A atualização que os JRPGs precisavam

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Há tempos procuro um JRPG que realmente me prenda na frente do console por longas e longas horas. O gênero, que já foi um dos carros-chefes da indústria, já não é mais o mesmo e até  seu ícone máximo, Final Fantasy, sofre com uma crise de identidade enquanto tenta se adaptar a uma realidade em que os jogos japoneses estão cada vez mais perdendo espaço para os lançamentos ocidentais.

E é por isso que Tales of Xillia foi uma das maiores surpresas deste ano. Apesar de ele ser parte de uma franquia bastante tradicional, sua chegada ao PlayStation 3 representa uma renovação em vários sentidos. Ele é, ao mesmo tempo, o resgate de um estilo de jogo tão tradicional e também uma tentativa bem-sucedida de atualizar algumas mecânicas.

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Talvez seja exatamente esse o grande segredo do game. Ele não é ambicioso a ponto de tentar abraçar o mundo e prometer reinventar o gênero, mas traz novidades significativas em termos de jogabilidade que renovam várias mecânicas clássicas, tornando tudo bem ágil, dinâmico e interativo.

Enquanto outras franquias tentam se inovar recriando suas fórmulas e alterando conceitos fundamentais, com Tales of Xillia, a Namco Bandai optou por se manter fiel àquilo que já existe e procurou formas de melhorar apenas aquilo que era necessário. E o resultado não poderia ser mais satisfatório.

Mesmo sendo um jogo já lançado há algum tempo no Japão, a chegada de Tales of Xillia ao Ocidente faz dele um dos melhores JRPGs de 2013. Como falei no início da análise, o game pega todos os acertos do gênero e traz melhorias naquilo que precisava ser refinado e atualizado. No entanto, ele ainda se mantém fiel ao seu estilo e consegue passar ileso à crise de identidade que outras franquias enfrentaram.

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No final das contas, a Namco Bandai nos presenteia com uma excelente aventura construída a partir de mecânicas interessantes e que incentivam o jogador a progredir e melhorar constantemente seu personagem. São mudanças sutis, mas que fazem muita diferença na jogabilidade e mostram como é possível renovar uma fórmula que ainda tenta se atualizar.

Apesar de alguns dos clichês serem bem incômodos — o comportamento exagerado dos personagens e a própria falta de ritmo do enredo —, isso não apaga o brilho do título. Com uma história repleta de misticismo e reviravoltas digna dos clássicos do gênero, Tales of Xillia nos mostra que os JRPGs ainda conseguem nos surpreender mesmo sem grandes revoluções. O gênero nunca precisou ser reinventado, apenas atualizado.

Batalhas do seu jeito

Se os JRPGs sempre foram marcados por conta de seus combates em turnos, Tales of Xillia mostra que é possível renovar essa estrutura sem apelar para a descaracterização. Prova disso é que o sistema de batalha consegue trazer o dinamismo e a agilidade necessários para criar um ritmo interessante sem que o jogo se transforme em um Action RPG.

Apesar de não haver um menu de ações e todos os movimentos serem realizados a partir de comandos executados pelo jogador, o título traz algumas variáveis que alteram o ritmo das batalhas e fazem com que os confrontos sejam muito mais do que um esmagar de botões ou um show pirotécnico.


Por mais que você tenha total liberdade para andar pelo cenário e partir para cima do oponente, há um limite para os movimentos que podem ser realizados em cada ataque. O chamado Assault Counter (AC) é um pequeno contador que restringe a quantidade de golpes que podem ser aplicados em uma única sequência, o que faz com que você tenha de ficar muito atento às suas estratégias para não abrir nenhuma brecha para um possível contra-ataque.

Pode parecer algo sem sentido — principalmente por conta de sua recuperação quase instantânea —, mas basta mergulhar em sua primeira luta para perceber o quanto esse atributo faz diferença. E mais do que investir em formas de aumentar esse medidor, seu desempenho na realização de um combo pode oferecer um ou mais ataques extras para, assim, ampliar seu dano.

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Além disso, é possível "ligar" seu personagem a um de seus aliados a partir do chamado Link. Com esse novo recurso, o trabalho em equipe é ampliado e a dupla passa a trabalhar muito mais em conjunto, principalmente na hora de conjurar magias especiais e muito mais poderosas que as convencionais. Além disso, cada uma dessas “parcerias” oferece habilidades únicas, seja para curar seu grupo ou para quebrar todas as defesas do adversário.  

