Quem diria que ser um cachorro de madame seria tão divertido? [vídeo]

Gameplay BJ

Em um canto da cidade, um grupo de lulus da Pomerânia se reúne atrás de um carro abandonado esperando que aquele hipopótamo abaixe a guarda e se torne a presa da semana. Um pouco mais além, alguns chipanzés tentam chegar ao seu ninho na antiga estação de trem, mas precisam passar pelo território das hienas. Os tempos são difíceis para todos os animais.

Não entendeu nada? Então você está começando a entrar no espírito de Tokyo Jungle, um dos títulos mais diferentes e bizarros a chegar aos consoles nos últimos anos. Quando foi que imaginamos que colocar dezenas de espécies em um mundo pós-apocalíptico poderia dar origem a um game?

E embora pareça ser algo totalmente sem sentido, a ideia não só tem lógica como funciona muito bem dentro de sua estranha proposta, resultado em um título incrivelmente coeso, divertido e desafiador. Afinal, como um jogo que transforma Tóquio em uma gigantesca arena de sobrevivência com cães, gatos e dinossauros poderia ser ruim?

Tokyo Jungle é um daqueles jogos que ninguém espera nada e que, no final das contas, consegue surpreender todo mundo devido à sua mecânica complexa e igualmente divertida. Afinal, quem imaginava que controlar um cachorro de madame seria algo tão interessante e desafiador?

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É claro que ele exige que o jogador encare aquela experiência de maneira diferente de como ele se depara com um grande lançamento. Ele tem uma proposta bem diferente daquela que vemos em outros jogos e pode ser facilmente confundido com um título voltado para um público mais infantil. Porém, bastam alguns minutos nas ruas dessa Tóquio pós-apocalíptica para perceber que as coisas são bem mais complexas do que parecem e que sobreviver na pele de um lulu da Pomerânia é algo bem mais difícil do que parece.

No fim das contas, Tokyo Jungle é um game que merece ser conferido, nem que seja para dar risada das estranhas situações que aparecem a cada momento. Mesmo com seus problemas, seu alto índice de diversão prova que boas ideias são capazes de sair até mesmo dos lugares mais improváveis. Basta ter imaginação e um pouco de ousadia.

Muito mais do que uma grande rinha

Quando as primeiras imagens de Tokyo Jungle foram liberadas, a primeira impressão que eu tive era que aquilo seria um estranho jogo japonês envolvendo rinhas, quase como um Super Smash Bros. do reino animal. No entanto, qual foi minha surpresa ao perceber que a jogabilidade é muito mais complexa e profunda do que simplesmente dar porrada em outras criaturas?

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Para entender a surreal proposta do jogo é preciso deixar o preconceito de lado e parar de imaginar que, por se tratar de um título protagonizado por cães e gatos, teremos uma réplica realista de Pokémon. Isso porque o seu foco não está nas batalhas, mas na sobrevivência.

Em Tokyo Jungle, seu objetivo é exatamente fazer com que você e sua prole sobrevivam às gerações em um mundo totalmente devastado e inóspito. Para isso, você deve não apenas ficar longe de predadores como também se alimentar, conquistar territórios e encontrar uma fêmea que dê a luz a filhotes saudáveis que vão seguir este mesmo ciclo com o passar dos anos.

No entanto, fazer isso não é algo tão simples. Como o ser humano desapareceu e os animais tomaram conta das cidades, a lei do mais forte passou a imperar. Com a queda na oferta de alimentos, você precisará ir à caça para ter o que comer — e vai ser essa habilidade que vai deixá-lo mais atraente às melhores parceiras.

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É exatamente isso que chama a atenção no jogo. Por mais absurda que seja a ideia de colocar diferentes espécies para disputar, isso é feito de uma maneira incrivelmente bem estruturada. Procurar comida enquanto tenta definir seu território e melhorar sua posição de macho alfa é algo que demanda não apenas habilidade, mas também algumas estratégias.

