Um RTS complicado e profundo, mas divertido e envolvente

Enquanto Starcraft II não chega ao mercado, fãs de RTS que estão buscando algo para passar o tempo se dividem em inúmeros títulos. Os gostos sempre variam, desde as escalas épicas da franquia Total War até os combates mais pessoais de Warcraft 3. Supreme Commander 2 tenta expandir o que foi visto no primeiro game da série ao mesmo tempo em que constrói uma identidade mais sólida e aumenta a acessibilidade.

Elementos-chave da série retornam e não é difícil para os fãs se sentirem em casa. O mais importante é que a complexidade do jogo permanece, disponibilizando aos jogadores inúmeras opções táticas e estratégicas, que se expandem ainda mais ao considerar as combinações possíveis nos modos multiplayer. O revés, no entanto, é que não é simples adaptar-se ao estilo de jogo caso você seja um iniciante.

O título continua nos passos do antecessor também em termos de história. Vários personagens importantes no capítulo passado reaparecem de alguma forma, mesmo que não diretamente. Além disso, os personagens que os substituem no protagonismo da trama possuem vínculos com as mesmas facções e instituições vistas pelos usuários no jogo original da série.

Esse conjunto define bem Supreme Commander 2: um game que é bastante profundo, complexo e envolvente, mas que tenta fazer as pazes com os jogadores novatos ao focar um pouco mais a experiência e deixá-los aprender mais gradativamente — com a exceção do multiplayer contra outros jogadores, é claro, que continua tão imperdoável quanto antes.

Quem não conhece a franquia pode compreendê-la rapidamente através da mecânica de jogo: o usuário controla um comandante dentro de uma armadura enorme, chamada de ACU — acrônimo de Armored Command Unit, Unidade de Comando Blindada em bom português — e tem o poder de construir inúmeros exércitos. Isso é feito através de apenas dois recursos: massa e energia. O primeiro é bastante limitado e aparece em pontos específicos do mapa, enquanto o segundo é utilizado em maior quantidade e pode ser gerado por usinas que podem ser construídas em qualquer lugar.

Dois recursos e uma unidade central que comanda tudo pode parecer algo simplista, mas não é. Basta começar a jogar para ver as várias nuances e especificidades do título com relação a concorrentes do gênero. Especialmente quando levamos em consideração um terceiro recurso que é utilizado apenas para pesquisar novas tecnologias. Saber balancear tudo isso é complicado, mas é o necessário para se tornar um comandante supremo... É o que diz o jogo, pelo menos.

Vale, se você gostar de se empenhar em um jogo para entendê-lo completamente. O título certamente não é para os leigos, e novatos em RTS terão dificuldades para absorver completamente todas as nuances nele presentes, mas é inegável que Supreme Commander 2 proporciona várias horas de diversão, mesmo considerando apenas a campanha single player.

Além disso, envolve o jogador com sua temática mesmo que não seja um fã de robôs e ficção científica, algo bastante difícil de se realizar. Está longe de ser perfeito, e não chega perto de outros nomes mais bem estabelecidos do gênero, mas tem potencial para se tornar o favorito de muitos jogadores mundo afora.

Escopo

Como todo bom RTS, Supreme Commander 2 consegue aliar os mundos “macro” e “micro” — para quem não sabe, a necessidade de controlar tanto a estratégia como um todo dentro da partida quanto os mínimos detalhes de habilidades de unidades. Existem vários caminhos que podem ser tomados para exterminar o oponente, mas todos passam por três tipos de unidades: terrestres, navais e aéreas, inspiradas claramente nos três ramos de forças armadas tradicionais — a exceção é a raça dos Illuminate, que não possui marinha já que suas unidades terrestres flutuam e podem andar sobre, ou sob, a água.

Tudo é bastante básico no início, e no começo das partidas o jogador geralmente possui poucas unidades à sua disposição. Porém, as batalhas logo ganham proporções gigantescas, pois, ao contrário de outros games do tipo, este título tem uma curva de desenvolvimento sem limites. O que significa que, conforme os jogadores evoluem, mais eles podem evoluir.

