Mais RPG... Menos The Sims

Videoanálise

Eis uma proposta: tente imaginar por um momento qual poderia ser o elemento central da série The Sims. Qual seria o cerne da jogabilidade inaugurada pela Electronic Arts há dez anos, capaz não apenas de angariar o título de “Jogo do Ano” como também de bater todos os recordes de vendas para PC. Em uma palavra? Cotidiano.

A grande sacada da EA para o primeiro The Sims foi, na verdade, algo tremendamente simples: as pequenas contingências do dia-a-dia poderiam ser tão dignas de interesse quanto uma invasão alienígena ou uma conspiração governamental. Quer dizer, derrotar um chefão com dezenas de tentáculos pode ser uma experiência memorável... Mas batalhar para pagar as contas enquanto tenta arrumar um emprego melhor e mobiliar a casa também pode ser uma grande aventura!

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Em outras palavras, The Sims mostrou que dilemas vitais são capazes de formar vínculos empáticos sem precedentes com uma enorme parcela de jogadores — particularmente, aquela parte que nem sempre tem uma espaçonave intergaláctica ou um arsenal bélico à disposição no quintal de casa.

Dessa forma, quando algo como The Sims Medieval dá as caras, é impossível não lançar algumas perguntas retóricas. Será essa a verdadeira essência da série? Ou será uma espécie de rendição aos argumentos extraordinários que compunham a quase totalidade dos jogos pré -The Sims?

Ok, talvez seja o momento para uma pequena introdução. The Sims Medieval representa um novo direcionamento para uma franquia que anda estagnada há algum tempo. Desde que o primeiro The Sims surgiu como divisor de águas, a Electronic Arts tem embarcado em uma sucessão contínua de expansões e reinvenções — algumas dignas de nota... Outras nem tanto assim.

Assim, alguém, em algum momento, deve ter jogado a seguinte proposta: “e se nós fizéssemos uma versão medieval embalada por diversas aventuras?”. De fato, mesmo sem representar estritamente uma novidade — já que Volta ao Mundo e a série Histórias já haviam feito algo bastante semelhante —, Medieval realmente traz um conceito distinto, mudando o foco daquele seu banheiro bem decorado para aventuras épicas movidas pela mais pura sede de aventura.

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Mas a questão é: isso realmente combina com a série? Caso você não seja fanático pelos pequenos ratos de laboratórios da EA, vale mesmo a pena encarar um RPG mediano que tenta salvar o mundo entre uma refeição e outra?

Isso provavelmente depende do que The Sims representa para você. A série só tem a ganhar com novas propostas, mesmo em detrimento da antiga rotina? Ou, por outro lado, personalização e a velha batalha diária envolvendo finanças e relacionamentos amorosos rotos deveriam se manter no foco da experiência? A escolha talvez não seja tão simples quanto aparenta. Talvez alguns detalhes ajudem a formar um julgamento mais consistente.

The Sims Medieval é um jogo que pode facilmente dividir opiniões. Por um lado, é fácil perceber que a empreitada medieval da EA representa uma guinada capaz de insuflar novos ares na série — que, de fato, jamais apareceu com uma ligação tão pronunciada com o estilo típico dos RPGs. Para quem quer novidades, portanto, há heróis, bom humor, novas mobílias e todo um reino a ser desenvolvido.

Entretanto, tratando-se da experiência típica de The Sims, é impossível não considerar a fusão “cotidiano + aventuras épicas” como algo não propriamente genuíno. Afinal, para incorporar elementos de aventura na série, a Electronic Arts acabou podando diversas mecânicas relacionadas à experiência central da série.

A questão, portanto, poderia ser: é melhor dominar o mundo... Ou cozinhar uma boa comida enquanto espera convidados para uma festa caseira?

Uma guinada na forma tradicional de The Sims

Mesmo o fã mais purista poderia admitir: The Sims anda se repetindo há um bom tempo. Quer dizer, desde que foram lançados o primeiro e o segundo títulos — e algumas expansões que, de fato, acrescentavam algo —, o que existe é uma insistência da Electronic Arts em tentar extrair da fórmula sempre algo mais... Prática que nem sempre produz resultados realmente inovadores.

