Vampiro que ladra não morde.

Ninguém discute que o sobrenatural é uma vasta fonte de inspiração para produções literárias, cinematográficas e jogos de videogame. Do tradicionalista Conde Drácula (criado por Bram Stoker) até o contemporâneo Lestad de Lioncourt (da autora Anne Rice) sem se esquecer dos cômicos, Dom Drácula e Bento Carneiro, o vampiro brasileiro (criado por Chico Anysio).

Sendo assim não é nada estranho encontrar uma leva de jogos inspirados nas criaturas taciturnas sedentas de sangue. Mas como trazer alguma inovação quando se trabalha com uma formula antiga e explorada como a dos vampiros.

Para tanto a primeira idéia que passa pela cabeça de um desenvolvedor de jogos na hora de definir os aspectos de um game é justamente a originalidade deste título, alcançada na maioria das vezes através da união de fórmulas bem sucedidas, dando origem assim a uma nova.

E errar neste primeiro passo é inadmissível (e muito mais comum do que se espera). Tomar uma direção errada logo no começo do desenvolvimento pode anular todo o trabalho e os esforços seguintes. Para exemplificar o argumento entra Vampire Rain: Altered Species.

O conceito do título envolve uma mistura de terror e espionagem nunca vista antes, misturando uma jogabilidade extremamente tática que remete a games das séries Tom Clancy ou Metal Gear Solid e tudo isso regado com um clima de terror e suspense já conhecido pelos fãs de séries como Resident Evil.

A idéia não é nada má, mas a execução sim; os primeiros passos e as escolhas iniciais fundamentais para que o conceito desse certo parecem não ter sido coerentes, mas o produto final não chega aos pés das pretensões iniciais dos desenvolvedores.


Presas mortais

Após o desaparecimento de diversas pessoas, o governo dos Estados Unidos descobre que uma horda de vampiros está à solta e que os seres sobrenaturais pretendem dominar o mundo.

Para impedir a ascensão das criaturas taciturnas, o governo forma uma equipe especializada no combate as tais seres. Um dos soldados mais experientes no assunto é John Lloyd, único sobrevivente de um horrendo massacre organizado pelos vampiros e que agora está incumbido de — ao lado de uma equipe de peso — varrer a ameaça vampiresca para fora da cidade de Los Angeles.

Apesar do enredo simplório (que até demonstra algum potencial) a trama se desenvolve de forma estranha, tornando a história ainda mais obscura e pouco compreensível.

Tamanha é a frustração com a narrativa que após alguns minutos de jogo você simplesmente passará a ignorar a história, concentrando-se somente na jogabilidade (justamente o ponto mais fraco do jogo). Por conta desta troca de foco as grandes falhas do jogo acabam se evidenciando, deixando de lado qualquer atributo significativo do jogo.

Van Helsing que se cuide

É verdade que toda a mitologia vampiresca deixa bem claro os enormes poderes dos imortais. Seja sua celeridade ou a sua força sobre-humana, sem se esquecer das suas habilidades empáticas.É bala na agulha veio!

Entretanto mesmo estes seres possuem pontos fracos. Ao longo das várias interpretações das sombrias criaturas criadas originalmente por Bram Stoker alguns pontos foram ressaltados, outros esquecidos, mas invariavelmente sempre havia uma forma especial de ferir os vampiros.

Mas Vapire Rain parece trazer um novo tipo de vampiro, o super-vampiro. Estas criaturas ameaçadoras e horripilantes são extremamente resistentes aos disparos de armas comuns e são dotados de uma força descomunal, sendo capazes de derrubar qualquer ser humano com apenas um golpe.

Com um pouco de sorte — e muita munição — você terá chances remotas de acabar com um deles, e se ficar o bicho come se correr o bicho pega, já que fugir não é uma opção viável, visto que os vampiros são capazes de correr muito rápido do que um humano, além de possuir a capacidade de subir em edifícios altíssimos com apenas um pulo.

Não adianta correr

Em Vampire Rain, você não pode correr, mas pode se esconder — e esta é justamente a solução mais viável. Evitar ser visto pelos vampiros é fundamental para o seu sucesso e sobrevivência, pois mesmo após enfrentar e vencer um deles, outros virão para acabar com você.

