Evoluir para sobreviver

Tudo evolui. Embora pareça ser um grande clichê, é praticamente impossível falar sobre The 3rd Birthday sem discutir a transformação que busca o aperfeiçoamento. Isso porque o assunto está estritamente ligado à história de Aya Brea e ao seu retorno ao mundo dos games.

Se você faz parte da geração PlayStation 2, é muito provável que Parasite Eve não seja um nome tão comum em sua memória. O título foi lançado pela antiga SquareSoft para a primeira geração de consoles da Sony e se tornou um grande sucesso ao trazer uma trama bastante complexa para a época, misturando elementos de ficção científica a um sistema até então inovador, que unia RPG e ação.

Img_normal
No meio disso, temos Aya, uma policial americana que acaba participando de um gigantesco incidente que envolve mutações e uma série de outros fatos misteriosos. Com o passar do tempo, ela se descobre no olho do furacão e com uma relação muito próxima ao caos que atingiu o país em plena véspera de Natal.

Porém, o que isso tem a ver com evolução? Tudo. Se você se lembra dos títulos anteriores, certamente deve também recordar que o estopim para o apocalipse no meio de Nova York foi um processo de transformação nas mitocôndrias de indivíduos e criaturas, fazendo com que seres geneticamente alterados ficassem fora de controle. Além disso, a própria protagonista era uma das vítimas desse processo.

Em The 3rd Birthday, nós somos levados ao ano de 2013 e apresentados a uma Aya Brea ainda mais desenvolvida. Após a principal metrópole dos Estados Unidos ser atacada por um ser chamado Babel, o governo cria um setor específico para conter o avanço da ameaça e coloca a moça como peça fundamental nessas operações.

Img_normal
A importância da heroína nesse contexto vai muito além de sua participação nas tragédias anteriores. Por mais que ela tenha uma experiência com esse tipo de fenômeno, o que realmente faz com que a ex-policial seja requisitada é o novo estágio de sua evolução, que permite uma espécie de viagem no tempo com base em projeções astrais. É com base nesse novo truque que ela controla o chamado Overdive System e consegue alterar o rumo da história.

Seleção natural

Em 1859, o naturalista Charles Darwin publicou sua mais célebre obra, o livro “A Origem das Espécies”. Nele, Darwin apresenta o conceito de evolução e, de forma resumida, explica que todas as transformações existentes na natureza são resultantes de um processo de adaptação necessária para a sobrevivência. É a chamada seleção natural.

Por mais estranho que pareça, há algo muito semelhante no mundo dos games – e The 3rd Birthday é um grande exemplo disso. Quando o primeiro episódio foi lançado, ainda no PlayStation, o sistema de RPGs por turnos vivia seu melhor momento. Jogos como Final Fantasy eram sucesso de vendas e fizeram com que vários outros títulos seguissem com uma jogabilidade semelhante. Com Parasite Eve não foi diferente.

Img_normal
No entanto, a geração do PlayStation 2 mudou esse panorama. As melhorias no console permitiram que os estúdios desenvolvessem melhor os controles e deixaram tudo mais dinâmico. Com isso, as desenvolvedoras focaram em oferecer experiências mais dinâmicas e menos burocráticas nos combates.

É nesse contexto que temos o retorno de Aya Brea. Como forma de se adaptar aos novos tempos, a Square Enix abandonou completamente os menus para ataques e as rodadas para colocar a heroína em uma game completamente renovado e mais centrado no combate. Ainda que seja possível encontrar resquícios de seu passado, o principal passou a ser as batalhas contra a nova ameaça.

Reflexo disso é que o novo game chama-se The 3rd Birthday, “descontinuando” a franquia Parasite Eve. Isso significa que o título para PSP não é uma sequência, mas uma evolução. A peça-chave para a sobrevivência da série.

Se você é um fã de velha data dos Parasite Eve originais, é melhor experimentar The 3rd Birthday de mente aberta. Como dito anteriormente, o jogo é fruto de uma adaptação da série à atual geração, o que faz com que vários elementos antigos não estejam mais presentes. Trata-se de uma evolução que deve ser observada com uma perspectiva diferenciada, tanto positiva quanto negativamente.

