Um mergulho histórico

Nippon, 1545. Após um longo período de guerras, o país sofre com uma complicada crise interna. Seu território foi dividido em inúmeras províncias, dominadas pelos senhores feudais, conhecidos como daimyos.

Essa descentralização do poder enfraqueceu a autoridade do atual shogun, líder militar que governava o Japão nessa época. Com isso, diversos clãs espalhados pelo arquipélago iniciaram uma série de conflitos a fim de derrubar o xogunato vigente e colocar sua família no topo da hierarquia nipônica, mesmo que isso significasse derrubar aqueles que tivessem o mesmo objetivo.

É nessa época da história que Total War: Shogun 2 nos faz mergulhar. Seguindo a linha dos demais jogos da série, o game utiliza fatos reais como pano de fundo da narrativa e nos apresenta um interessante e complexo sistema de estratégia para que possamos recriar ou reescrever o que aconteceu há séculos.

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Para isso, a The Creative Assembly colocou vários desses clãs à disposição dos jogadores para que eles mesmos refaçam sua versão da história. Se os Tokugawa foram os verdadeiros vencedores dessas lutas, aqui podemos fazer com que os Uesugi ou os Chokosabe cheguem ao coração do governo, em Kyoto. Tudo depende de suas habilidades como líder para comandar seus exércitos e gerenciar suas províncias.

O grande destaque do título é exatamente a jogabilidade, que combina elementos de RTS com estratégia em turnos. O resultado é uma mecânica que exige muito cuidado na hora de tomar suas decisões, que vão desde a manutenção da ordem pública, da coordenação de ações militares e até mesmo o destino dos herdeiros de seu clã. Se a proposta é torná-lo um xogum, o jogo conseguiu.

Jogos, cultura e educação

Sabe aquele papo de que os games não levam a lugar algum e que nunca ensinam nada? Pois Total War: Shogun 2 é a resposta definitiva de que essa ideia está mais do que equivocada. Por mais que a história nipônica não faça parte do currículo nas escolas brasileiras, é inegável que o título consegue ensinar ao mesmo tempo em que diverte e entretém.

O grande acerto da desenvolvedora é levar o jogador a um período que sempre aguça nossa curiosidade. O Japão feudal é conhecido exatamente por conta das batalhas, de seus samurais e de seus ninjas. Quem nunca ouviu falar em Miyamoto Musashi ou se interessou pelo passado de uma das nações mais influentes do mundo?

Mais do que isso, o game realmente consegue recriar a época a ponto de fazer com que a jogatina se transforme em um mergulho cultural. Desde os primeiros momentos, Shogun 2 traz diversos elementos típicos da arte japonesa e narra várias passagens importantes como se elas fossem somente parte do enredo. Muito melhor do que a didática de muitos professores.

Sem sombra de dúvidas, Total War: Shogun 2 é um título imperdível, mas é nítido que ele é voltado principalmente para quem já é fã do gênero. Não que isso impeça que outros jogadores aproveitem tudo o que o título tem a oferecer, mas o complexo sistema de gerenciamento pode desanimar quem não está familiarizado ao estilo.

No entanto, se você for além dessa barreira, o game é uma intensa e agradável viagem ao Japão feudal. Com um cuidado visual, artístico e cultural de primeira, é impossível não se empolgar no mergulho histórico que fazemos ao Nippon do século XVI.

Mergulho histórico e cultural

Como dito, total War: Shogun 2 se destaca exatamente por transportar o jogador da frente do PC para o Japão feudal. A reconstrução do período é feita de maneira magistral e é impossível se tornar indiferente ao que nos é mostrado. Se você já conhece um pouco sobre o passado daquele país, a viagem se torna ainda mais prazerosa.

A desenvolvedora teve um cuidado muito grande para reviver cada elemento e criar uma ambientação realmente imersiva. A começar pela trilha sonora, que utiliza elementos característicos da cultura nipônica e consegue criar um clima quase que épico aos confrontos entre samurais na apresentação de abertura.

