Robusto, nostálgico... E simplesmente arrasador

StarCraft é uma franquia de peso. A estrondosa repercussão da série de RTS — estratégia em tempo real — é incontestável. A chave do sucesso? Um conjunto formado por uma jogabilidade extremamente prática e uma cativante ambientação de ficção científica. Tudo retratado com beleza, eficiência e simplicidade.

E a Blizzard é especialista em prolongar fórmulas bem sucedidas. Com isso, o anúncio de StarCraft II foi estrondoso. Ainda mais no que diz respeito à divisão do game em três partes: Wings of Liberty (campanha dos Terrans ou Terranos), Heart of the Swarm (história dos Zergs, alienígenas cujo foco é quantidade de unidades) e Legacy of the Void (saga dos Protoss, seres focados em tecnologia).

Depois de muita espera e fortes expectativas, Wings of Liberty foi lançado com bastante impacto. Pode-se dizer que a desenvolvedora teve o cuidado de criar uma estrutura ampla e sólida, desde as formas de pagamento até o estilo da jogabilidade.

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Como de praxe, é necessário ter um cadastro no sistema Battle.net para jogar StarCraft II. Dessa forma, foram criadas restrições para o jogo, como a ausência de um modo de jogo em rede local (LAN) — o mais expressivo dos pontos negativos do título — e o limite de acesso por tempo de acordo com o método de pagamento utilizado.

Por R$ 49, os jogadores desfrutam de 180 dias (seis meses) de diversão e, se quiserem continuar jogando, podem pagar R$ 10 por mês ou R$ 69 para acabar com as limitações e ter acesso ao game por tempo ilimitado. A opção mais atraente para os fãs é desembolsar R$ 105 e adquirir a versão completa, sem restrições.

Amantes de RTS de todo o planeta foram atingidos pelo lançamento. No momento em que foi escrita esta análise, a Blizzard disponibilizou o game via transferência digital para sete grandes regiões do globo (América do Norte, América Latina, Europa, Rússia, Coreia, sudeste asiático — juntamente com Austrália e Nova Zelândia — e Taiwan) em 13 idiomas associados a esses locais (contando as variações de inglês e espanhol).

É essencial reforçar que foram colocados servidores em cada uma dessas regiões para que os gamers possam jogar sem problemas de conexão. Com isso, fica mais fácil de encontrar conterrâneos em partidas online, promovendo a criação de vínculos virtuais de amizade entre pessoas de um mesmo local ou de regiões próximas.

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Sendo assim, ficou claro que o investimento foi intenso. Foram necessários 12 anos de espera por parte dos fãs do título original, sete anos de desenvolvimento, dezenas de milhões de dólares e vários dias de testes com uma versão Beta multiplayer — os testes foram estendidos, inclusive — para que a segunda edição finalmente aparecesse. E é uma alegria constatar que o produto final ficou ainda melhor que o esperado.

Asas da liberdade

O assunto, aqui, é o ser humano. O comandante Jim Raynor volta à ativa, bem como Sarah Kerrigan (agora conhecida como a Rainha das Lâminas) e outros personagens famosos na série. Um forte destaque vai para a aparição de um novo integrante: o soldado Tychus J. Findlay, cujo vídeo de introdução é muito intrigante e imersivo.

Isso leva o iniciante em StarCraft a conhecer os Terranos de uma maneira profunda, pois as missões — a princípio, há 26 delas pelo caminho — revelam gradativamente as peculiaridades da raça e da saga de Jim Raynor. Pouco a pouco, o jogador fica íntimo das unidades e faz uso das recompensas adquiridas (materiais de pesquisa no laboratório e créditos — a “moeda” do jogo — a serem gastos em atualizações tecnológicas do arsenal e em contratos de mercenários).

A Supremacia e a mídia manipuladora consistem apenas no primeiro dos obstáculos a serem enfrentados na história. Chegam os Zergs, os Protoss e tudo fica mais interessante. Sem contar que a abrangência dos níveis de dificuldade também aumenta a intensidade do desafio. Casual, Normal, Difícil ou Brutal: a escolha é sua, sendo que o nível pode ser alterado antes do início de cada missão.