Img_normal
Sendo assim, o retorno de Aya Brea aos consoles realmente é digna de elogios. Mesmo com alguns problemas, a aventura é instigante, bonita e imersiva, que consegue prender o jogador em frente ao PSP por muito tempo. Por mais que a repetição desanime em alguns momentos, o nível de dificuldade equilibra essa falha e dá novos desafios para quem tentar remontar as memórias da personagem.

Por fim, o jogo consegue se destacar como um dos últimos bons jogos da vida do portátil da Sony. Mesmo com a iminência do NGP, a Square Enix ainda demonstra interesse no PlayStation Portable. Resta saber se seus próximos lançamentos – como Final Fantasy Type-0 – também apresentarão essa evolução aparente ou se o estúdio voltará atrás na tentativa de agradar aos fãs mais conservadores.

Renovando os combates

É claro que, como toda mudança de grande porte, muita gente criticou as novidades. Os fãs reclamaram que The 3rd Birthday não lembra em nada a mecânica de seus antecessores, evocando as qualidades de tempos que não voltam mais. Por outro lado, se esquecem de ver que, como dito, as alterações foram necessárias para que a existência do título fosse possível na atual geração. É somente com isso bem esclarecido que podemos analisar todas as inovações que a Square Enix preparou.

Img_normal
A mais significativa delas é o novo sistema de combates, que deixa de lado os turnos para colocar Aya frente a frente com os inimigos em tempo real. A alteração é bastante natural e funciona muito bem, principalmente por conta de sua simplicidade. Basta encontrar um inimigo – os chamados Twisted – para que você comece a atirar contra ele. Não há uma tela específica para as batalhas ou menu para seleção de golpes: tudo é muito simples e ágil, o que colabora para a construção do ambiente caótico e cheio de adrenalina que o game oferece.

Para isso, foi adicionada uma mira automática assim que você aperta o botão L. Ao pressionar a tecla, Aya irá focar seus esforços no adversário mais próximo, o que é uma ótima ajuda na hora de encontrar uma criatura fora do seu campo de visão. Também é possível alterar seu alvo por meio do D-Pad.

No entanto, a novidade mais significativa e o grande ponto alto de The 3rd Birthday é o Overdive System, que permite que a protagonista envie sua mente para outros corpos e assuma o comando dos civis e militares que estão na cena. Essa nova habilidade evolutiva traz infinitas possibilidades estratégicas – como será visto a seguir – e um dinamismo impressionante ao game.

Img_normal
O sistema é apresentado logo nos primeiros minutos de jogo e, em um breve tutorial, conhecemos todas as particularidades da projeção astral. A mais significativa e útil é a própria sobrevivência, já que Aya obtém a quantidade de energia, status e armas de seu hospedeiro. Esse truque é fundamental nas lutas, principalmente por conta da facilidade de selecionar seu novo “recipiente”.

O maior exemplo é no caso de sua barra de HP chegar a zero. Só é preciso enviar seu consciente para outro indivíduo para dar continuidade à ação. É como se cada NPC em cena fosse uma vida a mais disponível para utilização, ainda que seja preciso saber muito bem como cultivar cada uma delas. Portanto, é muito importante evitar que seus aliados sejam feridos durante os ataques dos Twisted, já que eles podem ser seu novo corpo em breve.

Além disso, esse “teleporte” também é necessário para impedir que você seja encurralado sem armas em algum momento. Como cada personagem é equipado com um equipamento, você pode possuí-los para utilizar aquela reserva de munição. Por mais que não seja nada significativo, esses tiros a mais podem salvar sua vida – ou de algum cidadão indefeso que passava por ali.

Img_normal
Porém, os parceiros não são os únicos que servem como abrigo temporário para sua mente. Ao causar uma determinada quantia de dano no inimigo, um ícone surge sobre o monstro e permite que você invada seu cérebro e cause um dano interno absurdo.

Por fim, há a habilidade máxima de Aya, chamada de Liberation. Ao ativar esse modo, seus movimentos tornam-se incrivelmente mais rápidos e seus ataques, potencializados. Ainda que a duração seja de apenas de alguns segundos, esse é um dos principais trunfos da heroína contra chefes e outras criaturas mais fortes.

