Análise de The Legend of Zelda: Breath of the Wild

O gosto recompensador e doce da liberdade

The Legend of Zelda: Breath of the Wild pode ser considerado uma espécie de volta às origens da série, sem que isso signifique retroceder em conceitos ou mecânicas. Reconhecendo que a fórmula estabelecida em Ocarina of Time estava ficando um tanto estagnada, a Nintendo tomou uma decisão arriscada: abandonar quase tudo que era considerado um padrão testado para apostar em novas ideias.

O resultado dessa aposta ousada valeu a pena. Se havia o medo de que uma mudança tão radical de direção pudesse fazer com que a franquia perdesse “sua cara”, ele desaparece após jogar os primeiros momentos da aventura — e é completamente esquecido depois que você descobre que passou 5 horas só explorando ambientes, tempo que pareceu ser 30 minutos.

Sem deixar totalmente de lado os elementos anteriores da série, a empresa japonesa criou uma experiência que define um novo patamar de qualidade para o nome Zelda — e para jogos de mundo aberto em geral. Conforme adiantei em minha análise preliminar, esse é o tipo de game que tem tudo para se tornar uma grande influência para a indústria como um todo.

Liberdade: elemento central

A nova filosofia adotada pela Nintendo no desenvolvimento de Breath of the Wild resultou em um jogo marcado pela liberdade. Se no passado a estrutura da série era um tanto previsível, aqui não há ordens específicas para explorar labirintos, tampouco existem itens destinados a passar por obstáculos que bloqueiam seu avanço a novas regiões.

Caso você assim deseje, é possível pular quase todos os dungeons (há quatro obrigatórios) e ir direto enfrentar o último chefe do jogo. Claro, haverá uma dificuldade bastante grande ao tentar fazer isso, mas a possibilidade realmente está lá — não se trata somente de uma daquelas famosas “promessas vazias” feitas por muitos membros da indústria.

Para tornar isso possível, a Nintendo decidiu oferecer logo nos primeiros instantes todas as ferramentas de que o jogador precisa para sobreviver. Embora isso resulte na perda daquela sensação boa que surgia quando você finalmente pegava um hookshot ou um arco e flecha, as vantagens dessa decisão são muito maiores.

Ouso dizer que, após algumas horas explorando o novo sistema, você vai até se questionar como aceitamos durante muito tempo a adoção da antiga “fórmula de bolo”. Outro ponto bastante positivo é que, pela primeira vez desde Ocarina of Time, não há ninguém guiando seus passos — depois de muito tempo, a Nintendo decidiu “soltar a mão” dos jogadores e confiar na capacidade deles de descobrir coisas por conta própria.

O Zelda mais RPG de todos os tempos

Para não dizer que a empresa simplesmente cortou “as gordurinhas” da série, ela adicionou uma sequência de elementos de RPG ao novo game. Agora, é possível comprar e vender itens — com elementos leves de economia na forma de preços que variam entre locais —, bem como escolher junto a uma vasta seleção de armaduras (que podem passar por upgrades).

Para personalizar ainda mais seu personagem, é possível tingir suas diferentes armaduras e peças de roupa através de um NPC encontrado logo cedo na aventura. Novamente, isso não é algo que o título “joga na sua cara”: você pode simplesmente passar reto por esses elementos caso assim deseje.

Breath of the Wild também apresenta um sistema bastante robusto de cozinhar alimentos e elaborar elixires mágicos. Investir seu tempo em criações do tipo é fundamental para conseguir sobreviver em regiões inóspitas e para ganhar aquela “forcinha a mais” na hora de enfrentar um inimigo — você ainda pode aumentar permanentemente seus corações, mas isso pode ser considerado algo até mesmo secundário dependendo da maneira como você joga.

Corra, pule, escale, voe

Outro elemento que retorna — emprestado de Skyward Sword — é a roda de estamina. Ela determina o quanto você pode nadar, correr e, principalmente, escalar. Breath of the Wild é um game que permite chegar a qualquer ponto de seu mapa caso você assim deseje, seja ele uma montanha ou o topo de uma catedral abandonada.