De Metal Gear a Assassin’s Creed

Outro grande mérito de Tokyo Jungle é trazer esse ciclo de sobrevivência dentro de uma jogabilidade cuidadosamente trabalhada. Para fazer com que a caçada seja realmente um desafio na vida de todo os bichos, temos algumas mecânicas bem conhecidas dos jogadores sendo adaptadas para o reino animal.

Primeiramente, temos um lado mais tático e de gerenciamento que deve ser levado em consideração sempre que você for passear pelos bairros de Tóquio. Como a cidade é dividida em várias áreas, é preciso estar atento não apenas à quantidade de comida disponível em cada região, como também ao nível de poluição e às espécies de vivem ali. De nada adianta você conquistar um ninho em um local em que seus filhotes morrerão de fome ou em que o ar vai matá-los aos poucos — e tentar uma região mais promissora vai fazer com que a disputa seja mais intensa.

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Além disso, cada animal possui uma jogabilidade específica. Os carnívoros são muito mais focados na caça e devem ir atrás de outros animais para saciar sua fome, enquanto os herbívoros sobrevivem na base do stealth, fazendo uso do cenário e de sua velocidade para escapar dos predadores.

O engraçado é que isso faz com que Tokyo Jungle pegue emprestado alguns elementos de jogos como Metal Gear e Assassin’s Creed para criar um sistema de caça e caçador mais envolvente. Para se aproximar de sua presa, por exemplo, você deve permanecer invisível até o momento ideal do ataque e, caso seja visto, o icônico ponto de exclamação aparece sobre a cabeça do animal em fuga — e uma das melhores formas de se aproximar sem ser identificado é usar uma caixa. Pareceu familiar?

O mesmo acontece quando você é o alvo de algum bicho maior. Um indicador de perigo aparece no canto da tela e você deve se afastar até um ponto seguro e se esconder na grama alta e em montes de feno até que a ameaça vá embora.

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Já a evolução dos animais segue uma linha bem mais próxima do RPGs, com direito a atributos e equipamentos. À medida que você avança, itens deixados pelos humanos — como smokings, chapéus e sapatilhas — aparecem em seu inventário e você pode usá-los como forma de melhorar seus pontos de força e vitalidade. Além disso, seus filhotes também herdam algumas características de seus pais, o que obriga o jogador a investir não apenas em seu bichinho, mas também na fêmea escolhida para que apenas o melhor de cada um seja passado às próximas gerações.

Tudo isso, quando usado em conjunto, faz com que Tokyo Jungle obtenha uma complexidade inacreditável, algo que fica ainda mais evidente quando somos apresentados aos diversos desafios que aparecem com o passar dos anos e que vão exigir muito empenho dos jogadores a cada momento.

Simplicidade que prejudica

Se Tokyo Jungle surpreende por conta de sua jogabilidade envolvente, ele deixa muito a desejar na parte técnica. E não se trata apenas de uma reclamação por ele ser simples e não utilizar todo o potencial gráfico do PlayStation 3, mas pelo fato de essa deficiência realmente prejudicar a jogabilidade.

Por mais que o game ofereça uma lista extensa de animais, a modelagem de muitos deles fica bem abaixo do esperado e confunde o jogador em diversos momentos. Afinal, aquilo ali deitado no canto é um frágil vira-lata ou um chacal que vai matá-lo com um único golpe? Difícil dizer, o que pode colocar toda a sua ninhada em risco com um único apertar de botões.

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Além disso, muitas espécies não têm grandes diferenças significativas em seu visual ou em seus atributos. Afinal, o que pode variar tanto entre uma gazela e um cervo a ponto de ambos estarem disponíveis? Por outro lado, opções mais variadas, como girafas e crocodilos, só são liberados por DLC.

No fim das contas, a impressão que temos é que a produtora se esforçou demais para criar uma jogabilidade que fizesse com que uma ideia insana tivesse sentido e deixou outros elementos igualmente importantes de lado. Por mais que a gente saiba que gráficos não são tudo  em um jogo, é impossível não perceber que a falta de capricho é capaz de atrapalhar, e muito, a diversão.

75 ps3
Bom