Pensando no campo de batalha

Mais do que simplesmente oferecer uma jogabilidade dinâmica, o Overdive System também proporciona uma série de medidas estratégias em meio ao campo de batalha. Se apenas trocar de corpo para não morrer já é algo interessante, imagine a quantidade de possibilidades que a projeção astral traz para a criação de estratégias.

O grande êxito de The 3rd Birthday é fazer com que a novidade vá além de um recurso para estender a diversão, afinal, a troca de corpos pode ser usada para vários fins, dependendo de sua necessidade. Além da já comentada “vida extra”, os NPCs ajudam a concluir objetivos específicos e a derrotar os Twisted.

Img_normal
O primeiro e mais simples uso tático do Overdive é para alcançar pontos distantes do cenário. Se houver um atirador de elite em cena, por exemplo, basta dominar seu corpo para obter um rifle e uma visão privilegiada do local. Isso é quase que obrigatório em diversos momentos da trama, principalmente por conta da arma de alta precisão.

A própria projeção como forma de evitar a morte pode ser feita de maneira estratégica. Isso fica bastante claro já em um dos primeiros chefes. Como seus ataques se mostram ineficientes, a única solução é fugir. Por conta da habilidade de teleporte e de criação de barreiras do monstro, é preciso enviar sua mente para um NPC mais à frente para ganhar distância.

Além disso, também é possível usar a troca para posicionar aliados no campo de batalha e, assim, obter o máximo de bônus de ataque. Isso permite que vários personagens foquem seus ataques em um único alvo e, ao mesmo tempo, permaneçam ilesos. Isso faz com que você possa realizar o chamado Crossfire, um ataque em conjunto que consegue quebrar as barreiras dos Twisted e facilita sua invasão mental.

Img_normal
Mais do que isso, existem momentos em que a localização dos soldados é fundamental, seja para realizar ataques de todos os lados ou para manter alguém seguro por um determinado tempo. Por conta disso, é preciso que o jogador tenha uma visão extremamente ampla do que acontece ao seu redor para elaborar um plano para cada situação.

Ainda é um RPG

Img_normalComo toda evolução, The 3rd Birthday ainda mantém alguns elementos que demonstram suas origens. Ainda que a jogabilidade tenha se transformado em algo mais próximo do shooter de ação, ainda é possível identificar características de RPG dentro da mecânica de progressão de Aya Brea.

Peculiaridades como pontos de experiência e gerenciamento de habilidades ainda estão presentes, o que deve agradar aos fãs mais saudosistas do velho gênero. Neste caso, o desenvolvimento é feito em diferentes áreas e dá muitas possibilidades para que o usuário personalize a heroína de acordo com seu estilo de jogo.

Cada Twisted derrotado concede dois tipos de pontuação: a primeira é o tradicional XP, necessário para avançar de nível e responsável por fazer com que a protagonista tenha mais energia vital e melhore alguns atributos. Além dele, há os chamados Battle Points, usados para comprar novas armas e melhorar sua perícia com esses equipamentos, assim como a capacidade de munição, alcance e potência de tiro.

Por fim, há uma grade de habilidades para que você crie combinações genéticas com base em chips de DNA que Aya encontra nos inimigos abatidos. Com isso, é possível evoluir pontos como recuperação nativa de energia e melhorar o poder de fogo no Liberation Mode.

O único problema dessa herança dos RPGs é que não há nenhuma explicação sobre seu funcionamento. Enquanto a evolução das armas é algo bastante intuitivo, a mesma coisa não pode ser dita sobre os códigos cromossômicos. Sem nenhum tutorial que apresenta suas particularidades, o jogador deve descobrir empiricamente a lógica existente, o que pode fazer com que você simplesmente desperdice pontos importantes e até mesmo regresse desnecessariamente em algumas partes.

Img_normal
Por fim, temos a grande quantidade de objetos desbloqueáveis. Para quem é louco por colecionar itens, a evolução da série Parasite Eve oferece diversas roupas alternativas, incluindo algumas bem interessantes, como coelhinha ou uma fantasia de Lightning, de Final Fantasy XIII. É claro que, para obtê-las, é preciso terminar o game diversas vezes.