Parece bobo, mas na prática o resultado é que, enquanto com alguns minutos de partida você possui uma meia dúzia de unidades, com dez você já está na casa das dezenas. Aos vinte minutos, é possível estar controlando centenas de unidades, sem contar aquelas que são tão poderosas que demoram mais de dois minutos, de tempo real, para serem produzidas.

Esse escopo que transita tão sutilmente da esfera micro para a macro faz das partidas de Supreme Commander um exercício bastante imprevisível de estratégia. E, obviamente, o torna bastante interessante.

O melhor de tudo é que há suporte para isso. Você não ficará sobrecarregado com quatrocentos grupos de unidades para controlar ao mesmo tempo, já que pode colocar um número infinito em um grupo só. Além disso, o jogo oferece um “zoom estratégico”, uma visão bastante afastada do campo de batalha que mostra tudo em formas geométricas, de unidades a construções — além de um mapa quadriculado.

Trilha sonora

Em meio a tantas atividades que devem ser realizadas, muitos de nós nem prestamos atenção aos sons dos games de RTS. Mas Supreme Commander 2 não deixa isso acontecer. Embora não seja nada excepcionalmente estarrecedor em termos técnicos, as músicas sempre encontram um jeito de aparecer na hora certa e despertar a atenção do jogador para elas.

Tudo sem distrair demais da ação, obviamente. Os sons das unidades e os barulhos dos diferentes acontecimentos da tela são bastante claros e bem definidos, o que ajuda a se situar na hora de combates gigantescos. Unidades diferentes possuem barulhos de tiro diferentes, então os jogadores experientes conseguirão até mesmo saber pelo que estão sendo atacados sem nem mesmo olhar de perto os inimigos.

Mapas

Os cenários são razoavelmente variados, e nas campanhas eles são bem construídos, adaptados ao estilo de jogo do game. Os recursos são colocados em pontos estratégicos que devem ser bem defendidos para não cair em mãos inimigas e é preciso considerar os fatores do terreno na hora de elaborar sua estratégia — alguns mapas são mais adaptados a unidades aéreas, enquanto outros às terrestres, ou mesmo navais.

O grande trunfo, porém, que nos fez anotar essa característica como um ponto alto do jogo, é a forma como o título trata essas vantagens. Enquanto um mapa pode ser forrado de água, isso não significa que as unidades navais serão a melhor opção. Ou, mesmo se forem, não serão a única. Isso porque existem várias ferramentas para transporte rápido de unidades e compensação das fraquezas de cada uma das raças.

Ou seja, se você é um jogador que gosta muito, mas muito mesmo, de utilizar unidades terrestres, poderá fazê-lo quase que toda vez, se souber jogar bem. Existem inúmeras unidades, construções e habilidades à disposição para transpor as dificuldades proporcionadas pelos mapas, bata possuir a estratégia correta.

Poder

O poder de algumas unidades é absolutamente estarrecedor. Alguns dos chamados “experimentals” são capazes de enfrentar exércitos inteiros e sair vitoriosos. No entanto, isso nem de perto significa que são invencíveis. Isso porque enquanto um jogador pode decidir investir nessas unidades para ter poder de fogo superior em combate direto, seu oponente talvez tenha resolvido investir em tecnologias que aprimoram suas unidades menores e tenha utilizado o resto dos recursos para construir montes delas.

E, se construiu aquelas que não são particularmente vulneráveis aos colossos utilizados por seu oponente, terá uma boa chance de vencer. Ou seja, o poder em Supreme Commander 2 é extremamente relativo e deve ser analisado levando em consideração tudo aquilo que o jogador controla, e não somente seus exércitos.

