O ano de 2015 vai ficar marcado como aquele em que jogos de mundo aberto dominaram a lista de lançamentos. The Witcher 3, Batman: Arkham Knight, Just Cause 3 e Fallout 4 são somente alguns dos exemplos de títulos que apostam em mapas gigantescos como forma de ocupar e divertir os jogadores.

No entanto, nenhum desses jogos chega perto de Xenoblade Chronicles X, que traz com exclusividade ao Wii U um mapa com escala gigantesca. Trata-se de algo que não é exatamente surpreendente quando se leva em consideração que o estúdio decidiu criar nada menos que um planeta inteiro com fauna, flora e formações rochosas completamente diferentes das vistas na Terra.

O local serve como ponto de partida para uma história que, embora caia em alguns clichês e nem sempre se desenvolva de forma satisfatória, serve como uma boa desculpa para você explorar cenários gigantescos e variados. Junto a isso, há um sistema de batalhas bastante envolvente que ajuda a tornar divertidas as cerca de 80 horas necessárias para terminar o título — isso se você decidir deixar de lado muitas de suas atividades paralelas.

Bem-vindo ao pós-Terra

Xenoblade Chronicles X não tem nenhuma relação direta com o que acontece no Xenoblade Chronicles disponível para Wii e New Nintendo 3DS. O jogo acontece em um universo alternativo no qual o planeta Terra foi destruído no ano 2052 graças a uma batalha entre duas raças alienígenas.

Os poucos sobreviventes se refugiaram em naves espaciais e têm o objetivo de explorar o espaço em busca de um novo local apto para a sobrevivência humana. Uma dessas embarcações, a White Whale, é atacada dois anos após os eventos que abrem o game e acaba pousando em Mira, um planeta que não aparecia em nenhum mapa galáctico conhecido anteriormente.

O game se inicia dois meses após incidente com o resgate daquele que vai ser o personagem que você vai guiar por toda a aventura. Praticamente muda (com exceção de algumas falas não dubladas), essa figura pode ser personalizada de forma livre e acaba tendo pouco impacto na história principal, cujos reais protagonistas acabam sendo alguns dos companheiros encontrados pelo caminho.

Após uma breve introdução, você recebe a missão que vai guiar boa parte do game: como parte do grupo BLADE, o jogador deve encontrar os sobreviventes da White Whale e descobrir recursos naturais capazes de ajudar na sobrevivência de nossa espécie. Sua base de operações é a cidade de New Los Angeles, que concentra grande parte dos personagens e aliados com os quais você vai interagir.

Seguindo à risca alguns clichês dos RPGs japonês, Xenoblade Chronicles X não demora muito a apresentar um grande vilão que deve ser derrotado por representar uma ameaça a todas as formas de vida. No entanto, nem mesmo essa figura maligna é bem desenvolvida e fica a impressão de que o fio condutor da história principal muitas vezes sem perde sem razões para isso. Apesar de os momentos finais da aventura ganharem um ritmo um pouco melhor, a conclusão decepciona — bem na hora em que parece que a ação vai esquentar, o roteiro chega à sua conclusão de forma um tanto súbita.

Também irrita o fato de o personagem principal ter pouca motivação e nunca se desenvolver de maneira satisfatória, algo que não pode ser justificado pelo fato de ele ser uma criação própria de cada jogador. No entanto, isso não incomoda tanto quanto o ritmo lento dos diálogos e as piadas recorrentes envolvendo Tatsu, criatura que desempenha o papel de “mascote” do RPG.

Explorando o desconhecido

A história um tanto decepcionante é compensada por um dos games de 2015 que mais incentivam e recompensam a exploração de novos ambientes. O planeta Mira é simplesmente imenso, o que permitiu à Monolith desenvolver um sistema de fauna próprio que combina muito bem com os diferentes tipos de geografia e ambientes que você encontra durante a aventura.

Desde o início do título, o jogador anda por áreas em que criaturas com nível baixo coexistem com monstros gigantescos que podem destruir seu grupo com um mero peteleco. E isso vai acontecer diversas vezes conforme você explora regiões desconhecidas, principalmente quando você começar a encontrar criaturas que têm comportamento mais agressivo.

Felizmente, a morte não tem muito peso no jogo como um todo. Caso seu grupo seja derrotado, você simplesmente é transportado para o último ponto de controle ativado com todos seus itens e pontos de experiência intactos. Isso, somado a um sistema de viagens rápidas acessível, faz com que você nunca se sinta punido por sair do caminho determinado pela aventura.

O sistema de combate é semelhante ao do Xenoblade para Wii, ocorrendo em tempo real nos mesmos cenários em que acontece a exploração. Seu personagem conta com ataques básicos a longa e curta distância que se repetem de forma automática e uma série de habilidades secundárias com tempo de variação diversificado (algumas delas também exigem um recurso conhecido como TP para funcionar).

Ao contrário do que acontecia no jogo anterior, o posicionamento de seus personagens não parece mais influenciar tanto na hora de derrotar os inimigos. No entanto, ainda é possível derrubá-los para ganhar alguns segundos de vantagem e mudar sua mira para atingir locais mais suscetíveis a determinados tipos de golpe.