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Os desenvolvedores optaram em manter os principais pilares da jogabilidade (exemplos: sem enfileiramento absurdo na concepção de unidades, sem pré-criação exagerada de múltiplas construções de uma vez só e sem possibilidade de enfileirar ao mesmo tempo a aplicação de atualizações tecnológicas e a criação de unidades). Ainda assim, as três raças ganharam novidades e permaneceram balanceadas.

Liberdade é o que não falta. Se o jogador ficar cansado da campanha, há outros modos de jogo à disposição. Existe a chance de embarcar em outros embates single player, como desafios variados (partidas com objetivos específicos separadas em três categorias: Básico, Avançado e Especialista) e partidas contra a inteligência artificial em mapas diversos.

Para fechar o conjunto, há o modo multiplayer. Nada mais divertido que enfrentar oponentes imprevisíveis, não é mesmo? E isso pode ser feito de maneira cooperativa em um dos cinco níveis de dificuldade disponíveis: Fácil, Médio, Difícil, Muito Difícil e Insano, sendo que o Difícil é o mais recomendado para pessoas que querem recordar antigas experiências com StarCraft e o Médio é ideal para iniciantes na série que já possuem um pouco de experiência em RTS.

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Os detalhes mais importantes desse e dos demais modos de jogo são apresentados abaixo, e você verá que StarCraft II esbanja qualidade em uma série de quesitos.

Wings of Liberty é uma das melhores provas que a Blizzard é uma desenvolvedora, por falta de uma palavra melhor, fantástica. Não havia como iniciar a saga de StarCraft II de uma forma mais impactante. A espera valeu a pena e o produto final acabou se transformando em um belo presente para os fãs da franquia e demais apreciadores do gênero RTS.

“Querer mais” é uma sensação perfeitamente normal depois de encerrar uma experiência com este jogo. Os jogadores íntimos do gênero são capazes de perder muitas horas com as batalhas: seja na campanha, nos desafios, no modo multiplayer ou em combates casuais com a inteligência artificial. Trata-se de um game extremamente imersivo e empolgante. A pior parte deste título é parar de jogar.

Excelente contextualização

O enredo de Wings of Liberty é ilustrado de um modo convincente. A atmosfera de ficção científica é envolvente tanto durante a pancadaria quanto na exibição dos vídeos — cinemáticas — e na apresentação dos menus interativos (na verdade, cenários de transição, como um bar e uma estação espacial). Surpresas aguardam quem acompanha de perto a saga da franquia.

A forma com que as novas tecnologias e unidades são apresentadas é fora do comum. Progredir é algo maravilhoso no modo principal de jogo. Na realidade, no modo multiplayer também. Espera-se que a Blizzard consiga manter o mesmo nível de imersão nas duas próximas edições com foco nas raças Zerg e Protoss.

Nostalgia inevitável

A invasão Zerg e o retorno da Rainha das Lâminas enaltecem o clima nostálgico já propiciado pelos demais aspectos do game. O simples fato de StarCraft II ser um RTS padrão (focado equilibradamente em economia — administração de minerais e gás vespeno — e combate) já lembra os “velhos tempos” das experiências com games do gênero nos computadores.

Aparecem até mesmo analogias a outros títulos da Blizzard. Além de uma holografia de um Night Elf do sexo feminino dançando em um refeitório, existe um mini game chamado The Lost Viking. Longe de retratar três vikings em batalhas cooperativas na tela, o jogo de fliperama coloca o gamer em um típico combate de naves espaciais com upgrades, bombas, “vidas”, chefes...

Moderno, completo

Releia a introdução acima e você será apenas apresentado à robustez do jogo. Os pilares da estrutura de Wings of Liberty foram criados com muito cuidado. Os desenvolvedores se preocuparam até mesmo em oferecer opções de personalização.