Breath of the Wild é um game que permite chegar a qualquer ponto de seu mapa

Atitudes que em outros jogos “quebrariam a experiência” surgem aqui como um elemento de descoberta surpreendente. Praticamente todo canto que você vai esconde alguma espécie de segredo, seja ele um baú com coisas interessantes, uma arma com características diferentes ou uma semente de korok — item necessário para aumentar os limites de seu inventário.

Para ajudar nessa exploração, Link pode usar um parapente adquirido logo no começo de sua aventura. Este é indispensável tanto para evitar que você se machuque ao pular de grandes alturas quanto para que o jogador chegue a locais que, em um primeiro momento, pareciam inalcançáveis.

A decisão de onde ir ou o que fazer cabe inteiramente a você como jogador. Claro, existem indicadores da localização das missões principais, mas não há nada que impeça você de simplesmente passar algumas horas na floresta caçando alces com bombas simplesmente porque julgou que isso é algo divertido.

O melhor combate da série

Breath of the Wild deixa de lado algumas das táticas mais mirabolantes de jogos anteriores e os ataques especiais vistos em Twilight Princess e Skyward Sword. No entanto, mesmo apelando para mecânicas básicas mais simples, ele ainda consegue entregar um dos sistemas de combate mais desafiantes e gratificantes de toda a série.

Muito disso se deve ao fato de que o game não faz nenhuma cerimônia em jogar em seu caminho inimigos que são realmente desafiantes. Não há mais aquela história de “cada um atacando em sua vez”: grupos de monstros partem de uma só vez para cima de Link, e a vida do Hylian vai embora em questão de segundos caso você não tenha cuidado.

Para conseguir vencer esses desafios, é preciso saber combinar a preparação certa (os alimentos e elixires, por exemplo) com as habilidades de combate do personagem. Link é um guerreiro com ótimos reflexos e que consegue desacelerar o tempo momentaneamente caso desvie de um ataque no momento exato — oportunidade perfeita para você revidar e fazer sequências de golpes devastadoras.

A sobrevivência também tem a ver com saber aproveitar elementos do cenário: um barril de combustível é um alvo perfeito para uma flecha de fogo, por exemplo. E, caso você não tenha um item do tipo, sempre pode usar um bumerangue ou uma flecha convencional para cortar a corda de uma lâmpada. Em resumo, invariavelmente há alguma forma de superar uma eventual deficiência em seus equipamentos ou na sua quantidade de corações.

Uma nova estrutura de quebra-cabeças

Enquanto não está lutando (ou explodindo alces), você vai passar um bom tempo resolvendo quebra-cabeças com temas e durações variadas — afinal, um Zelda não poderia ser considerado pertencente à série sem isso. No entanto, não há mais a estrutura de labirintos tradicionais, que aqui foram trocados por mais de 100 santuários espalhados ao redor do mundo.

Cada um desses locais apresenta desafios baseados no uso puro da física, na manipulação de elementos do cenário ou em provas de combate, entre outros temas. Normalmente curtos, esses desafios são bastante divertidos — e muitas vezes terrivelmente difíceis —, chegando até mesmo a aproveitar os controles de movimento do Wii U e do Switch de maneira inteligente.

As dungeons tradicionais não chegam a ser completamente abandonadas, mas elas surgem de formas mais limitadas e especiais. Embora não sejam tão complexas quanto no passado, essas localizações reservam alguns dos momentos mais legais de toda a aventura e merecem ser conferidas por todos os jogadores.

História bem narrada

Falando em momentos legais, a história está recheada deles — assim como os desafios, a maioria dos trechos de narrativa é completamente opcional. Sem entrar em spoilers, a Nintendo acertou ao apostar em cenas narradas e com atuações de voz para contar a trama de Breath of the Wild.