Mas The Sims Medieval é realmente inovador, tanto na forma quanto no conteúdo. Basicamente, o que há aqui é uma fusão entre a fórmula tradicional de The Sims e diversos elementos típicos de RPGs, cujo resultado traz personagens que salvam o mundo... Mas também vão ao mercado comprar suprimentos para o almoço.

Entretanto, em vez da proposta “siga o seu próprio nariz”, em Medieval a sua história de vida ganhará um sentido na forma de diversas missões — todas ligadas à natureza do seu personagem. O objetivo maior, entretanto, é apenas um: conduzir um típico reino medieval (feudal) às glórias de gerações futuras.

Heróis e ambições

Img_normalUm das principais quebras de padrão de Medieval vem justamente da sua estrutura em missões. Embora algum freeplay ainda seja possível, a história apenas avança — juntamente com todo o reino — quando certas missões são completadas.

É aqui que entram os novos personagens de Medieval. Na verdade, os heróis do jogo. Quer dizer, é natural que missões tão diferentes quanto explorar uma floresta e desvendar livros de magia ancestrais devam contar com protagonistas essencialmente distintos, certo? Dessa forma, há aqui magos, artesãos, ferreiros, médicos, cavaleiros, espiões etc.

A única missão disponível no início de Medieval é também a mais ambiciosa e relevante: no papel de um pretenso rei, você deverá lançar as bases para o que se tornará (se tudo sair nos conformes) um reino próspero.

Entretanto, o destino que todo o reino tomará dependerá estritamente das ambições pessoais do seu soberano. Nada subjetivo aqui, entretanto — afinal, trata-se de The Sims. Ambições pessoais são metas objetivas que vão de construir um reino até expandir o seu território em todas as direções.

Para satisfazer ambições gerais dos seus Sims, entretanto, será necessário completar uma série de pequenos objetivos. Cada uma dessas missões pode ser escolhida em um menu inicial, assim como a forma da sua abordagem e o herói que será envolvido — lembrando que, inicialmente, o rei será mesmo a sua única opção.

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Embora aceitar uma nova missão seja tão simples quanto clicar sobre um ícone, as coisas se tornam progressivamente mais complexas conforme o jogo avança. Lá pelas tantas, você perceberá que é realmente fácil falhar em uma das missões mais elaboradas — considerando-se ainda que cada nova tarefa escolhida consome “pontos de missão”, é fácil perceber como os desafios tardios de Medieval são capazes de acrescentar um tempero extra ao conjunto.

Criar um Sim ainda pode ser bem divertido

Criar um herói em Medieval representa uma tarefa rigorosamente idêntica à de criar um personagem em qualquer um dos títulos, digamos, tradicionais da série. Você terá inicialmente um conceito básico, que poderá ser modificado em cada uma das suas características: tom de pele, nariz, sobrancelhas, compleição e idade.

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A grande diferença, naturalmente, aparece nas indumentárias e, de forma geral, nos estilos disponíveis. Quer dizer, ninguém espera encontrar um Sim medieval trajando camisa xadrez e calça jeans. Há, por outro lado, uma quantia considerável de mantos, túnicas e outras vestimentas típicas do período. Os resultados são tão variados e potencialmente engraçados quanto sempre foram.

Traços de personalidade e defeitos

Eis algo que torna as coisas muito mais divertidas em Medieval. Embora traços de personalidade e defeitos não sejam propriamente novidades, algumas adições de fato combinam perfeitamente com o clima medieval do jogo.

Dessa forma, é possível construir Sims “cavalheiros”, “eloquentes”, “aventureiros” e “afeitos à vida ao ar livre”... Que também podem ser “beberrões”, “jogadores compulsivos”, “covardes”, “idiotas”, “amaldiçoados” e “inseguros”.