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Os detalhes de época também foram respeitados, seja na construção das armaduras dos guerreiros, nas tradições vistas nos campos de batalha e até mesmo em alguns costumes do cotidiano das províncias. Pode parecer algo relevante dentro do contexto estratégico que o jogo se propõe a oferecer, mas vale a pena ser conferido e apreciado.

O mesmo pode ser dito das questões históricas, que são reproduzidas da maneira mais fiel possível. A comentada crise política do século XVI é um ótimo exemplo, já que somos apresentados a clãs reais que estavam envolvidos na disputa pelo xogunato. Nomes como Tokugawa, Chokosabe e Date fazem parte dos registros do passado e podem ser controlados por você em Shogun 2. Personagens e heróis nacionais também estão presentes, principalmente entre generais e daimyos.

Há até mesmo um modo exclusivo para que os jogadores revivam batalhas importantes, como Kawanakajima e Sekigahara. Embora não seja possível selecionar o exército nestes casos, “presenciar” essas lutas é algo muito divertido.

As missões cristãs também dão as caras nesta edição de Total War. Como estamos na época de maior influência das chamadas “Grandes Navegações” europeias, a expansão territorial e religiosa chega ao Oriente e é exibida de maneira interessante em Shogun 2, como será visto a seguir.

Com tantas informações em um só lugar, fica complicado ter domínio sobre todos os fatos, datas e nomes. Por conta disso, a The Creative Assembly preparou uma enciclopédia com tudo o que pode ser útil para o jogador em sua campanha. Com dados que vão desde elementos do próprio jogo a registros reais, o usuário pode reservar um tempo para se aprofundar em características de seu clã e até mesmo em curiosidades sobre o passado do Japão.

Liberdade estratégica

Um dos principais atrativos de um jogo de estratégia é testar a capacidade administrativa de seu comandante. Pôr à prova noções de economia e desenvolver táticas de guerra são apenas alguns pontos que tornam o gênero ao atraente. E nesses quesitos, Total War: Shogun 2 consegue se destacar.

Sabe aquele plano de aceleração do crescimento que você fez para sua província? Pois bem, ela não era tão funcional assim e as coisas não saíram como você imaginou, fazendo com que suas economias desaparecessem e que seu território abrisse as portas para uma invasão inimiga.

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Isso é apenas uma das possibilidades disponíveis no game, já que há como definir qualquer aspecto na administração de sua província. Todas as decisões têm um tipo de consequência, tanto positivas quanto negativas.

A primeira grande escolha está na hora de selecionar o clã da campanha. Cada família possui características diferentes, assim como um nível de dificuldade distinto. Os Uesugi, por exemplo, são aconselhados para iniciantes. Por serem mais religiosos e com uma relação muito maior com o Budismo do que nos demais feudos, eles são os únicos a conseguirem evoluir seus monges a um nível mais próximo do divino.

O gerenciamento de suas áreas é algo muito mais complexo do que o visto em muitos jogos do gênero. Shogun 2 oferece um complexo sistema de gerenciamento em que existem diversas variáveis envolvidas. Embora alguns desses fatores pareçam desnecessários, saber lidar com problemas de todas as naturezas é uma característica fundamental para quem almeja ser o próximo xogum.

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Entre as várias questões que o jogador terá de decidir ao longo da campanha, a que mais gera dor de cabeça é a que envolve a quantidade de tributos que os moradores de suas províncias terão de pagar ao daimyo. Ao mesmo tempo em que uma taxação elevada faz com que sua economia prospere, isso faz com que o nível de descontentamento da população aumente. Cabe a você decidir se diminui os lucros – e assim cortar investimentos em seu exército, por exemplo – ou se ignora o apelo popular. Neste caso, é possível que eles se rebelem e organizem um grupo armado para tirá-lo do poder.

Por falar nisso, a satisfação é um dos pontos mais importantes de Total War: Shogun 2. É preciso estar atento a isso desde os primeiros momentos de jogo, já que isso influencia desde o crescimento da economia à motivação de seu exército. Além dos aldeões, seus generais também podem começar a questionar sua autoridade e fazer com que toda sua força bélica seja inutilizada.