É possível definir quais troféus (na verdade, Realizações) vão para a “sala de troféus”, quais logotipos — exibidos nas unidades de cada uma das raças no modo multiplayer — serão utilizados e também qual será o retrato do jogador no perfil. Todos esses itens são desbloqueados de acordo com o progresso do gamer na pancadaria.

As próprias Realizações (achievements, conquistas) são um aspecto curioso. Nada mais são que os “feitos” do estrategista durante as missões. Mas há certas ações realizadas paralelamente aos embates que também resultam em Realizações.

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Feito também para os brasileiros

É uma alegria brincar com um jogo inteiramente traduzido para o português do Brasil. Reforçando: inteiramente traduzido. Mesmo. Não só as falas e as legendas foram passadas para o idioma nacional na versão da América Latina. Isso vale também para placas, sinais, títulos e principalmente para a movimentação labial dos personagens (tanto nas cinemáticas quanto nas animações dentro de jogo).

Mais interessante ainda é “ouvir” o empenho dos desenvolvedores na reprodução de frases informais com gírias — certos combatentes são intimidadores, dizendo: “Tá a fim de treta, moleque?” — e no charme das traduções de, por exemplo, unidades: Endiabrado, Demolidor, Exterminador... É como se a Blizzard fosse uma companhia brasileira de games, oferecendo até mesmo suporte em português.

Amigável é pouco

A interface geral do jogo é bem esclarecedora e acessível. Quando o gamer menos percebe, já está navegando nos menus, lendo com atenção os dados — exibidos com muita clareza — e conhecendo mais sobre o que o título tem a oferecer, como o sólido componente de matchmaking presente no sistema multiplayer.

Fora do ambiente de batalha, os cenários são muito convidativos. Um bar aparece na tela, depois uma estação espacial... O jogador tem a oportunidade de conhecer mais sobre a saga apenas nesses ambientes com áreas desbloqueáveis. A maior parte das atividades resulta em diversão e conhecer mais sobre StarCraft é uma ação bem estimulada pela facilidade da manipulação das opções à disposição.

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Capricho visual

De fato, este é um jogo visualmente respeitável mesmo fora do gênero RTS. Há alguns defeitos, é claro, mas a apresentação geral é excelente, simples e clara. Os diferentes ambientes da campanha entram em sintonia com os mapas de combate, e tudo é salpicado com uma série de efeitos e animações de tirar o chapéu. E percebe-se que o trabalho de arte foi muito bem feito.

Uma vez no campo de batalha, é normal se deslumbrar pela qualidade gráfica da pancadaria. Explosões são retratadas com cores vibrantes e tanto os golpes corpo a corpo quanto os disparos de diferentes projéteis são exibidos com impacto.

Além disso, cada uma das raças possui uma caracterização específica, chamativa. Brigar contra unidades Protoss, por exemplo, mostra que a raça tem um foco bastante claro em tecnologia alienígena, levando em consideração os efeitos gráficos gerados pelos escudos dos combatentes.

“Free Bird” na rádio?

Pois é. Versões dessa faixa, de “Sweet Home Alabama” e de outros hits do mundo musical podem ser ouvidas pelo jogador durante a utilização de um rádio nos ambientes de transição. O rádio, portanto, é uma bela adição a esses cenários. Nada melhor que vislumbrar locais e personagens familiares ao som de uma boa música.

Falando em música, o que dizer da trilha sonora dentro de jogo? Certas pessoas podem achar que as faixas reproduzidas — algumas bem agitadas — não combinam muito bem com o contexto dos embates travados na tela, mas os temas são mais que aprazíveis. Não é difícil se empolgar com a ambientação sonora e interromper a execução de comandos estratégicos somente para apreciar uma ou outra sequência de acordes.

Multiplayer incrível

Tradicionalmente, o fator diferencial para o sucesso em combates com outros jogadores é saber conciliar conhecimento da raça e dos demais aspectos com velocidade no manuseio dos controles. Mas StarCraft II é um RTS multiplayer que, mesmo assustador em um primeiro contato, foi feito também para noobs.

