Um gigante dos RPGs japoneses agora cabe no seu bolso

Lançado em 2012, já no final do ciclo de vida do Wii, Xenoblade Chronicles foi um sucesso inesperado para a Nintendo da América. A maior prova de que a empresa não acreditava muito no êxito do jogo é o fato de que ele só foi lançado após muita pressão dos fãs, que fizeram questão de esgotar rapidamente as poucas cópias que chegaram às lojas — hoje, uma cópia do game custa entre R$ 300 e R$ 400 no eBay.

A popularidade do título entre os fãs de RPG rendeu vários frutos, que vão desde o local de destaque dado pela empresa a Xenoblade Chronicles X em suas transmissões Nintendo Direct até a inclusão do protagonista Shulk em Super Smash Bros. Dessa forma, não é exatamente surpreendente que uma adaptação do RPG seja um dos primeiros títulos de destaque exclusivos ao New Nintendo 3DS.

Com suporte ao sistema Street Pass e oferecendo recursos inéditos mediante a conexão com um amiibo, o título chega de forma quase integral ao portátil da Nintendo. Mas será que, três anos após seu lançamento e fora de seu ambiente original, Xenoblade Chronicles ainda continua sendo um RPG relevante? A resposta você confere em nossa análise.

Tradição e inovação

Ao menos do ponto de vista de sua narrativa, Xenoblade Chronicles 3D é um game que respeita toda a tradição da “escola japonesa” de RPGs. O universo do jogo é centrado em dois grandes gigantes que, após uma batalha incessante, parecem ter morrido e terminado seu embate em um “empate”.

Do corpo do gigante orgânico surgiram os humanos e outras criaturas, que tentam sobreviver aos ataques dos mechons, seres mecânicos cujo único intuito parece ser matar o que surge pela frente. A grande esperança da humanidade reside em uma misteriosa espada conhecida como Monado — que misteriosamente só pode ser totalmente controlada pelo protagonista Shulk.

Além de ser a única arma capaz de ferir com eficiência os mechons, a Monado garante a seu portador uma série de poderes misteriosos — entre eles, a capacidade de observar eventos futuros e tomar ações para mudá-los. Com esse poder em mãos, cabe a você descobrir os segredos que se escondem por trás dos mechons e salvar a humanidade de um destino trágico.

Embora não seja exatamente original do ponto de vista de sua narrativa, Xenoblade Chronicles consegue envolver o jogador ao apresentar personagens carismáticos e com os quais é possível se identificar em diversos níveis. Mesmo que algumas figuras sejam um tanto irritantes, no geral tanto os protagonistas quanto os antagonistas dessa história cumprem bem o papel que lhes é determinado.

O único problema real do game é o fato de que ele se “arrasta” um pouco em seus momentos finais, o que resulta em um inchaço desnecessário na quantidade de horas necessárias para completar a aventura. Infelizmente, essa parece ser uma tradição dos títulos da Monolith, visto que essa característica ingrata está presente desde a época em que alguns de seus fundadores estiveram envolvidos com a produção de Xenogears, da Square Enix.

O ponto no qual o game mais inova é em suas mecânicas, especialmente em seu sistema de combate. Tal qual um MMO, os inimigos aparecem no próprio mapa do game, e basta colocá-los sob sua mira (ou que uma criatura agressiva o veja) para iniciar os confrontos, que têm ritmo rápido e uma duração geralmente curta.

Enquanto os ataques convencionais ocorrem de maneira automática, você pode selecionar uma série de habilidades que causam efeitos que vão de dano adicional até efeitos que garantem desvantagens a seus adversários. O posicionamento de seu personagem ganha uma importância especial nesse momento, visto que várias ações exigem estar atrás ou ao lado de um oponente para que surtam o efeito desejado.

Outra característica que Xenoblade Chronicles empresta de MMOs é a existência de uma série de missões secundárias que rendem equipamentos, dinheiro e experiência a seus heróis mediante o comprimento de certas condições (que geralmente envolvem matar um determinado número de monstros). Felizmente, o título trata isso de forma mais inteligente que a maioria dos títulos online: basta cumprir os requisitos necessários para receber automaticamente a recompensa prometida, sem que uma viagem à cidade seja necessária para isso.

Outra facilidade trazida pelo jogo é o fato de que é possível viajar rapidamente por pontos de interesse a partir do momento em que eles são abertos. Assim, voltar a um ponto anterior da aventura para lidar com inimigos de nível alto que bloqueavam seu caminho é um processo simples — e necessário, visto que muitas missões secundárias são acessadas dessa forma.

Transição agridoce para o mundo portátil

Xenoblade Chronicles 3D é um game gigantesco, tanto no que diz respeito ao escopo de seus cenários quanto em sua duração. Caso você decida simplesmente seguir a história principal e fazer somente uma quantidade limitada de missões secundárias, prepare-se para gastar pelo menos 50 horas explorando o mundo criado pela Monolith.