Todas essas adições à mecânica fazem com que Tales of Xillia seja um RPG capaz de agradar diferentes tipos de público. Os jogadores mais experientes e que já conhecem o estilo da série vão poder se aprofundar nas particularidades do game para criar estratégias poderosas enquanto os novatos podem aproveitar todas essas novidades para se divertir com um sistema de batalha ágil, dinâmico e bastante divertido.

Controlando seus aliados

Não há nada pior em um RPG do que uma inteligência artificial ruim. Como tudo depende de estratégia durante as batalhas, uma IA limitada pode fazer com que seus aliados sejam muito mais um peso em seu grupo do que uma força amiga. E depois de sofrermos por tanto tempo xingando NPCs, Tales of Xillia nos mostra que é possível criar um ótimo gerenciamento de personagens.

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O jogo traz muitas opções para que você configure o comportamento de seus amigos durante os confrontos. São parâmetros que vão definir suas ações nos mais diferentes momentos, seja na hora de decidir quem atacar ou como reagir quando estiver com pouca energia. Tudo está lá para ajudar em sua jornada.

E não são opções gerais. Tales of Xillia permite que você coordene as reações de cada um dos personagens, o que faz com que você tenha total controle sobre o que acontece no campo de batalha, evitando que você seja surpreendido negativamente em algum momento importante.

Investindo em seu herói

Outro recurso que chama a atenção em Tales of Xillia é a forma como você desenvolve seus personagens. Passar de nível não é apenas melhorar seus atributos, mas ganhar pontos para evoluir as chamadas Lilium Orbs, uma enorme rede que vai direcionar o progresso de seus heróis e determinar quais habilidades e vantagens eles terão.

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Por mais que seu funcionamento pareça, à primeira vista, bastante complexo, basta você se aventurar pelas linhas e nós que constroem essa estranha teia para perceber que tudo é bem simples e intuitivo. Em tese, é mais ou menos como o Sphere Grid de Final Fantasy X, ou seja, você recebe alguns pontos quando passa de nível e deve usá-los para comprar melhorias em seu status ou para adquirir novas habilidades — chamadas de Artes.

E como é você quem decide a forma de evolução, isso traz uma liberdade impressionante na hora de definir a vocação de cada personagem. É possível criar heróis equilibrados, ou seja, com diferentes skills e atributos, ou potencializar determinadas características e especializar cada um dos protagonistas. No fim das contas, é você quem decide como isso vai acontecer.

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Outra novidade são os chamados Skill Points, que limitam a quantidade de habilidades que os personagens podem usar em combate. Isso eleva a dificuldade do jogo, pois obriga o jogador a pensar muito bem antes de entrar em uma batalha, conhecendo os inimigos que habitam determinado local, assim como suas habilidades e fraquezas.

No fim das contas, tudo isso faz com que Tales of Xillia se torne incrivelmente viciante. Tanto as Lilium Orbs quanto os Skill Points incentivam o jogador a ir além para conhecer um pouco mais dessas mecânicas e também abrir novas possibilidades em combate.

Ainda preso aos clichês

Por mais que Tales of Xillia consiga trazer muitas mecânicas inéditas, renovando a jogabilidade do gênero, muitos dos clichês dos JRPGs também estão de volta. E mesmo que alguns deles se encaixem muito bem — como o próprio enredo e o desenvolvimento dos personagens — outros são heranças bem datadas de outros tempos e que não se encaixam mais nas propostas atuais.

Exemplo disso é a narrativa que se desenvolve de maneira lenta e pouco interessante nas primeiras horas de jogo. Assim como nos antigos RPGs, o começo da história se arrasta e é preciso ter força de vontade para continuar até chegar ao ponto em que as coisas começam realmente a valer a pena.

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E isso é muito triste, pois essa “herança maldita” vai contra todas as ótimas novidades que a Namco trouxe em termos de dinamismo e ritmo, criando um estranho contraste. Assim, para aproveitar tudo aquilo que Tales of Xillia tem realmente a oferecer, é preciso um pouco de paciência e dedicação.

A parte visual também é bem datada, embora isso seja justificado. O game foi originalmente lançado em 2011 no Japão e a espera de dois anos fica clara quando olhamos para os gráficos. Ainda que o estilo anime ajude a minimizar as falhas, é possível notar a simplicidade dos cenários e a falta de expressões faciais nos personagens.

90 ps3
Excelente