Vampire Rain é uma boa idéia mal aplicada e oferece uma experiência extremamente frustrante.

A primeira idéia que passa pela cabeça de um desenvolvedor de jogos na hora de definir os primeiros aspectos de um game é a originalidade, resultada geralmente da união de fórmulas bem sucedidas, dando origem a uma nova. Porém, errar neste primeiro passo é inadmissível; tomar uma direção errada logo no começo do desenvolvimento pode anular todo o trabalho e os esforços seguintes.

Vampire Rain é um ótimo exemplo disso. O conceito do título envolve uma mistura de terror e espionagem nunca vista antes, misturando uma jogabilidade extremamente tática que remete a games das séries de Tom Clancy ou Metal Gear Solid, por exemplo, com um clima de terror e suspense já conhecido pelos fãs de séries como Resident Evil. A idéia não foi ruim, mas a execução sim; os primeiros passos e as escolhas iniciais fundamentais para que o conceito desse certo parecem não ter sido coerentes.

A ameaça vampírica

Embora devesse, o enredo não cumpre um papel fundamental em Vampire Rain. Após o desaparecimento de diversas pessoas, o governo dos Estados Unidos descobre que vampiros estão à solta e pretendem dominar o mundo. Você joga na pele de John Lloyd, um soldado experiente que sobreviveu a um massacre dos vampiros e agora está incumbido de — ao lado de uma equipe de peso — varrer a ameaça vampírica para fora da cidade de Los Angeles. Sua maior aliada aqui é a chuva, que limita as capacidades dos vampiros e torna a abordagem sorrateira do time ainda mais adequada.

O enredo é simples, mas não a narrativa não é clara, tornando a trama obscura. Após alguns minutos de jogo, você passa a ignorá-lo e concentrar-se somente no elemento principal do jogo: a busca pelo caminho correto e a abordagem sorrateira, evitando ser notado. O que parece ser um vasto mapa é delimitado por paredes invisíveis e — para evitar o confronto com os inimigos — há apenas um caminho possível em cada fase, tornando o jogo todo bastante linear.

Não se pode matar aquele que já está morto


Muitos inimigos teriam medo de um super soldado armado até os dentes com rifles e pistolas, mas não os vampiros. Estas criaturas ameaçadoras e horripilantes são extremamente resistentes aos disparos de armas comuns e são dotados de uma força descomunal, sendo capazes de derrubar qualquer ser humano com apenas um golpe. Com um pouco de sorte — e muita munição —, é possível acabar com um deles, no entanto, fugir não é uma opção viável, visto que os vampiros correm muito rápido e têm a capacidade de subir em edifícios altíssimos com apenas um pulo.

Em Vampire Rain, você não pode correr, mas pode se esconder — e esta é justamente a solução mais viável. Evitar ser visto pelos vampiros é fundamental, pois mesmo após enfrentar e vencer um deles, outros virão para acabar com você. É aqui que entram suas habilidades de espionagem, um dos aspectos mais marcantes do jogo.

As ruas escuras da cidade de Los Angeles e as chuvas torrenciais constantes são grandes aliados do jogador e a estupidez dos vampiros permite-o passar despercebido mais facilmente. Quando um deles percebe sua presença, a tela desfoca, avisando-o do perigo, mas se um deles o avista efetivamente e passa a perseguí-lo, a palavra “caution” (cuidado, em inglês) aparece e uma indicação da direção do inimigo é mostrada.

Não raramente, no entanto, você é avistado por um vampiro sem ao menos saber onde ele está. Isso acontece porque as fases de Vampire Rain são estruradas de forma extremamente linear. Os mapas são vastos e dão a impressão de liberdade, no entanto, as paredes invisíveis e os inúmeros vampiros — que mais parecem guardas noturnos, agindo de forma extremamente artificial — deixam-no apenas uma opção, que nem sempre é clara e intuitiva.

A fórmula arranca o aspecto da ação do game, sobrando apenas o lado tático e os elementos de plataforma. É como se fosse um puzzle; descobrir qual o caminho certo a seguir exige tempo e raciocínio. Arriscar seu pescoço e até oferecê-lo de mão beijada aos vampiros às vezes é necessário para se descobrir o local certo a se seguir e a temida tela de “game over” aqui é a mais comum — o que é extremamente aborrecedor à qualquer jogador.

Um dos maiores problemas em Vampire Rain é que alguns dos elementos do cenário fundamentais para o progresso do jogador acabam passando despercebidos. Pequenas bordas nas quais é possível se agarrar, calhas, cordas e escadas nem sempre são visíveis logo à primeira vista, forçando-o a tomar o caminho errado diversas vezes antes de procurar minuciosamente por outra alternativa. Isso acontece porque tudo é muito escuro e difícil de ser encontrado, mesmo os elementos chaves para a progressão do jogador — como escadas e calhas — serem todos iguais e parecerem bastante artificiais às vezes.

