal pudessem se transformar em algo palpável, mesmo que virtualmente.

Aparentemente, Tim Schafer pensou nisso ao criar Stacking, o mais novo jogo da Double Fine — a desenvolvedora de Schafer. Se você conhece o criador de algumas das franquias mais importantes da história dos jogos, como Grim Fandango, Monkey Island, Full Throttle e o mais recente Brütal Legend, então sabe o que esperar.

Schafer é famoso por cunhar não somente jogos de qualidade, mas também títulos com muita personalidade — os exemplos citados acima simplesmente dispensam comentários. Além disso, o designer normalmente surge com ideias únicas, que conseguem dar novos ares a uma indústria dominada pelo tiroteio, mundos pós-apocalípticos e o excesso de violência.

Felizmente, Stacking consegue trazer uma proposta inovadora em seus 1 GB. O título para download, que está disponível tanto na Xbox LIVE (Xbox 360) quanto na PlayStation Network (PlayStation 3), sai por cerca de R$ 30, mas certamente vale muito mais que isso.

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Schafer dá vida a um dos objetos inanimados mais peculiares dentre os brinquedos: as bonecas russas conhecidas como matrioskas. Provavelmente, você já deve ter ouvido falar delas, mas nunca imaginou que poderiam criar um jogo com tal foco. É aí que o designer nos surpreende mais uma vez.

Um título relativamente simples, mas com uma proposta e uma atmosfera que só poderiam ter vindo de uma mente genial como a de Schafer. A narrativa, como sempre, já é quase o suficiente para que o jogo ganhe destaque, mas Stacking ainda oferece quebra-cabeças de um jeito que você nunca viu antes. Confira.

Stacking é um título peculiar e muitos jogadores podem até torcer o nariz para ele à primeira vista. Entretanto, a mente de Tim Schafer conseguiu criar uma experiência muito divertida, usando apenas bonecas russas e um excelente roteiro. A fórmula diferenciada, na qual o jogador encarna bonecos para usufruir de suas habilidades, traz novos ares para a indústria dos jogos, algo que Schafer sabe fazer com maestria.

Quem procura quebra-cabeças que, definitivamente, fogem dos padrões e desafios inteligentes e com bom humor não pode deixar de entrar no mundo de Stacking.

Jogo com cara de filme

Sem dúvidas, Stacking já surpreende antes mesmo de a jogatina começar. O título esbanja capricho na direção de arte, algo que pode ser conferido já nos próprios menus estilizados, que combinam com toda a atmosfera inspirada em tempos vitorianos que encontramos pelo game.

Contudo, é na primeira cena apresentada pelo jogo que você percebe que não está diante de um título convencional. Schafer decidiu narrar toda a história por meio de cut-scenes que parecem ter saído diretamente de um filme mudo.

Sim, não há qualquer dublagem durante as cenas de corte, apenas uma pertinente trilha orquestrada e os quadros com texto. O jogador vê a ação e, logo em seguida, confere o texto referente à cena anterior para entender melhor o conceito. Tudo isso é feito de maneira magistral, com todos os aspectos do cinema clássico estampados na tela — você escuta até o som do projetor, dando a impressão que você realmente está no cinema.

Fora os artifícios de edição, a própria cena também é composta através de um clássico recurso utilizado pelo cinema clássico e teatro. Trata-se do diorama, um modo de apresentação artística no qual os objetos de cena são pintados sobre um fundo curvo, gerando a impressão de tridimensionalidade. O resultado são cenas construídas e filmadas em uma espécie de palco, com objetos que são deslocados conforme a ação acontece.

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Além de remeter ao próprio cinema clássico, Stacking também consegue conceber uma homenagem aos jogos antigos, como Monkey Island e Maniac Mansion, sucessos do próprio Schafer. Um ponto positivo que evoca uma nostalgia multimídia.

O pequeno gigante

Outro ponto interessante de Stacking é a própria trama. O jogo se passa em plena era industrial, onde a família Blackmore tem uma vida tranquila. Misteriosamente, o pai da família desaparece, deixando apenas uma imensa dívida. Com isso, The Baron, um temido industrialista que obriga crianças a trabalhar, resolve agir na cobrança. O resultado? Os filhos dos Blackmore acabam escravizados para pagar as dívidas da família.

Charlie, o menor entre todas as crianças, é o único não escolhido para deixar seu lar. O pequenino então descobre que seus irmãos provavelmente não retornarão para casa em breve e resolve evitar que mais lágrimas escorram do rosto de sua amada mãe.

Com isso, o herói terá de conversar bastante com qualquer outra matrioska que cruze seu caminho para adquirir informações sobre o paradeiro de seus outros irmãos. Charlie passa por vários lugares diferentes, realizando todo tipo de missão para descobrir algo que possa ajudá-lo a encontrar o restante de sua família.

