Lançado originalmente para GameCube e Wii, The Legend of Zelda: Twilight Princess sempre me pareceu mais uma resposta às críticas feitas a  The Wind Waker do que uma tentativa de evoluir a série. Embora atualmente o game estrelado por um Link mais cartunesco seja elogiado, na época em que ele chegou às lojas as críticas relacionadas à “infantilização” da série foram tantas que a Nintendo decidiu seguir um caminho mais “adulto” na sequência.

Como resultado dessa decisão, Twilight Princess ficou marcado como um dos lançamentos mais sombrios de toda a franquia. Apesar de ter suas qualidades, o momento em que ele chegou às lojas (e sua disponibilidade imediata para duas plataformas de gerações diferentes) fez com que ele ficasse um tanto esquecido até mesmo pelos fãs da série.

Graças ao Wii U, em 2016 o game ganha uma chance de conquistar um novo público com a ajuda de um tratamento que deu a ele texturas em alta resolução e algumas pequenas mudanças em sua estrutura. Dez anos após seu lançamento original, o game conserva muitas de suas qualidades, mas deixa claro que algumas de suas estruturas — já problemáticas em 2006 — não envelheceram tão bem quanto o esperado.

Clima de melancolia

Twilight Princess apresenta temas que datam do primeiro game da série Zelda, mas os apresenta de uma maneira um pouco mais sombria do que o convencional. Nesta história, você assume o papel de Link, um jovem da vila de Ordon que passa seu tempo brincando com as crianças locais e ajudando a cuidar do gado.

Encarregado de enviar um item precioso à família real de Hyrule, o personagem vê sua missão frustrada graças à ação de orcs e criaturas sombrias que destroem a tranquilidade de sua cidade natal. Não bastasse a perda de seu cavalo e o rapto de seus amigos, o jogador ainda se confronta com a transformação do herói em um lobo preso em uma espécie de universo paralelo conhecido como “Twilight”.

Essa introdução é apresenta de forma um tanto lenta — se, por um lado, isso ajuda a inserir o jogador na ambientação que lhe é apresentada, o excesso de conversas e cenas de transição pode afastar quem procura uma estrutura mais dinâmica. Felizmente, assim que você encontra a estranha criatura conhecida como Midna e descobre o responsável pelo estado atual do mundo, o game parece que “engata a marcha” e começa a balancear melhor a exposição de história com os momentos em que você está livre para explorar os cenários.

A trama em geral não chega a ser original, usando o conhecido confronto entre luz e trevas como sua base — algo que já havia sido visto em títulos como Ocarina of Time, A Link to The Past e outros. O que difere Twilight Princess nesse sentido é a grande quantidade de cenas épicas e de missões em que Link realmente assume o papel de “herói escolhido”, algo que ajuda o jogador a ter uma noção mais exata do peso de suas ações.

Apesar de o tom ser sério, o jogo tem diversos momentos em que o bom humor encontra brechas para se expressar. Exemplos disso podem ser encontrados nos diálogos ácidos de Midna, na disputa de sumô que Link tem que travar contra os Gorons e em Oocoo, uma das criaturas mais perturbadoras a já dar as caras na franquia.

Infelizmente, a estética apresentada envelheceu um pouco mal, especialmente devido ao uso excessivo de cores aguadas e de detalhes nas cores cinza e marrom — algo comum aos jogos do início dos anos 2000 que queriam parecer “adultos”. Em contrapartida, o design das roupas dos personagens e das criaturas permanece bom até hoje, com destaque especial para os chefes gigantescos e ameaçadores que costumam tomar toda a extensão da tela.

Venha pelo combate, fique pelos quebra-cabeças

É difícil falar de Twilight Princess — ou qualquer outro Zelda tridimensional — sem fazer referências a Ocarina of Time. Isso porque o título lançado originalmente para o Nintendo 64 estabeleceu as raízes da jogabilidade da série em um mundo tridimensional, e muito pouco foi feito pela Nintendo desde então para evoluir os conceitos apresentados.

Nesse sentido, o título para Wii U pode ser considerado como um dos mais conservadores. Apesar de introduzir alguns itens novos, a estrutura do jogo e de seu combate são essencialmente as mesmas vistas em seus antecessores — com a diferença de que as batalhas em geral são muito mais fáceis.

Apesar de ser um dos capítulos da série com maior variedade de movimentos e possibilidades táticas, Twilight Princess pode ser vencido facilmente simplesmente apertando repetidamente o botão de ataque. A exceção a essa regra são os inimigos que exigem o uso de um item específico para serem desarmados, mas nem mesmo isso consegue tornar o jogo desafiador.