É aqui que surge um dos poucos elementos interessantes do jogo, suas habilidades e equipamentos de espionagem. As ruas escuras de Los Angeles e a chuva torrencial constante serão os seus maiores aliados, além da incrível estupidez dos vampiros, que são facilmente despistados com alguns pequenos desvios na sua rota.

Caso algum deles perceba sua presença, a tela apresentará um efeito diferente, avisando o jogador do perigo, mas se um deles o avistar efetivamente e passar a persegui-lo, a palavra “caution” (cuidado, em inglês) vai aparecer na tela e uma indicação da direção do inimigo será mostrada.

Labirinto sem muros

Não raramente você será avistado por um vampiro sem ao menos saber onde ele está. Isso acontece porque as fases de Altered Spercies são estruturadas de forma extremamente linear.
Melhor que Beto Carreiro World!

Os vastos mapas dão a falsa impressão de liberdade, entretanto, as paredes invisíveis e os inúmeros vampiros — que mais parecem guardas noturnos, agindo de forma extremamente artificial — acabam restringindo as suas opções de ação, que nem sempre são claras ou intuitivas.

A fórmula falha e acaba removendo toda ação do game, deixando somente o lado tático e os elementos de plataforma. Na realidade mais parece um puzzle (jogo de quebra-cabeça) no qual o seu objetivo é descobrir o caminho certo a seguir.

Às vezes, para descobrir a trilha correta você terá que expor o seu pescoço aos vampiros, fato que torna a tão odioso “game over” mais comum do que em outros títulos — algo extremamente frustrante a qualquer jogador.

Passou batido

Um dos maiores problemas em Vampire Rain é que alguns dos elementos do cenário, fundamentais para o progresso do jogador, acabam passando despercebidos. São pequenas bordas, calhas, cordas e escadas que nem sempre são visíveis logo à primeira vista.

Assim, o jogador que não observar atentamente a todos os elementos do cenário vai acabar tomando o caminho errado diversas vezes até procurar minuciosamente por outro caminho.

Isso acontece porque os gráficos privilegiam a escuridão, fato que dificulta a visualização até mesmo dos elementos chaves para a progressão do jogador — como escadas e calhas — que acabam parecendo iguais aos outros elementos do cenário.


E o que mais

Além do modo história, você também poderá jogar pequenos desafios dentro do jogo. O modo Trial, incumbe o jogador de pequenos objetivos como levar munição aos seus companheiros ou acabar com alguns inimigos. Cada fase completada habilita dois destes níveis, sendo que os Trials habilitados pelas primeiras fases são Tutoriais.

Além disso, há um modo online no qual um time formado por vampiros (que, assim como nas modalidades para apenas um jogador, têm vantagem) encara uma equipe de humanos.

Gola rolê

Em linhas gerais o sistema de controles de Vampire Rain é bem simples e fáceis, o que não é necessariamente bom em um jogo cujo elemento principal é a tática. Diferente de jogos icônicos do gênero, como Metal Gear Solid, o título apresenta uma variedade pequena de comandos, deixando de fora comandos essenciais como por exemplo: esgueirar-se pelas paredes para evitar ser visto.

O seu arsenal conta com uma boa variedade de acessórios, como um óculos de visão noturna, um detector térmico, binóculos e armas que vão de pistolas à rifles de precisão.


Infelizmente as armas constituem a parte mais inútil do seu equipamento, tendo em mente que os vampiros são praticamente imunes aos tiros da maioria delas. É claro que há exceções, como o rifle de precisão (o popular sniper), que pode acabar com as criaturas com apenas um tiro, entretanto, estas armas são raras e sua munição, escassa.

Outro ponto absurdo da jogabilidade é
a transição de perspectiva para realizar os disparos das armas. Para utilizar uma arma, o jogador deve mudar a perspectiva para a primeira pessoa e só então mirar e atirar.Olho de Thundera, me de a visão além do alcance.