Autodefesa

Em muitos RTS, uma tática excelente é atacar o oponente rapidamente enquanto ele não possui defesas prontas. Ao pegá-lo desprevenido, muitas vezes o jogador — mesmo que não ganhe a batalha — inflige tantas perdas que seu adversário não consegue se recuperar; ou então fica muito atrás em termos de desenvolvimento. Esse tipo de estratégia é particularmente eficiente contra jogadores menos experientes.

Dessa vez, no entanto, a Gas Powered Games conseguiu estabelecer um equilíbrio razoável. As próprias fábricas de construção de unidades podem receber melhorias individuais que criam defesas e estruturas de ataque terrestre e anti-aéreo. Além disso, podem até mesmo possuir radares para ver inimigos que estão chegando.

Ou seja, nada de você ter sua base demolida por três pequenos tanques só porque esqueceu de fazer uma torre em sua estratégia de desenvolvimento rápido. É sempre possível proteger sua base de forma eficiente através dos mesmos edifícios que constróem unidades, economizando assim tempo, recursos e preocupação.

Gráficos

Tudo bem, entendemos que com enormes batalhas, com inúmeras unidades se enfrentando e soltando os mais diferentes tipos de poderes, é impossível implementar gráficos de ponta. Mas gostaríamos de, pelo menos, alguma diferenciação entre as opções médias e as máximas de configuração visual. Os terrenos e texturas são simples demais, e a taxa de quadros por segundo ainda assim cai se você se aproximar do campo de batalha — ou seja, o sacrifício nem valeu tanto a pena.

Preso nas introduções

Pode-se pular as animações em CG. No entanto, é impossível sair das introduções (briefings) das missões, uma vez que elas tenham começado. Caso você esteja escolhendo uma missão específica do menu, existe uma opção para pulá-la, mas se estiver jogando a campanha continuamente deverá assistir às introduções sempre — e ao perder e recomeçar o mapa, deverá vê-la de novo. Absolutamente irritante.

Falta de explicação

Para quem não jogava Supreme Commander antes, é absolutamente impossível de compreender algumas das características do jogo, já que não são explicadas no tutorial e as “tooltips” — as caixas de diálogo com explicações que aparecem ao passar o mouse sobre elementos da interface — não ajudam em nada; além de não aparecem em diversos momentos.

Coisas como inteligência, radares, dano causado pelas unidades e vários outros aspectos permanecerão nas sombras até que o usuário resolva ir pesquisar na internet sobre o que realmente fazem, e qual seu impacto na jogabilidade. Algo que não deveria ser preciso, especialmente considerando a grande quantidade de elementos como esses existentes em Supreme Commander 2.

Morosidade

Tudo bem que o cenário do jogo é futurista, e os combates se baseiam em tropas blindadas e enormes robôs. Mas não era necessário que tudo parecesse estar andando em câmera lenta. Até mesmo os aviões parecem diminuir a passagem do tempo em volta de si ao fazer curva. Quando movemos os “experimentals”, então... Parece que leva uma eternidade para atravessarem a sua base, quem dirá o mapa.

Seria excelente se a levada do jogo fosse ligeiramente mais rápida, para tornar a experiência toda mais dinâmica e envolvente. Do jeito que está, é mais fácil e tranquilo gerenciar as habilidades de cada unidade, as melhorias e as construções, mas o combate em si não é tão gratificante. Muitas vezes você até mesmo se deixa levar e fica olhando um missíl levar dez segundos para atingir seu alvo... Um pouco mais de velocidade não seria nada mal.

Raças muito parecidas

As diferenças são notáveis, certamente. Mas existem muitas melhorias que são extremamente genéricas e é inevitável perceber as semelhanças entre as diferentes unidades. Ao comparar, por exemplo, com as diferenças entre as raças de Warcraft ou Starcraft, Supreme Commander 2 fica muito atrás. A Blizzard já mostrou que facções extremamente diferentes podem ser bem equilibradas, e não há razão para que os outros desenvolvedores não se inspirem nisso.

79 pc
Bom