Essa facilidade pode ser explicada pelas concessões que a Nintendo teve que fazer ao desenvolver o título para o Wii, cujo controle inicial não era exatamente preciso. Apesar de a versão para Wii U dispensar os controles por motivo, a influência deles fica bastante clara — especialmente na falta de peso dos movimentos de ataque do protagonista.

A mesma falta de profundidade afeta os momentos em que é preciso batalhar como um lobo, quando os movimentos do herói se tornam ainda mais limitados. A experiência em si não chega a ser exatamente ruim, mas é difícil não ficar com a impressão de que alguns elementos poderiam (e deveriam) ser mais bem explorados.

Raciocine para progredir

Compensando a deficiência dos combates, a exploração e a resolução de quebra-cabeças mantém a excelência pela qual a série é conhecida. O design dos labirintos é bastante inventivo e muitos deles exigem que você pense de forma diferenciada para conseguir progredir.

Apesar de o jogo sempre oferecer todos os elementos de que você precisa para avançar, ele não torna óbvia a solução. Com isso, você pode passar horas preso em um desafio somente para descobrir que tudo o que você precisava estava logo à sua frente e a linha de raciocínio correta simplesmente não havia sido cogitada — o que proporciona uma ótima sensação de satisfação quando o jogador finalmente descobre o que é preciso fazer.

A Nintendo soube incorporar muito bem a transformação em lobo, dando à forma lupina de Link algumas habilidades bastante interessantes. A transformação permite “visualizar” cheiros e seguir seus rastros, conversar com os espíritos dos habitantes de Hyrule, cavar o chão em busca de itens e pular para lugares normalmente inacessíveis usando a ajuda fornecida por Midna.

A maior crítica que pode ser feita aos quebra-cabeças do jogo é o fato de que o ritmo da evolução dos labirintos é bastante previsível. Após explorar mais ou menos metade de uma área, você sempre vai encontrar um novo item especial que, além de abrir o caminho para o chefe, vai ser essencial para explorar seu ponto-fraco — equipamento este que dificilmente vai encontrar alguma utilidade em um ponto avançado do game.

Mesmo próxima da exaustão, a fórmula ainda funciona bem graças ao talento do time de desenvolvimento. No entanto — até mesmo por estarmos falando de um remake —, é fácil perceber que diversos títulos mais recentes já conseguiram superar muitos elementos da linguagem de design apresentada por Twilight Princess.

Novidades discretas

Além de gráficos que abusam das texturas em alta resolução, a versão para Wii U traz algumas novidades discretas para o jogo clássico. Entre elas está a diminuição da quantidade de “Tears of Light” que é preciso pegar para liberar uma área dos efeitos do Twilight — algo bem-vindo, mas que não muda o fato de que esse processo continua um tanto burocrático.

O amiibo da versão lupina de Link

O remake acompanha um novo amiibo especial que adiciona um novo labirinto chamado “Cave of Shadows” à aventura. Infelizmente, ele parece ser somente uma versão ligeira modificada da “Cave of Ordeals”, exigindo que você use a forma lupina de Link para derrotar diversas ondas de inimigos — quase um modo Survival com um nome diferente.

Os desafios extras não são muito inventivos, e o fato de que é preciso repetir os mesmos desafios várias vezes antes de ganhar uma recompensa não é muito atrativo (uma carteira com maior capacidade) faz dessa adição algo dispensável. Por fim, você também pode usar outros amiibos da série para recuperar flechas e energia ou aumentar a quantidade de dano recebida.

Vale a pena?

Mais do que adaptar um game relativamente antigo aos padrões das TVs atuais, Twilight Princess HD dá a um dos jogos mais interessantes da franquia a oportunidade de ser julgado sob um novo contexto. O resultado é uma experiência que mantém os padrões de qualidade estabelecidos pela série da Nintendo, mas que aposta em elementos seguros demais para conseguir se destacar.

Midna e Link

Dito isso, até mesmo um Zelda simplesmente “ok” continua podendo ser considerado uma experiência bastante divertida. Caso você consiga passar pela introdução relativamente lenta, vai ter à disposição uma aventura que dura entre 35 a 40 horas repleta de elementos interessantes, especialmente no que diz respeito a seus quebra-cabeças e a seus personagens secundários.

Twilight Princess HD é uma boa oportunidade de perceber como, mesmo envelhecida, a fórmula estabelecida em Ocarina of Time ainda funciona bem em um jogo de aventura e ação. Apesar de não ser tão marcante quanto seu antecessor, o título definitivamente sabe recompensar o investimento de tempo exigido — em outras palavras, ele é uma bela adição à biblioteca de quem sente falta de lançamentos de peso para o Wii U.

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