O ideal, é claro, é praticar comandos (tais como agrupamento de exércitos e atribuição de atalhos) e execução de estratégias contra a inteligência artificial, seja em cooperação com outros jogadores ou no modo single player. Além disso, há a Liga de Treinamento, que oferece 50 partidas para os iniciantes.

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Mas jogadores com mais facilidade de aprendizado podem naturalmente vencer esses combates de introdução empregando apenas Exterminadores e criaturas voadoras (ou que apenas se movimentem transpondo diferenças no relevo). Uma vez ratificada a criação de certas estratégias, o gamer está pronto para uma experiência mais intensa com outros combatentes.

No mais, a progressão no modo multiplayer é satisfatória. Há histórico de partidas, rankings variados, formação de equipes de jogadores, listas de amigos (já com o sistema de Real ID da Blizzard), sistema de chat... Sem contar que esse modo releva a diversão presente na variedade das raças e não apresenta problemas com ping (latência, tempo de conexão).

Para todos

Por mais que a ambientação seja ficcional, a experiência é capaz de conquistar até mesmo quem prefere cenários realistas. O tutorial completo, prático e bem dividido (tanto para interface quanto para jogabilidade) mostra o quão intuitivo é o esquema de comandos do jogo. São fornecidas dicas — muitas vezes, descrições completas dos controles e objetos — essenciais para quem nunca jogou um game do gênero ou tem pouca familiaridade com títulos de estratégia.

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De forma geral, tudo é bem balanceado. Isso vale para a divisão de raças? Com certeza. Para os níveis de dificuldade? Também, visto que são oferecidas várias opções e é muito emocionante tentar superar cada uma delas.

Interação constante

Mesmo nos cenários de transições (como o bar e a estação espacial, mencionados acima), é possível clicar em vários objetos, como fotos, relíquias de guerra, televisões — mais uma vez: a mídia conspira contra Raynor — e outros itens. E, assim que o jogador avança no enredo, surgem novos objetos “clicáveis”.

Além disso, a inteligência artificial instiga o jogador a aprender os atalhos e a lidar com os controles... Mesmo “maquinal” e um tanto previsível (demora um pouco para que o gamer sinta isso), a IA é convincente. As próprias fases com variação de cenário — erupções de lava, ciclos de dia/noite — estimulam a interação do jogador com Wings of Liberty.

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Ausência de LAN

Um grande problema, mas que felizmente não afeta o resto do jogo. Ainda assim, é ruim não poder compartilhar uma partida multiplayer com um companheiro em um PC próximo. Quem preza por esse tipo de experiência pode ficar um tanto desapontado com esse infortúnio. Os jogadores são obrigados a usar o sistema Battle.net e só podem se comunicar através da web.

Está cada vez mais comum o desenvolvimento de jogos inteiramente dependentes da internet. A primeira aparição de StarCraft II não escapou disso e, para a tristeza de muitos, eliminou um modo de jogo com base em conexões locais de rede.

Erros mínimos e falta de pacotes de idiomas

Gráficos? Bem, talvez o defeito mais grave seja a ausência de aplicação nativa de filtros (anisotrópico e anti-aliasing). Mas há outros probleminhas, como backgrounds em 2D — nas cinemáticas — que contrastam com a beleza do resto.

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Surgem erros de tradução (mesmo com a aplicação da reforma ortográfica do nosso idioma), travamentos escassos e bugs de pequeno porte nas animações. Mais erros? O mini game The Lost Viking é pesado e não apresenta um esquema de controles satisfatório. Além disso, certas pessoas podem encontrar problemas — de acordo com a hora do dia, principalmente — em encontrar partidas online.

Por fim, uma “falha” é que os desenvolvedores não disponibilizaram o suporte para mais de uma língua... Pelo menos não no momento em que foi escrita esta análise. Assim, o jogador fica atrelado ao idioma associado à região escolhida e não tem a oportunidade de alterar as falas e os textos do jogo.

97 pc
Excelente