Realismo de bolso

Se existe algo que os fãs de RPG sabem muito bem é que a maioria dos títulos desenvolvidos pela Square Enix já são sinônimos de qualidade visual. Dando continuidade a uma característica que vem desde o PlayStation, os gráficos de The 3rd Birthday são de tirar o fôlego.

Isso já é visto logo de início. O realismo da apresentação é fantástico e está entre os melhores já construídos no portátil. Para quem ainda subestima o poder de fogo dos consoles de bolso, o retorno de Aya Brea é uma ótima oportunidade para rever seus conceitos.

Img_normal
As cenas de jogo também estão muito bonitas. Além da modelagem dos personagens competente, o cenário também impressiona. Como toda a ação acontece durante o inverno, temos flocos de neve voando pela tela sem prejudicar o desempenho do game.

Esse detalhe, em conjunto com as cinzas e pedregulhos das ruínas de Nova York, também contribui bastante para a ambientação do jogo. A situação pós-apocalíptica se mostra visualmente verossímil e ainda mais intensa de viver, já que tudo parece conspirar contra a heroína. Os locais são inspirados em pontos existentes da cidade americana e trazem uma variedade que contribui muito para a pluralidade de lugares de The 3rd Birthday.

Estudo sobre a paranoia

Seja você um velho conhecido da franquia Parasite Eve ou não: The 3rd Birthday é um game para todos. É claro que aqueles que acompanharam os jogos anteriores terão uma facilidade maior de compreender vários elementos da trama, mas isso não impede os novatos de mergulharem na mente de Aya Brea.

Img_normal
O enredo é bastante confuso, já que se inicia após a protagonista ser encontrada desmemoriada nas ruínas de Nova York. Com isso, somos jogados em meio a um turbilhão de informações e acontecimentos, que se misturam com os fragmentos de lembranças da personagem. Como se não bastasse, o Overdive System permite que ela retorne no tempo e altere o rumo da história, criando novas realidades.

Outro ponto é o próprio subconsciente da heroína, que nos mostra flashes de sonhos e pontos do passado. Isso torna a experiência ainda mais envolvente, já que a vontade de descobrir o que de fato aconteceu faz com que você fique preso em frente ao portátil por horas e horas.

A maldição do PSP

A grande maioria dos títulos para PSP sofrem do mesmo mal: os controles. Boa parte dos estúdios tentam recriar no aparelho a mesma experiência de comandos existente no PlayStation 3, mas esbarram na falta de botões e no próprio posicionamento das teclas existentes.

Em The 3rd Birthday, isso é ainda mais evidente. Como as ações de mirar e atirar são feitas com L e R, as câmeras são ajustadas por meio do D-Pad, algo muito pouco intuitivo. Como resultado, temos uma verdadeira confusão na hora de se localizar. Sabe o emblema “Ambissinistro”? Temos aqui um forte representante para ele.

Img_normal
Exemplos para a bagunça não faltam. Virar a tela para a direita, mas disparar sem querer é o mais comum, porém existem outros equívocos que conseguem tornar tudo ainda mais confuso. Isso tende a ficar pior nas horas de conflitos intensos, já que você desiste da lógica para apelar ao instinto.

Além disso, empunhar a arma com o botão L não é muito cômodo. Como a ação é algo muito comum durante todo o jogo, se prepare para sentir o dedo latejar após algum tempo de disparos.

Avança e atira

Talvez um dos pontos mais críticos de The 3rd Birthday seja a extrema repetição das ações. Ainda que as missões sejam bem variadas e consigam oferecer desafios diferentes em cada fase, é impossível não perceber que a estrutura básica é exatamente a mesma em todos os níveis. Nem mesmo a pluralidade dos locais colabora para isso.

Img_normal
Essa deve ser a maior deficiência decorrente da evolução de RPG para shooter de ação. Se antes havia exploração de cenários em busca de itens e outras informações úteis, agora temos um sistema simplista de “avance e atire”. Para quem acompanhou os games anteriores, certamente é uma perda considerável. Bastam alguns minutos de jogo para perceber que você deve fazer exatamente a mesma coisa sempre – algo bastante frustrante.

82 psp
Ótimo