Além do modo história, é possível jogar uma modalidade chamada Trial, na qual o jogador é incumbido de cumprir pequenos objetivos como levar munição aos seus companheiros ou acabar com alguns inimigos. Cada fase habilita dois destes níveis (os Trials habilitados pelas primeiras fases são chamados de Tutoriais). Há ainda um modo online no qual dois times se enfrentam: os vampiros (que, assim como nas modalidades para apenas um jogador, têm vantagem) contra os humanos.

Defendendo o seu pescoço

Vampire Rain apresenta um sistema de controles fácil e simples, o que não é necessariamente bom em um jogo cujo elemento principal é a tática. Diferente de games como Metal Gear Solid, o título apresenta uma variedade pequena de comandos; não é possível, por exemplo, esgueirar-se pelas paredes para evitar ser visto.

À sua disposição, você tem acessórios como um óculos de visão noturna, um detector térmico, binóculos e armas que vão de pistolas à rifles de precisão. Infelizmente as armas constituem a parte mais inútil do seu equipamento, visto que os vampiros dificilmente podem ser mortos pela maioria delas. É claro que há excessões, como o rifle sniper, que pode acabar com as criaturas com apenas um tiro, no entanto, estas armas são muito raras e sua munição, escassa.

Para utilizar uma arma, o jogador deve pressionar o botão X, que muda a perspectiva para a primeira pessoa. O gatilho direito é usado para atirar, enquanto o RB regarrega a arma. Se já é difícil acabar com os vampiros devido à sua resistência, alterar a perspectiva, mirar e atirar enquanto o mesmo o persegue é uma tarefa quase impossível. Após algumas tentativas frustradas de acabar com estes inimigos, você desiste e passa a evitar ser visto por eles.

Como procurar rotas alternativas é seu principal objetivo em Vampire Rain, subir escadas, escalar muros e descer de edifícios através de cordas são as ações mais comuns no game. É quase como um puzzle baseado na plataforma — o maior desafio é encontrar um caminho alternativo (geralmente no topo dos edifícios) para seguir.

A chuva não pára


O ponto positivo mais marcante de Vampire Rain — e um dos únicos — são os gráficos. Não que estes sejam dos mais belos do mercado, no entanto, eles se sobressaem em relação aos outros aspectos do game, que são muito fracos. A modelagem dos personagens é boa, embora um pouco simples, e a cidade é bem construída, proporcionando um clima sombrio graças às sombras e os efeitos de iluminação.

Mas o elemento gráfico que mais se destaca em meio a tudo isso é a chuva. Não podia ser diferente, afinal, ela está sempre presente e é um elemento fundamental na trama e no contexto geral do game. A chuva escorre sobre os personagens de forma interessante e os efeitos de luz agem sobre ela com maestria. O único problema é o fato da gravidade às vezes parecer não agir corretamente sobre as gotas que escorrem sobre os personagens; quando um deles levanta um braço, por exemplo, as gotas passam a escorrer para cima.

Se a intenção dos desenvolvedores era criar um clima de terror através do conceito artístico usado, eles falharam. Embora o clima que o cenário proporciona seja sombrio, os elementos gráficos que remetem à espionagem acabam tornando o título menos aterrorizante. Além disso, os vampiros se comportam de forma extremamente artificial, mais parecendo robôs do que criaturas literalmente sedentas por sangue.

A sonoplastia, por sua vez, é extremamente fraca e falha. Os vampiros não fazem barulho algum — parecem, inclusive, ignorar o barulho que você faz, mesmo que seja bem debaixo de seus narizes — e nem falam ou interagem entre si. Muitas vezes, fica até difícil notá-los; felizmente, eles só percebem a sua presença se você estiver realmente na frente deles, ou seja, você não é denunciado pelo som.

Uma dentada no pescoço

Vampire Rain é um jogo que surgiu de uma boa idéia, mas que infelizmente foi mal executada desde o princípio. Escolhas básicas como os elementos fundamentais da jogabilidade e o formato no qual é apresentado foram feitas sem muita coerência, enquanto pequenos detalhes falhos se somam e formam um grande problema.

A dificuldade do título é frustrante ao invés de desafiadora, como deveria ser. Os vampiros são extremamente fortes, rápidos e resistentes e seu único ponto fraco é também um grande defeito do jogo: eles agem de forma extremamente artificial e previsível. É extremamente frustrante carregar um armamento de peso consigo e ainda assim ser completamente indefeso frente a estas criaturas.

Devido a incapacidade de enfrentar os vampiros, a única solução é procurar caminhos alternativos e evitar ser visto por eles. No entanto, os cenários, que a princípio parecem vastos, são extremamente limitados, seja por paredes invisíveis ou pelos próprios vampiros — estes ficam parados feito estátuas, esperando que um pescoço indefeso vá até eles. No final das contas, há apenas um caminho certo a ser tomado, que muitas vezes é camuflado pelos cenários escuros e confusos do jogo.

Todos os aspectos negativos pesam muito sobre os poucos positivos — como o conceito (que, embora mal aplicado, apresenta uma idéia original) e o desenho da chuva. A dificuldade frustrante, a má aplicação dos elementos de espionagem em um jogo de terror e o enredo pobre e mal narrado são o suficiente para fazê-lo desistir de jogar em poucos minutos.


30 xbox-360
Vergonhoso