Felizmente, o título se adapta muito bem às características de um portátil, mesmo que não haja nenhuma mudança substancial em seu design em relação ao que foi visto no Wii. No entanto, a não precisar ficar voltando à cidade para completar missões e recursos como a possibilidade de salvar sua aventura em qualquer lugar se adaptam muito bem a uma plataforma à qual você não necessariamente vai dedicar várias horas seguidas.

O problema da adaptação surge quando levamos em consideração que o game original foi pensado para ser jogado em uma tela de televisão com dimensões generosas. Se na versão para Wii já era meio difícil ver o posicionamento de alguns inimigos e elementos como indicadores de agressividade, o display reduzido do New Nintendo 3DS ajuda a tornar os confrontos ainda mais caóticos.

A menor resolução do portátil também resulta em alguns elementos simplesmente inexplicáveis. Textos de tutorial, por exemplo, surgem de forma ligeiramente embaçada, o que dificulta a leitura das instruções passadas em tela — algo que, felizmente, não afeta as legendas dos textos.

Também é problemática a maneira como o game lida com a tela inferior do portátil, que é muito mal aproveitada. Embora elementos como o mapa e a quantidade de vida dos personagens sejam exibidos nesse espaço, seria melhor trazer a ele elementos como a seleção de habilidades, o que deixaria a tela superior menos congestionada e traria mais agilidade ao título.

Outra perda da versão para o New Nintendo 3DS não deve fazer tanta falta aos jogadores, mas se mostra uma desvantagem em relação ao Wii: não é mais possível escolher a dublagem original japonesa em vez das vozes inglesas — que são bem competentes, apostando em talentos britânicos para dar vida aos personagens.

Para completar, o portátil da Nintendo simplesmente não consegue transmitir a grandiosidade dos cenários do jogo da mesma forma que acontece na versão original. Mesmo a tela do modelo XL simplesmente não é capaz de capturar toda a grandiosidade dos ambientes da mesma forma que uma tela de televisão grande consegue. Já o 3D cumpre o mesmo papel de outros jogos do portátil: é uma curiosidade que você provavelmente vai preferir desligar dentro de pouco tempo para poupar bateria.

As principais vantagens da adaptação para Nintendo 3DS são sua portabilidade e o fato de que alguns tempos de carregamento foram bastante reduzidos — quem costumava pegar todos os baús deixados pelos inimigos no Wii vai saber do que estou falando. Também há os recursos exclusivos a amiibos e ao Street Pass que, embora sejam dispensáveis, adicionam alguns extras estéticos e um modo jukebox à aventura.

Vale a pena?

Mesmo com uma transição um pouco problemática para o Nintendo 3DS, Xenoblade Chronicles continua sendo um RPG tipicamente japonês de grande qualidade. Junto a Bravely Default, o título ajuda a tornar o 3DS (no caso, o modelo New) uma das plataformas mais completas para quem procura os desenvolvimentos mais interessantes desse gênero.

No entanto, não vale a pena investir na compra do título — tampouco na nova versão da plataforma da Nintendo — caso você já possua o game para Wii. O lançamento original para o console de mesa permanece sendo a opção “superior”, tanto por sua resolução maior quanto pelo fato de que a grandiosidade do título só pode ser devidamente transmitida por uma tela de televisão de grandes dimensões.

Isso não quer dizer que o título é ruim, muito pelo contrário: caso você já possua o New Nintendo 3DS, é praticamente “obrigação” ter o game em sua biblioteca. Mesmo se tratando de um game datado de 2012 (nos Estados Unidos), o título ainda apresenta algumas das mecânicas mais envolventes e divertidas já produzidas quando se leva em consideração o cenário atual dos RPGs orientais.

Caso você não tenha o Wii ou simplesmente tenha perdido o título em seu lançamento original, vale dar uma chance para Xenoblade Chronicles 3D. Mesmo com alguns problemas decorrentes do formato portátil, o jogo possui uma qualidade evidente e mais do que justifica o rótulo de “sucesso cult” que carrega.

90 3ds
Excelente
"Mesmo sofrendo com a transição para o New Nintendo 3DS, Xenoblade Chronicles ainda é um RPG obrigatório"

Pontos Positivos

  • Sistema de combate envolvente
  • Mesmo com perdas, o game se adapta bem às exigências de uma plataforma portátil
  • Apresenta exatamente a mesma aventura vista no Wii

Pontos Negativos

  • Transição da interface original não foi realizada de forma inteligente
  • Baixa resolução dificulta a visualização de inimigos
  • História ligeiramente inchada, especialmente nos momentos finais