A Nintendo acertou ao apostar em cenas narradas e com atuações de voz

Essa decisão ajudou a criar figuras com personalidades mais bem-definidas e que fogem dos clichês bidimensionais vistos no passado. É difícil explicar o porquê dessa escolha ter dado tão certo sem estragar alguma surpresa, então, em respeito aos nossos leitores, vou me limitar a afirmar que ela dá pano para manga de sobra para quem curte estudar a cronologia oficial da série.

Problemas e qualidades técnicas

Para não dizer que Breath of the Wild é um jogo sem falhas, devo apontar que ele nem sempre consegue atingir seu objetivo de rodar a 30 quadros por segundo. Essas quedas de desempenho afetam tanto a versão Wii U (que serviu como base para nossa análise) quanto o lançamento para o Switch, sendo especialmente notadas em ambientes bastante povoados por NPCs — como cidades.

Felizmente, esse não é um problema que chega a prejudicar os combates ou a exploração, podendo ser ignorado com facilidade. Claro, o ideal seria que o jogo não apresentasse uma questão do tipo em momento algum, mas esse é um “sacrifício menor” mediante a experiência que ele oferece como um todo.

Embora tecnicamente o game apresente essas falhas, é difícil ter do que reclamar do ponto de vista artístico. O novo Zelda não é o jogo com mais polígonos, partículas ou filtros do mercado, mas compensa tudo isso com uma direção de arte que lembra muito as melhores animações do estúdio Ghibli.

Caso você possa decidir entre as duas versões, o Switch ganha vantagem por trabalhar com uma resolução nativa maior, que deixa mais evidente as texturas e modelos criados pela Nintendo. No entanto, quem ainda tem o Wii U e não quer (ou não pode) comprar o novo video game não deve se considerar “perdedor” nessa comparação, visto que a versão para este console também é muito atraente.

O melhor Zelda do século (até agora)

Ao ser incumbido da tarefa de analisar o novo Zelda, confesso que fiquei com um tanto de receio. Isso porque essa é uma daquelas séries que carregam um passado tão forte que é relativamente “fácil” chegar em um novo capítulo já propenso a dar uma boa pontuação. Até para assegurar que isso não fosse acontecer, conversei com outros redatores que também estão jogando a aventura para comparar experiências e discutir certos pontos antes de chegar a um veredito.

Breath of the Wild é aquele tipo de jogo que não surge todo dia

Breath of the Wild é aquele tipo de jogo que não surge todo dia. A Nintendo acertou em cheio ao deixar de lado velhas convenções e entregar uma experiência que acaba de vez com qualquer sensação de “mais do mesmo” vista em alguns capítulos mais recentes.

Realmente desafiante e recompensadora, esta é o tipo de experiência que vai fazer você continuar jogando mesmo após já ter vencido os desafios principais. Em muitos momentos me vi vagando sem direção só para apreciar os pequenos detalhes do game, que vão desde a existência de uma animação para Wolf Link (personagem ativado por amiibo) se alimentando até o fato de que suas flechas entram em combustão sozinhas em Death Mountain.

Em resumo, o novo título da série não somente corresponde ao hype como consegue superar completamente qualquer expectativa. É um tanto difícil explicar o porquê de ter gostado de tantos elementos, visto que falar sobre certas descobertas ou reviravoltas seria entrar no campo dos spoilers — um grande crime, visto que a experiência de Breath of the Wild é muito calcada na descoberta por conta própria de cada um de seus elementos e mecânicas.

Provando novamente o talento da Nintendo para criar experiências marcantes, o novo Zelda é mais do que digno da nota máxima concedida pela equipe do TecMundo Games. Seja você um dono do Wii U ou do Switch, vale a pena aproveitar o título e descobrir nele uma das experiências mais recompensadoras já criadas por essa indústria.

