Um lançamento corajoso e bem sucedido para o portátil da Sony.

Syphon Filter foi recebido no PSP com certa descrença; apesar do (ótimo) primeiro título no PS1, as sequências foram perdendo força, tornando a marca sinônimo de mediocridade em jogos de tiro. Mas em Dark Mirror os desenvolvedores resolveram concentrar todos os esforços em criar uma experiência diferente no console da Sony. A decisão de criar um jogo de tiro no PSP foi bastante corajosa, pois o portátil sempre sofreu com a falta de um segundo controle analógico, levantando questionamentos sérios sobre a sua capacidade para rodar de maneira satisfatória certos gêneros de jogo.

Dark Mirror saiu com exclusividade para o PSP, e isso foi muito importante para situar o jogo no topo dos melhores no portátil. Uma série de escolhas feitas, como a definição da engine e do esquema de controle do personagem só poderiam acontecer tendo as limitações do PSP em mente, e nunca o jogo poderia ter tal qualidade caso fosse simplesmente um port, transferido diretamente de algum outro console.

A maior qualidade do jogo é provavelmente o seu grau de entretenimento, pois a diversão e satisfação permanecem ao longo das fases. Evidentemente alguns trechos desafiam a paciência do jogador - que precisa deixar a ação de lado para investigar o cenário em busca do que fazer para avançar - mas nem mesmo esses momentos atrapalham a experiência total Os desenvolvedores tornaram Gabe Logan (também é possível controlar Xian Ling em alguns momentos) um personagem muito versátil e com uma gama interessantíssima de equipamentos para cumprir suas missões. O melhor referencial atual para comparar o estilo de jogo talvez seja Splinter Cell (do PC), embora Syphon Filter seja mais movimentado, com grande ênfase nos combates à distância.

Faz parte da diversão descobrir cada uma das armas disponíveis, mas uma delas merece menção (até porque está disponível desde o início). Gabe possui um rifle sniper, que suporta quatro tipos especiais de munição: carga elétrica, gás venenoso, explosivo e munição de alta penetração. Cada uma das munições age de forma diferente, adicionando um alto nível de estratégia e personalização ao estilo de jogo. A munição de alta penetração, por exemplo, pode matar dois inimigos com um só tiro, desde que você ache a posição ideal para atingi-los. A introdução desse item faz com que o jogo possa ser apreciado tanto por jogadores mais ousados e focados na ação frenética, quanto por aqueles que preferem um avanço mais lento, avançando de forma mais exploratória e sem sofrer danos.

É desnecessário falar sobre todos os equipamentos à disposição do jogador. Basta dizer que existe uma grande variedade e que todos têm função no jogo, obrigando o jogador a explorar diferentes forma de abordar uma mesma situação.

Enredo meramente ilustrativo

A história do jogo possui uma característica interessante, que não é encontrada com frequência: é difícil de entender, embora seja simples. Quando você chega ao fim do jogo, percebe que não havia nada demais, sendo uma história padrão de jogos desse gênero. Mas a maneira pela qual vai sendo contada a torna tão intrincada e cheia de detalhes que possivelmente o jogador médio escolha ignorar a história, concentrando-se apenas em entender quais são os objetivos a serem cumpridos.

Esquivas e táticas stealth

O esquema do controle parece difícil de assimilar inicialmente, mas depois de um pouco de persistência para aprendê-lo, se estabelece como o melhor modo para jogar Syphon Filter, (ou qualquer outro jogo de tiro) no PSP. O manche analógico controla a movimentação lateral, o avanço e recuo, enquanto os botões de ação (quadrado, triângulo...) giram o personagem no cenário e controlam a mira. Foi uma maneira engenhosa de suprir a falta do segundo controle analógico e funciona muito bem para este jogo específico. O controle digital não faz nenhum tipo de movimento (a não ser agachar e levantar), e funciona como um menu de armas e ações a serem realizadas.

Outra sacada genial foi estabelecer funções duplas para os mesmo botões; normalmente isso não funciona muito bem, confundindo o jogador e atrapalhando o desenvolvimento da ação. Foi um passo arriscado dos desenvolvedores, mas em Syphon Filter foi bem implementado, e permitiu uma expansão das ações disponíveis para o personagem. Por exemplo, o controle analógico serve para movimentar o personagem, mas caso você esteja de frente para um obstáculo plano, como uma parede ou caixote, basta dar um toque para cima que Gabe encostará contra o obstáculo, na famosa “posição Solid Snake” de esquiva e ataque. Outro exemplo está no controle digital: segure o direcional para esquerda e você terá acesso ao menu de armamentos. Com a arma em punho, um toque no mesmo direcional esquerdo fará com que você selecione a taxa de tiro da arma que acabou de escolher.

A dupla função dos controles diminui drasticamente a necessidade de apertar start ou select para troca de armas e equipamentos, aumentando ainda mais o nível de ação e fluidez. Graças ao esquema de controle inteligente, Gabe Logan realmente é um super-agente no PSP.

Ambientes belos e perigosos

O fato de Syphon Filter ter sido desenvolvido com exclusividade para PSP aparece na qualidade dos modelos 3d e cenários, sendo um dos jogos mais bem acabados do console. A qualidade visual é, sem dúvidas, comparável ao PS2 (com exceção de algumas poucas texturas). Como se não bastasse a exploração total das capacidades da plataforma, os desenvolvedores também deram muita atenção aos detalhes. Pequenas coisas, como o fato de todas as armas disponíveis estarem realmente sendo carregadas por Logan e aparecerem distribuídas pelo seu corpo (quando eu jogo, Logan sempre carrega um sniper rifle nas costas), ajudam a tornar a experiência toda mais verossímil e satisfatória.

A história do jogo é dispensável, mas isso não é motivo para ignorar os ótimos vídeos que rolam entre os estágios. São vídeos bastante longos para um sistema portátil, e a qualidade se compara aos vídeos de X-Men Legends ou Marvel Ultimate Alliance, sendo uma ótima adição como “prêmio” por concluir uma série de fases.

O zunir dos projéteis inimigos

Os efeitos sonoros em Syphon Filter completam de maneira espetacular a diversidade de armamentos e ações que o jogo disponibiliza. Cada arma produz um som de tiro característico, que parecem adequados ao tipo de arma. A competência na implementação dos sons ambientes também ajuda na jogabilidade. Por exemplo, você pode ouvir inimigos chegando através do som de seus movimentos ou de suas falas. Também é possível ouvir se um inimigo morreu devido a uma armadilha no cenário (como canos de gás quebrados que se tornam lança-chamas temporários), sem que você precise se expor a tiros ou chamar atenção. No calor de uma batalha isso é muito importante, pois evita uma série de ações de conferência e permite a concentração no cumprimento dos objetivos principais.

O jogo tem muitas vozes e narrações, e todas são satisfatórias. A única exceção é Gabe Logan, que parece um ator canastrão de filme de ação. Pode até combinar com o estilo do jogo, mas impede que você leve o personagem e a história a sério

Coragem e sucesso

Algum tempo depois de seu lançamento e da empolgação inicial, fica mais fácil de identificar os problemas em Syphon Filter. Mas o tempo decorrido também dá mais segurança para certificar que esses pequenos problemas não prejudicam em nada o nível de diversão do jogo. Enquanto não podemos avaliar Metal Gear: Portable Ops, Syphon Silter certamente continuará sendo o melhor jogo de tiro em terceira pessoa do PSP.

87 psp
Ótimo