Logo no começo, o game incentiva o jogador a pressionar abundantemente o botão quadrado (X na versão para Xbox 360) ao se deparar com outro boneco. O motivo? Isso aciona as conversas, algo não somente essencial para sua jornada, mas que também mostra claramente como Schafer ainda manda muito bem nos roteiros.

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Vale a pena passar um tempo explorando a cidade para ver o que cada um dos bonecos tem a dizer. O talento de Schafer se reflete na personalidade criada para os bonecos, que variam desde cozinheiros até boxeadores ingleses que não hesitam em golpeá-lo, caso achem necessário.

Entrando no jogo

Tudo bem, a trama e a apresentação de Stacking são bem bacanas, fazendo jus à tradição estabelecida pela Double Fine e Tim Schafer. Agora, e a jogabilidade? Como funciona? Felizmente, a experiência de jogo em Stacking está totalmente ligada à trama e às bonecas matrioskas, resultando numa fórmula homogênea.

Conforme mencionamos, Charlie é o menor de todos na família Blackmore. E, como qualquer boa matrioska, Charlie é capaz de literalmente entrar em qualquer boneco que seja exatamente um tamanho maior que ele. É aí que toda magia começa.

Logo no início do game, Charlie se vê obrigado a entrar nos bonecos que trancam o caminho que o impede de encontrar mais informações sobre seus irmãos. Com isso, ele ganha um novo corpo, que é exatamente um tamanho maior que ele. Essencialmente, você não pode simplesmente entrar em qualquer boneco espalhado por aí, mas somente naqueles que estão um degrau à sua frente.

Esse boneco que é um tamanho maior que Charlie também só poderá encarnar em uma matrioska que esteja um nível acima — e a fórmula se repete consecutivamente. Muitas vezes, Charlie acaba “coberto” por três, quatro ou mais matrioskas.

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A grande sacada do game, contudo, está nas habilidades exclusivas de cada um dos bonecos. Além de contar com personalidades distintas, os bonecos também oferecem aptidões que podem ser utilizadas tanto para resolver os problemas de Charlie quanto para simples diversão.

Há um senhor grande que pode “gentilmente” pedir licença para quem estiver em seu caminho, um maquinista capaz de correr em alta velocidade graças ao vapor que sai de sua cabeça e um repugnante boneco que solta flatulências, espantando todos a sua volta. São dezenas de bonecos diferentes com habilidades diferentes, algo que, certamente, renderá boas horas de entretenimento ao jogador.

E mais: em alguns casos, você pode misturar as habilidades de seus bonecos. Ao escolher uma matrioska que solta vapor pela cabeça, você pode acionar a habilidade, sair de dentro dela e então usar seu boneco que infla balões para aproveitar o vapor e subir até locais de difícil alcance. Temos inúmeras possibilidades.

Uma excelente jornada

Muitas das missões do jogo exigem que você use as habilidades de determinados bonecos para conseguir acessar lugares específicos ou se encontrar com matrioskas essenciais para a jornada em busca de seus irmãos. O bacana é que cada missão conta com várias resoluções diferentes, embora o jogador precise apenas de uma delas para avançar na campanha.

Mesmo assim, é praticamente impossível — e também um desperdício — não tentar todas as soluções de cada missão. Muitas das conclusões são totalmente inusitadas, exigindo bastante raciocínio do jogador, assim como muita criatividade. Felizmente, há um sistema de dicas que oferece uma bela ajuda sem estragar toda a surpresa.

Além disso, o jogador também desfruta dos Hi-Jinks, que são como desafios extras que não influenciam na campanha do game. Uma boa opção para quem já terminou as missões principais e ainda ficou sedento por mais.

Pequenas lascas

Infelizmente, Stacking sofre um pouco com alguns problemas técnicos. A engine do game muitas vezes não dá conta de tudo o que está acontecendo na tela, resultando numa notável queda na taxa de quadros por segundo. Fora isso, a jogabilidade é um pouco truncada, com uma movimentação muitas vezes imprecisa e que não responde como o jogador espera.

Outro problema é o próprio comprimento do game. Se o jogador quiser apenas completar a trama principal — algo que, sinceramente, achamos difícil — terá em suas mãos um título com menos de quatro horas de duração.

Infelizmente, Stacking não conta com qualquer modo multiplayer, seja online ou offline. Seria realmente interessante se tivéssemos missões em que seria necessária a combinação de várias matrioskas, algo que tornaria a experiência ainda mais dinâmica.

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80 ps3
Ótimo

Outras Plataformas

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