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Por Vinícius Munhoz: Uma obra-prima que transcenderá gerações

O que a Nintendo e Studio Ghibli têm em comum? Alguns dirão que ambas apostam em temáticas e estilos artisticos diferenciados que as destacam. Para mim, elas apresentam magia. Sabe, Zelda tem cheiro de nostalgia. É cheiro de bolo de chocolate quente saído do forno da minha vó depois de um longo dia de escola e de poder aproveitar um fim de tarde no qual o meu Nintendo 64 me esperava para trazer aventuras na Hyrule de Ocarina of Time.

E assim eu cresci e amadureci, da mesma maneira que o meu gosto por jogos foi refinado e abrangido. No entanto, a franquia de Link esteve sempre ali, como um porto seguro que resguardava todo o meu carinho e saudade da infância. Em alguns casos, como em Twilight Princess, essa "brincadeira" ficou um pouco mais séria, mas nunca perdeu esse tom.

Isso sempre foi incrível e não há como tirar méritos. Mas eu ainda ansiava por uma experiência de Zelda que evoluísse comigo e trouxesse o que eu queria hoje. Pense em Toy Story 3 e você entenderá o tipo de clima que quero dizer: aquele voltado para as crianças que cresceram com aquilo e já são adultas.

Ocarina, meu amigo, você aguentou bastante, mas está na hora de tirar a coroa

The Legend of Zelda: Breath of the Wild é isso. É isso e muito mais. Quantas vezes você presenciou algo marcante e que mudou o rumo de sua vida? Ocarina of Time é considerado por muitos o melhor jogo de todos os tempos e um divisor de águas na indústria, mas eu era novo demais para me lembrar do impacto. Alguns outros games tentaram isso, mas particularmente, não sei bem se destronaram o campeão.

De verdade: prestem atenção porque situações como essa acontecem uma vez a cada década, talvez mais. E Breath of The Wild tirou a coroa de Ocarina com folga. Viva bem em seu legado, meu amigo de longa data, pois um novo jogo finalmente veio para tirar esse fardo de você. Mas fique tranquilo: ele está em boas mãos.

A experiência que mais me tirou o fôlego em décadas

Desde o momento em que Link acorda e observa o descampado de Hyrule, Breath of the Wild é uma experiência de tirar o fôlego. Da exploração encorajada em todo o vasto e riquíssimo mundo (que tem duas vezes o tamanho de Skyrim) até as batalhas contra chefes mais épicas da última década (desculpe Shadow of the Colossus e Dark Souls: temos um concorrente à altura), tudo foi incrivelmente marcante e embasbacante. Juro: o simples passear pelo mapa é de emocionar.

O conteúdo é tão vasto e variado que chega a assustar. Não consigo imaginar o trabalho que deu para fazer esse jogo

Há mais de 100 shrines, uma nova forma de dungeon do jogo, que é muito mais simples e menor (relaxem, as grandonas ainda existem), um cenário lotadíssimo de coisas para fazer e sempre um segredo esperando em cada cantinho do mapa. Vagar por aí é uma experiência impressionante e diferente dos RPGs convencionais.

Você é livre para ir onde quiser desde o começo. Com 15 horas de jogo vi um Zora, mas tenho amigos que foram para o outro lado do mapa e viram outras raças, sem nem passar perto do reino aquático. E acredite: trata-se de um jogo extenso. Mesmo as quests que você já acha que resolveu, como achar a fonte das fadas, ainda guardam segredos e reservam interações.

A geografia de Hyrule é incrível e é um puzzle por si só. Você consegue chegar a qualquer lugar que olhar, mas, dependendo do quanto você já aprimorou a sua stamina, terá que abordar a escalada de outra perspectiva. Alguns lugares abrigam inimigos muito fortes, mas você pode subir em uma montanha e descer de paraglider até o local, evitando o confronto. É tudo uma questão de escolha e estratégia. Mas pode ter certeza: fazer um esforço para chegar em qualquer local é sempre recompesador.

Os shrines são bem gostosos de jogar também, sempre bastante diferentes um dos outros. A parte mais legal é que todos eles são possíveis de passar desde o começo. Diferente dos Zeldas anteriores, você não depende do equipamento X ou Y para progredir. Alguns são fáceis, outros são difíceis e, na maioria das vezes, todos são originais e muito divertidos.