Para isso, é preciso entrar na questão familiar. É possível adotar algum dos líderes de suas tropas para que ele faça parte de seu clã e entre na linha de sucessão ao trono ou até mesmo arranjar um casamento com uma de suas filhas. Cada uma dessas escolhas adiciona ou remove atributos de seu feudo, dependendo do grau de aprovação.

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Além disso, a religião também é um fator importante e que deve ser pensado com cuidado. Como dito anteriormente, a chegada das missões cristãs acontece nessa época e é uma peça fundamental para seu caminho em direção ao topo do xogunato. Caso você aceite a doutrina ocidental em seu território, os europeus passam a ajudá-lo com armas de fogo e fazem com que sua tecnologia evolua rapidamente. Porém, caso o povo seja demasiadamente budista, uma revolta popular pode ter início. Por outro lado, negar ajuda permite que seus rivais recebam apoio estrangeiro.

As táticas de combate também são muito importantes. Não estudar uma formação para cada investida é algo suicida e quase sempre vai levar suas tropas à morte certa. O posicionamento de unidades é feito ao iniciar de cada confronto e é um dos fatores que definem as lutas.

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Mais do que isso, também é possível apostar em condições climáticas na hora de atacar um clã adversário. Esperar por um período de chuvas, por exemplo, pode ser ideal para atrapalhar a visão dos arqueiros inimigos, assim como a neve dificulta o uso das cavalarias.

Em outras palavras, o universo de possibilidades de Total War: Shogun 2 é praticamente infinito. Com várias decisões a serem tomadas e com tantas variáveis envolvidas, é praticamente impossível saber com exatidão qual será o futuro de sua família. Cabe às suas habilidades administrativas dizer se o desenvolvimento será próspero ou não.

Poderio gráfico, mas sem perder o charme

Ao iniciarmos o jogo, somos agraciados com uma das mais bonitas aberturas de games dos últimos tempos. A cena de apresentação traz todas as características culturais citadas anteriormente com um visual realmente de cair o queixo. A qualidade da pré-renderização chega a ser assombrosa.

Dentro do game, o resultado não é diferente. O destaque fica por conta dos confrontos, já que é neles que vemos a ação se desenrolar e o motor gráfico ser levado ao máximo. Imagine que é possível visualizar centenas de soldados de uma só vez e perceber que o desempenho é praticamente inabalado. É claro que isso vai depender da configuração de seu computador, mas é inegável que o potencial obtido pela The Creative Assembly é digno de elogios.

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Outro ponto bastante interessante é que o zoom permite tanto a visualização aérea das batalhas quanto um mergulho em meio às tropas. Além de ver seus samurais acabando com o adversário, isso faz com que seja possível olhar de perto quem são os soldados que lutam pelo daimyo: indivíduos diferenciados e não uma massa incógnita com o mesmo rosto. É possível diferenciar cada um dos guerreiros, ouvir seus gritos de guerra e o brandir das katanas ao encontro das lâminas inimigas.

Já na tela de gerenciamento, o destaque está na arte. Como temos uma visão um pouco distante do arquipélago japonês, não há muitos detalhes. Portanto, a solução da desenvolvedora foi caprichar na direção de arte, que combinou geografia real com elementos estilizados. O traçado no mapa, por exemplo, lembra muito algumas características vistas em Okami.

Isso sem falar nas influências climáticas. Como os turnos são representados por uma estação do ano, cada rodada possui uma construção própria. Primavera, outono, verão e inverno afetam o terreno de várias formas e trazem pequenos espetáculos visuais, como as flores de cerejeira em certas épocas.

Jogabilidade completa

Se você é o tipo de jogador que se preocupa em categorizar seus jogos em gêneros específicos, Total War: Shogun 2 pode dar uma nó em sua cabeça. Por mais que seja um game de estratégia, ele não se enquadra nas características de um RTS, nem nas de um título baseado em turnos.

Isso acontece porque a The Creative Assembly misturou os dois estilos exatamente para que a jogabilidade contemplasse o que há de melhor nos dois mundos. Portanto, o gerenciamento de províncias, fortificação de unidades e expansão de territórios segue o formato tradicional de rodadas, em que é preciso aguardar as próximas estações do ano para ter acesso a novas opções.