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Mas algumas adições são realmente curiosas, como “Uma Baleia Devorou meus Pais”. A descrição é a seguinte:

“Baleias carnívoras devoradoras de Sims representavam uma ameaça constante nos tempos medievais. De fato, a lenda afirma que o oceano foi formado por lágrimas de crianças órfãs cujos pais foram devorados por essas ameaças.”

Em termos práticos, escolher o traço de personalidade “Uma Baleia Devorou meus Pais” exigirá que o seu personagem “grite para o mar” ou parta em expedições de caça a baleias regularmente. Considerando-se especificamente a jogabilidade, entretanto, os traços e defeitos mais relevantes são aqueles que alteram questões como fome e sono — “glutão” e “insone”, por exemplo.

O bom humor continua

Bom humor sempre foi uma das principais características de The Sims. Bem, nesse quesito, Medieval é certamente um integrante dos mais legítimos da série. Mesmo flertando com a seriedade épica dos RPGs, cada nova missão traz sempre um ar caricato, um elemento distinto e exagerado que ajuda a definir a série desde o seu início.

Dessa forma, o seu rei pode ser intimado a fazer algo em relação a um sujeito que xinga passantes copiosamente em “simlish”; um mago maligno pode se divertir ao contemplar a humilhação alheia em um pelourinho — onde um pobre sujeito desafortunado é alvo de ovos e tomates; um médico tratará seu paciente arremessando sanguessugas sobre este... E por aí vai. Enfim, é o humor Sim em sua melhor forma.

Um retrato da Idade Média

The Sims Medieval faz um trabalho exemplar ao recriar o clima característico dos reinos feudais da Idade Média. Desde os adereços da sala do trono até as texturas que compõem a torre dos magos, há aqui um trabalho gráfico que não poupa detalhes. Quer dizer, comparando-se com a relativa falta de apuro visual de The Sims 3 — que fez muito fã dedicado torcer o nariz —, existe aqui (novamente) um bom motivo para se admirar a paisagem.

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Salvando o mundo entre uma ida ao banheiro e outra

The Sims Medieval parece se enquadrar, ao menos em parte, naquele velho padrão do “assobiar e chupar manga ao mesmo tempo”. Isso porque, enquanto se esforça para desvelar as lendas em torno de uma relíquia sagrada, você também deverá atentar para as necessidades básicas do seu personagem. Até porque, algumas delas, quando não são devidamente atendidas, simplesmente impedem o andamento do jogo.

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Talvez o problema aqui não esteja, portanto, nos elementos isolados que compõem a proposta de Medieval. Parte do problema surge quando o todo é conjurado, o que torna a experiência final não necessariamente divertida para quem não for um fã. Quer dizer, enquanto  a diversão central da série é consideravelmente ofuscada por elementos “RPGísticos”, estes, sozinhos, não conseguem manter por muito tempo o interesse, de forma que, ao final, o que se tem é um mosaico mais indicado para fãs.

Necessidades básicas... Ainda mais básicas!

Juntamente com as demais questões cotidianas, as necessidades básicas dos Sims sempre representaram um dos elementos centrais da série. Isso torna a simplificação implementada em Medieval — que traz apenas “fome” e “energia” — em uma mudança um tanto perigosa. É claro que as demais necessidades ainda são aplicadas, mesmo que de forma velada. Mas é difícil evitar a sensação de “algo faltando”.

E o modo construção?

Img_normalTalvez pouca coisa seja mais digna de críticas quanto à exclusão sumária do modo construção em Medieval — pelo menos nos seus moldes clássicos. Embora ainda seja possível mobiliar o seu castelo ou a sua taverna com belos itens de época, a impossibilidade de erguer as próprias paredes enquanto banca um arquiteto amador acaba podando uma boa parte da experiência central da série.

E isso vale não apenas para as moradias, mas também para todo o reino, que apenas poderá ser expandido dentro de limites geográficos bastante rígidos — consequência do flerte com os RPGs, é claro. Difícil manter um modo de desenvolvimento aberto quando tudo é ditado por tramas centrais, certo?

75 pc
Bom