Você consegue fazer o que quiser desde o começo: a escolha é sua

Contudo, a grande cereja do bolo para mim foi caminhar sem rumo e ver o que Hyrule me oferecia. E há muita coisa, como acampamentos de inimigos, NPCs que vagam por aí e oferecem sidequests, equipamentos escondidos, itens preciosos e até mesmo algumas vistas de tirar o fôlego. Explorar um mapa não era tão satisfatório há muitos anos para mim.

Breath of the Wild jamais poda as asas da imaginação

The Legend of Zelda: Breath of the Wild é sobre muitas coisas. Explorar, se emocionar, caçar, combater inimigos, buscar segredos e muitas outras já mencionadas no texto. Mas é mais fácil dissertar sobre o que o game não é: podar as asas da sua imaginação. Parece poesia barata, mas é sério. O jogo não quer limitar o seu pensamento fora da caixa nunca. Essa é uma experiência de vó.

Jogo de vó? Como assim? Você já vivenciou uma situação em que está jogando e a sua vó (ou mãe, tio mais velho ou qualquer outro parente) parou para observar e deu uns pitacos meio impossíveis? Do tipo: "Você tem que ir para lá? E por que não pula essa parede grande? Ah, mas escala! Não dá pra escalar? Pô, empilha esse monte de caixas, corta umas árvores, junta tudo e pula para o outro lado". Certamente sua resposta foi: "Mas não dá, eu tenho que passar por aqui e por ali e abrir aquele portão. Não dá para arrombar o portão também, tem que achar a chave".

Uma experiência riquíssima para novatos e veteranos

É um discurso que todos nós ouvimos alguma vez e já até pensamos assim na época em que éramos criança, quando tínhamos uma mente mais livre de amarras. Mas, em Breath of the Wild, isso é possível. Sabe, depois de tanta coisa incrível que eu pensei "não vai dar certo", mas deu, é realmente assustador quanto os games nos limitam e nos guiam. Porém, é assim mesmo: apesar de termos um leque de possibilidades, somos quase sempre guiados ou desencorajados a tentar de uma outra maneira em jogos convencionais, pois eles sempre oferecem algumas opções principais e mais fáceis.

Por conta disso, vou relatar algumas experiências simples, mas incrivelmente caprichadas e delicadamente construídas. Para enfrentar o frio sem as roupas certas, você pode criar uma receita de comida ou simplesmente acender uma tocha e se esquentar dessa forma; tá difícil domar o cavalo? Que tal segurar uma maçã para ele comer e pegar confiança em você? O inimigo está defendendo com equipamentos de madeira? Use sua espada de fogo para queimá-los com ataques; se estiver chovendo, você escorrega quando escala as paredes, mas também é mais rápido esquiar com o escudo nas montanhas.

Esse Zelda é sobre muitas coisas, mas tem uma sobre o que ela não é: limitar a sua imaginação 

Tudo funciona e há detalhes onde você menos espera. Até mesmo os puzzles têm suas surpresas. A Nintendo incentiva o jogador a pensar e liberar aquela imaginação fértil de criança que todos temos, sem se preocupar em cortar parte da criatividade e solução que você pense para os obstáculos que transpõem seu caminho. Esqueça as paredes invisíveis e paradigmas comuns.

Minimalista: a experiência audiovisual mais tocante de uma geração

Se eu precisasse escolher uma palavra para definir toda a minha experiência com Zelda, seria "minimalismo". A capacidade de fazer mais com menos. Isso se reflete em diversas partes do jogo, como a narrativa, que é a mesma de Zelda 1 na essência (salve a princesa e o reino), com os comandos (o arco e flecha usa só um gatilho, não precisa de dois) ou na própria paisagem e estética do game.