Porém, os confrontos vão na contramão disso e possuem aspectos vistos apenas em jogos de estratégia em tempo real. Ter domínio sobre a movimentação de tropas e definir a hora de atacar, recurar e até mesmo de parar são apenas alguns exemplos do que é permitido.

Além disso, existem várias particularidades dentro dessa mecânica que vão testar suas habilidades táticas. São inúmeros detalhes tanto para a administração do clã quanto para as batalhas, o que torna tudo bastante complexo e desafiador.

Um novo clã

O modo online de Total War: Shogun 2 é um dos grandes diferenciais desta edição. Além da já conhecida campanha multiplayer, há o novo Avatar Conquest, que permite ao jogador criar seu próprio clã e lutar contra vários outros usuários para expandir seu território.

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Assim como acontece em diversos outros títulos, há um sistema de progressão com base no ganho de experiência. Cada partida resulta em uma pontuação, que pode ser acumulada para que sua família suba de nível e ganhe mais recursos para evoluir. Com isso, você pode aumentar a quantidade de unidades em seu exército ou melhorar a força ou a defesa das tropas.

Com uma mecânica criativa e bastante intuitiva, almejar o crescimento de seus próprios domínios é algo muito divertido. Além disso, há vários elementos de personalização, como a bandeira que vai representar sua dinastia e até mesmo a aparência de seu daimyo.

Nem tudo são sakuras

Lembra-se do ótimo desempenho visual obtido pela equipe da The Creative Assembly? Embora eles realmente tenham conseguido fazer com que os gráficos de Shogun 2 ficassem impressionantes, isso não isenta o game de uma série de problemas.

A primeira e mais perceptível é que o motor gráfico não é capaz de manter a aparência estonteante vista na apresentação. Se você ficou boquiaberto durante a abertura, prepare-se para tomar um banho de água fria na animação que vem em seguida: personagens poligonais (com direito a orelhas quadradas), expressão facial nula e alguns elementos totalmente chapados. Em uma cena, por exemplo, vemos uma horta em que as plantas são riscos verdes chapados na superfície marrom.

Porém, é preciso dizer que isso não é uma constante. O grande problema está exatamente nessas cenas animadas, já que a construção de personagens jogáveis não sofre com esses problemas. Conforme observado nos pontos positivos, as lutas estão muito bonitas, então é complicado dizer onde foi que o estúdio errou.

Outro ponto é a queda na quantidade de quadros por segundos. Há momentos em que a placa gráfica do computador simplesmente não aguenta a quantidade de elementos e faz com que o desempenho despenque. Isso é bastante nítido durante a contextualização histórica ao início da campanha, já que o ambiente noturno, em chamas e repleto de samurais, deixa evidente que ainda existem algumas falhas.

Eterno aprendizado

Uma coisa é certa: Total War: Shogun 2 é um game extremamente complexo. Ao mesmo tempo em que a jogabilidade cheia de variáveis e detalhes torna tudo bastante variado, ela faz com que o tempo necessário para dominar todos os recursos existentes seja incrivelmente longo.

Por mais que isso seja uma característica do gênero em si, tudo neste jogo exige uma explicação. Claro que cabe ao jogador a decisão de ler ou não o breve tutorial, porém há o risco de você deixar algum detalhe importante não ser revelado. Além disso, administrar seu clã sem saber qual a função de cada recurso é quase como pedir que seu feudo vá à falência.

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O problema é que, depois de um determinado período, o usuário não tem mais paciência para ler o que está sendo dito. Cada botão abre uma pequena janela no canto da tela que define qual sua utilidade, mas que passa a ser ignorado a partir de determinado ponto.

Isso sem falar de que há chances de você nem sequer descobrir a existência de certos elementos. Como é preciso um pouco de curiosidade para explorar a interface, é muito provável que muitas aplicações passem despercebidas, o que pode comprometer todo o avanço de sua província.

Se você não é tão apaixonado por game de estratégia, a probabilidade de você desistir de Shogun 2 é enorme. Por mais que você tente se aventurar às cegas, abandonar os tutoriais é dar um passo em direção ao fracasso. A partir daí, fechar a janela e procurar outra atividade é questão de minutos.

90 pc
Excelente