Se já é difícil acabar com os vampiros devido à sua resistência, alterar a perspectiva, mirar e disparar enquanto o mesmo o persegue é uma tarefa quase impossível. Após algumas tentativas frustradas de acabar com estes inimigos, você desiste e passa a evitar ser visto por eles.

Como procurar rotas alternativas é seu principal objetivo em Vampire Rain, subir escadas, escalar muros e descer de edifícios através de cordas são as ações mais comuns no game.

Chove chuva

Um dos poucos pontos positivos de Vampire Rain Altered Species são os gráficos. E mesmo assim estes ainda estão aquém das possibilidades técnicas dos consoles de ultima geração.

Os visuais se sobressaem em relação aos outros aspectos do game, que são muito fracos. A modelagem dos personagens é boa, embora um pouco simples, e a cidade é bem construída, proporcionando um clima sombrio graças às sombras e os efeitos de iluminação (mesmo que esta acabe prejudicando um pouco a jogabilidade).

Mas certamente o elemento mais marcante do jogo é a chuva, como não poderia ser diferente, afinal, ela está sempre presente e é um elemento fundamental na trama e no contexto geral do game.

A chuva escorre sobre os personagens de forma interessante e os efeitos de luz agem sobre ela com maestria. O único problema é o fato da gravidade às vezes parecer não agir corretamente sobre as gotas que escorrem sobre os personagens; quando um deles levanta um braço, por exemplo, as gotas passam a escorrer para cima.

Se a intenção dos desenvolvedores era criar um clima de terror através deste conceito artístico, eles falharam. Embora o clima proporcionado realmente seja sombrio, os elementos gráficos que remetem à espionagem acabam tornando o título menos aterrorizante.


Além disso, a sonoplastia é extremamente fraca e falha. Os vampiros não fazem barulho algum — parecem, inclusive, ignorar o barulho que você faz, mesmo que seja bem debaixo de seus narizes — e nem falam ou interagem entre si.

Muitas vezes, fica até difícil notá-los e felizmente, eles só percebem a sua presença se você estiver realmente na frente deles, ou seja, você também não é denunciado pelo som.

A dança dos vampiros

Vampire Rain Altered Species é mais uma boa idéia mal executada desde o princípio. Antes de qualquer outra coisa vale lembrar que o título original, Vampire Rain para o Xbox 360 é exatamente igual a este, sendo que este já sofria com os mesmos problemas.

Escolhas básicas, como os elementos fundamentais da jogabilidade e o formato no qual é apresentado foram feitas sem muita coerência, enquanto pequenos detalhes falhos se somam e formam um grande problema.

A dificuldade do título é frustrante ao invés de desafiadora. Os vampiros são absurdamente poderosos e nem mesmo Belmond em seus melhores dias conseguiria derrotar um.

Os seres são extremamente fortes, rápidos e resistentes e seu único ponto fraco é também um grande defeito do jogo: eles agem de forma extremamente artificial e previsível. É extremamente frustrante carregar armamento pesado e ainda assim estar completamente indefeso frente a estas criaturas.

Devido a esta incapacidade de enfrentar os vampiros, a única solução é procurar caminhos alternativos e evitar ser visto por eles. Entretanto, os cenários que a princípio parecem vastos, são extremamente limitados, seja por paredes invisíveis ou pela própria disposição dos vampiros — que ficam parados feito estátuas, esperando por um pescoço apetitoso.

No final das contas, há apenas um caminho certo a ser tomado, que muitas vezes é camuflado pelos cenários escuros e confusos do jogo. Assim, todos os aspectos negativos do jogo acabam se somando e no final acabam pesando muito sobre os poucos positivos — como o conceito (que, embora mal aplicado, apresenta uma idéia original) e o desenho da chuva.

A dificuldade frustrante, a má aplicação dos elementos de espionagem em um jogo de terror e o enredo pobre e mal narrado são o suficiente para fazê-lo desistir de jogar em poucos minutos. E se isso não é o bastante ainda vale lembrar que a versão do Xbox 360 já era falha e apresentava os mesmos problemas e mesmo assim resolveram transportar o jogo para o PS3.
35 ps3
Vergonhoso