Uma jornada para ser esquecida

Antes de 2009, Star Trek estava em um canto de uma galáxia esquecida, com pouco reconhecimento e fãs que só cultuavam produções antigas. Naquele ano, o diretor J.J. Abrams fez um resgate épico: o filme “Star Trek” deu novos ares aos personagens da série clássica com efeitos visuais incríveis e muita ação, encantando tanto os fanáticos pelo seriado de 1966 quanto quem achava que Spock não era nada mais que um sujeito de roupa azul e orelhas pontudas.

Embalada pelo lançamento da sequência, “Além da Escuridão – Star Trek”, a Digital Extremes acreditou na força da nova série de filmes e desenvolveu Star Trek, um jogo para PC, PS3 e Xbox 360 baseado nesse universo, trazendo o capitão James T. Kirk e o vulcano Spock como protagonistas, além de toda a tripulação da U.S.S. Enterprise.

Em vez de copiar a história do longa-metragem, a aposta é em uma trama original. O problema é que, apesar do jogo não ser necessariamente baseado no filme, a qualidade dele é bem parecida com a das adaptações que saem a cada ano.

A impressão que fica é que a Digital Extremes fez o jogo nas coxas, entregando um produto que não é tão ruim, mas que parece inacabado. Os problemas podem não comprometer totalmente a diversão, mas estragam o título e resultam na perda de muitos pontos – especialmente a inteligência artificial mal configurada.

Fãs de longa data da franquia ou quem está em busca apenas de mais um jogo de tiro e ficção científica podem até não ligar para isso: o game oferece alguma dose de diversão e conta com roteiro e vozes de alta qualidade.

Mas se você procura um game que seja mais que um game de tiro em terceira pessoa sem bugs, com uma inteligência artificial no mínimo decente e que se equipare aos grandes títulos deste ano (ou dos anteriores, já que Star Trek parece ter sido feito há algum tempo), vai querer fugir desse jogo em velocidade máxima de dobra. E isso significa “muito, muito rápido”.

Espaço, a fronteira final

Na trama, após a destruição de Vulcan no primeiro filme, os remanescentes do local procuram um novo lar. A solução é a máquina Helius, uma fonte de energia que auxilia o processo de terraformação (transformar um planeta desolado em um local habitável). Quem é fã de carteirinha logo reconhece a semelhança com o Projeto Genesis, ponto central da trama do filme “Star Trek 2 – A Ira de Khan”.

Mas a máquina cria um buraco de minhoca e, dele, sai uma espécie que se interessa pelo projeto: os gorn, uma raça que fez parte de um dos episódios mais épicos (e de uma das lutas mais memoráveis) da série clássica. Aqui, ele perde o visual trash e vira um réptil ameaçador e feroz.

Lendo o resumo, a história pode parecer rasa demais, mas seu desenrolar é satisfatório, com algumas mudanças inesperadas, situações de risco constante e muitos elementos que caberiam perfeitamente em um episódio do seriado.

Eu já ouvi isso antes

Disparada a maior qualidade do jogo, a dublagem traz as vozes dos atores do filme de J.J. Abrams – e os protagonistas Chris Pine (Kirk) e Zachary Quinto (Spock) dão um show de interpretação. As falas são bem escritas e revelam bem a personalidade de cada personagem. Os demais ocupantes da nave aparecem menos, mas são igualmente bem dublados.

A qualidade continua nos efeitos sonoros em geral, de tiros de phasers às portas automáticas. A trilha sonora é boa e não deve em nada às composições orquestradas dos filmes, deixando as missões ainda mais épicas do que já são.

Para trekker nenhum botar defeito

Apesar de ser extremamente famosa e vasta, a franquia Star Trek nunca ganhou jogos muito reconhecidos – e é no mínimo gratificante ver e controlar Kirk, Spock e companhia em um título para PC e consoles da atual geração.

Pequenas referências, como um simpático tribble e a necessidade de fazer uma arma caseira contra um dos gorn no jogo, exatamente como na série clássica, devem tirar vários sorrisos do rosto dos mais nostálgicos.

Gráficos audaciosos

O visual de Star Trek simula bem o clima do filme, com cores vivas, explosões para todos os lados e muitos elementos na tela ao mesmo tempo. Os gráficos parecem um pouco “chapados” na tela, mas algumas texturas são impressionantes e o espaço é bem retratado, principalmente para um jogo baseado em filme.

As cenas de corte existem em alta quantidade – e isso é ótimo, já que elas são bem feitas. O melhor visual é do espaço em si, apesar de ele aparecer em poucas fases. Na composição dos personagens, vemos um rosto ou outro com alguma deformação, mas todos são relativamente fiéis aos atores.

“Isso é ilógico, capitão”

A lógica é uma das maiores qualidades dos vulcanos, mas Spock parece se esquecer disso quando é controlado pela inteligência artificial do game. O mesmo vale para Kirk: seu colega não realiza nenhuma ação sem que você o comande e, durante vários momentos, fica dando voltas no cenário ou posicionando-se na linha de tiro dos inimigos.

Os gorn não ficam muito atrás: vários deles ficam parados, esperando seus tiros. O sistema de cobertura deles é inútil, já que alguma parte do corpo dos répteis sempre acaba visível. Isso praticamente obriga você a jogar Star Trek em modo cooperativo online – uma experiência muito mais dinâmica e que não faz o jogador passar tanta raiva.

Mas há um problema que não pode ser contornado por um jogador de verdade: os botões de ação, que surgem na tela quando você deve abrir portas ou hackear um sistema, por exemplo, demoram a aparecer ou somem da tela antes de você pressioná-los.

Onde muitos jogos já estiveram

A jogabilidade de Stark Trek é um Frankestein: são vários os elementos presentes em jogos de aventura e tiro no geral, mas não tão bem executados e recheados de bugs.

Você pode usar o aparelho tricorder para curar seu colega, escanear objetos, hackear eletrônicos e abrir portas – versões do “Detective Mode”, de Batman: Arkham City, e das ações de Mass Effect. Até aí tudo bem, mas o dispositivo não funciona 100%: nem todos os elementos interessantes do cenário podem ser consultados, por exemplo, revelando um pouco de preguiça por parte da Digital Extremes. Há ainda cenas de parkour bastante similares às da série Uncharted, mas sem a mesma fluidez.

A mecânica de tiro (há o modo disparo e o tonteio, como na série) e o sistema de cobertura são menos problemáticos, mas também não apresentam grandes inovações. Já o controle do personagem pode parecer um pouco sensível no começo, mas nada impossível de se acostumar.

Vida longa e próspera?

Espere ação ininterrupta, com várias salas seguidas cheias de inimigos e, volta e meia, um desafio que exige um pouco de raciocínio para quebrar o padrão. O estilo cansa rapidamente e, na única cena de batalha espacial, na qual você controla o sistema de armas da Enterprise, a jogabilidade é confusa e a missão acaba rápido demais.

Além disso, o cenário é sempre um laboratório ou o interior de estações espaciais – locais que podem até ser bonitos, mas enjoam pela repetição. Por isso, nem pense em exploração espacial, diplomacia ou outras características da série clássica: aqui, o negócio é manter o phaser empunhado o tempo todo.

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