Não há como pensar em outra coisa. The Legend of Zelda: Breath of the Wild parece um filme do Studio Ghibli que ganhou vida. A grama reage aos movimentos de Link, o mundo interage com a vegetação (é maravilhoso ver um vendaval trazendo folhas e empurrando o mato de um descampado) e a natureza é perfeitamente encaixada nesse mundão lindo de se ver.

São de tirar o fôlego algumas paisagens que mais parecem quadros vivos

É difícil não associar algumas paisagens e momentos com filmes como "Princesa Monoke". As montanhas recheadas de árvores, frutas e vida animal relembram muito a estética do longa, que dá aquela sensação da relação espiritual com a natureza. Breath of the Wild tem a premissa de ligar o jogador com esse mundo. A estética oriental prevalece em alguns momentos também, associando ainda mais à direção de Hayao Miyazaki.

Isso é algo difícil de descrever, de verdade, porque é bem pessoal. Mas é tocante, é elegante, é impressionante. A sensação agradável de andar por um descampado de grama verde à luz do Sol com borboletas amarelas pairando no local ou a de ver um pôr do sol cheio de vagalumes em uma das mais emblemáticas vilas do jogo é indescritível.

E parece que o jogo sabe a hora perfeita de colocar as suas notas de piano lindamente compostas. Quando você chega em uma paisagem incrível que dá vontade de tirar uma screenshot, a trilha sonora soberba começa a dar sinal de vida, marcando mais uma vez a experiência. Contudo, a linha continua: minimalista, com poucas notas e nas horas certas. Existe muita competência técnica e artística, não há dúvidas. O jogo sofre com alguns pequenos engasgos (no Switch isso é mais raro), mas é impressionante quão lindo ele pode ser.

Zelda BotW é 100? Não, é 120

Confesso: Breath of the Wild me ofereceu algo em jogos que eu não sentia desde a infância. É a obra que amadureceu e me ofereceu a experiência que eu ansiava há muito tempo. É a mistura que deu certo, que conecta os pontos de Dark Souls, Shadow of the Colossus, The Witcher 3, Metal Gear Solid V (usar a Sheikah Slate como binóculos lembra bastante), outros RPGs e a própria franquia Zelda com perfeição e toque de mestre. Fico indagando como vou encarar os próximos games depois de zerá-lo.

Basicamente, é como Miyamoto disse sobre Zelda 1: é um jogo que serve para conectar as pessoas. Cada um de nós terá experiências diferentes e vai descobrir coisas em ordens distintas. É um título que une jogadores para revelar segredos e dicas. Breath of the Wild não subestima o usuário nem o pega pela mão para ensinar cada mecânica, e isso é incrível.

Nas dezenas e dezenas de horas que passei com o game, gastei um bom tempo conversando com o Felipe Gugelmin, pegando dicas e repassando outras. Depois de tanto papo é que eu descobri o tamanho desse jogo e quão extenso, vasto e variado ele pode ser para cada um. Há muito o que fazer e, principalmente, muitas formas de "como fazer".

Para mim, The Legend of Zelda: Breath of the Wild é a melhor obra-prima da Nintendo, é um jogo que vai perdurar por gerações e impactar os jovens adultos de hoje e as crianças de amanhã. Um fenômeno e um momento de luz que vai brilhar forte durante décadas. Ele é 120 de 100, porque é tão lindamente construído e atencioso aos detalhes que tem até respaldo para pecar em outros pontos (coisa que também não faz). Esse é o título que eu aguardei muitos anos e que vai me marcar para sempre.

100 Switch
Supremo
"Estabelecendo novos caminhos para a série, Breath of the Wild é uma verdadeira obra-prima da Nintendo"

Pontos Positivos

  • Liberdade absurda
  • Grande variedade de armas, armamentos e receitas
  • Todo canto do cenário guarda algum segredo interessante
  • O jogo está simplesmente lindo
  • Um combate profundo e desafiante
  • História que quebra convenções e expectativas

Pontos Negativos

  • Alguns pequenos slowdowns em ambas as versões

Outras Plataformas

100 wiiu