O game apresenta um sistema de classes que trabalha de forma independente ao nível geral de cada personagem. As opções disponíveis são versáteis, e você pode desempenhar tanto o papel do guerreiro que provoca grande dano quanto do suporte que causa pouco impacto, mas que tem vida suficiente para sobreviver aos ataques adversários enquanto o resto do grupo lida com eles.

Um dos quesitos que beneficia o sistema é o fato de que você pode trocar de papel a praticamente qualquer momento. Embora algumas especializações exijam que o jogador tenha determinado nível em uma classe, as três opções básicas não possuem pré-requisitos muito altos — com isso, é possível experimentar sem medo antes de se comprometer com um caminho específico dentro das batalhas.

Os combates ganham um nível adicional de complexidade quando você finalmente ganha acesso aos skells, robôs gigantes que ajudam a derrotar algumas das criaturas mais poderosas do título. Infelizmente, demora aproximadamente 30 horas de jogo até que eles se tornem utilizáveis — algo que é compensado pelo fato de que eles também permitem acesso a pontos antigamente inacessíveis dos mapas.

Missões secundárias e o modo online

Complementando sua trama principal, Xenoblade Chronicles X oferece uma variedade imensa de missões secundárias para serem feitas. Infelizmente, a maior parte delas é pouco inspirada, se constituindo na coleta de itens espalhados pelo mapa e na matança de alguns alvos destacados — nada de novo no mundo dos RPGs.

Muitas vezes, o game deixa a sensação de que estamos jogando um grande MMO single player, especialmente durante as tarefas mais burocráticas. Infelizmente, parte dessa estrutura também se aplica algumas das ações obrigatórias para a progressão da história, o que traz consigo uma dose generosa de frustração.

Exemplo disso são os momentos em que o jogo exige a coleta de uma quantidade determinada de certos itens que estão espalhados por pontos não identificados do mapa. Esse aspecto não seria muito problemático se não fosse o fato de que o único guia à disposição é a informação de aquilo que você precisa está em um dos vários continentes gigantescos. Também não ajuda o fato de que esses objetos surgem na forma de pequenos cristais azuis espalhados pelo cenário que parecem seguir uma organização aleatória e em nenhum momento indicam a recompensa que é oferecida.

Outro problema frustrante é o fato de que muitas vezes o jogo sequer se preocupa em oferecer uma ideia vaga do caminho que você tem que seguir. Quando isso está relacionado a encontrar um inimigo ou item específico em um mapa gigantesco, é praticamente impossível não se ver obrigado a recorrer a um guia ou à ajuda da internet para prosseguir na aventura.

Esses momentos chatos só são compensados pelo fato de que, assim que eles são vencidos, normalmente o game reserva uma ótima surpresa logo em seguida — seja ela uma visão impressionante ou um novo adversário a ser vencido. O design dos ambientes é muito bem construído, condizendo com a forma como um ambiente natural seria formado e fugindo do esquema de “caixas interligadas por corredores” que muitos títulos parecem seguir. O único momento em que esse universo parece pequeno é quando você finalmente consegue um skell capaz de voar, mas demora algumas dezenas de horas de dedicação até que isso seja possível.

Os elementos online de Xenoblade Chronicles X surgem na forma de algumas missões específicas que podem ser jogadas com outras três pessoas e de outras maneiras menos diretas. Ao se conectar, você é convidado a se juntar a um grupo que ganha pontos dependendo do cumprimento de determinadas tarefas — geralmente a matança de diferentes monstros.

Essas missões rendem quantidades variadas de créditos que podem ser trocadas por itens secundários, facilitando a criação de equipamentos e o cumprimento de algumas missões principais. Você em nenhum momento é obrigado a participar ativamente dessas atividades, o que significa que há a possibilidade de receber gratuitamente recompensas enquanto você se preocupa somente em prosseguir na história principal.

Vale a pena?

Xenoblade Chronicles X é um game que parece contraditório em vários momentos. Ao mesmo tempo em que ele oferece um dos sistemas de combates e uma das explorações mais agradáveis do mundo dos RPGs, apresenta várias decisões de design duvidosas — incluindo fazer com que você tenha que esperar em tempo real pela mineração de itens para que uma missão possa ser finalizada.

Além disso, o game comete o que para muitos pode ser considerado um pecado mortal para o gênero, apresentando uma história um tanto fraca e que desenvolve de forma ruim personagens que teriam potencial para se tornar memoráveis. No entanto, nem mesmo isso é suficiente para prejudicar muito o jogo, que consegue cativar do início ao fim — mesmo trazendo momentos simplesmente irritantes.

Se você estiver disposto a aguentar algumas missões meio chatas e não tiver problemas em consultar guias na internet (confie em mim, não há como escapar disso), vai ser recompensado por um dos mundos abertos mais originais e intrigantes de 2015. A escala adotada pela Monolith não surge de forma gratuita e se prova algo essencial para compor a aventura que vai rolar na tela de sua televisão.

Embora não seja tão marcante quanto seu antecessor, Xenoblade Chronicles X é bastante recomendado para os fãs dos RPGs japoneses e ajuda a complementar a biblioteca do Wii U, que tem opções bastante limitadas no gênero. Claro qualquer jogo que lhe dê a oportunidade de controlar e batalhar com um robô gigante deve despertar pelo menos o desejo de uma olhada rápida.

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