Mais do que um excelente Survival Horror: uma nova forma de jogar [vídeo]

Gameplay BJ

Um verdadeiro Survival Horror não é construído apenas com sustos e coisas pulando na tela a todo o momento. O grande trunfo do gênero é saber usar a ambientação para brincar com seus medos.

Não se trata apenas de colocar vários inimigos na tela, mas de fazer com que o jogador se sinta sempre acuado e temendo o que o aguarda atrás daquela porta. É explorar a impotência de estar sem munição e ver que sua única saída é correr entre corredores escuros, sem saber que você pode se deparar com um perigo ainda maior. É se tornar frágil em um mundo em que estamos tão acostumados a ser onipotentes.

E é exatamente por isso que ZombiU é tão envolvente. Seguindo a fórmula básica do gênero, a Ubisoft conseguiu criar um game que realmente é capaz de deixar o jogador tenso e mostrar que, mesmo na era dos shooters de ação, ainda há espaço para jogos em que você pode hesitar antes de fazer qualquer disparo. Cada munição é preciosa e todo erro é fatal.

Os tropeços gráficos de ZombiU são claros, mas também justificáveis. Por se tratar de um dos primeiros jogos de um estúdio para o Wii U, é natural que a nova arquitetura vai afetar o desenvolvimento e trazer vários problemas. Basta lembrar como eram os títulos de PS3 e Xbox 360 no início e no que eles se tornaram.

Img_normal
Porém, o restante do game é tão bom que essas falhas dificilmente vão estragar sua imersão nesse mundo sombrio. Mais do que criar uma nova maneira de jogar, a Ubisoft conseguiu fazer com que o bom e velho Survival Horror voltasse à sua origem da melhor maneira possível.

Para quem estava em dúvida se o Wii U realmente seria capaz de trazer alguma inovação considerável na jogabilidade, ZombiU é a prova de que o GamePad é capaz de oferecer uma experiência completamente diferentes daquilo com que estamos acostumados. Se ele for uma prévia daquilo que a Nintendo quer oferecer com seu console, não vejo a hora de conferir o que vem por aí.

Novas maneiras de interagir

Se a proposta da Nintendo com o Wii U é apresentar uma nova forma de jogar, ZombiU é um dos melhores exemplos de como o controle-tablet pode revolucionar a jogabilidade. Como apresentado nos diversos trailers e vídeos que antecederam o lançamento, o GamePad realmente faz diferença na hora de enfrentar os devoradores de cérebro.

Ao contrário do que alguns dos primeiros títulos do console ofereceram, a divisão entre as duas telas realmente é importante, o que obriga o jogador a estar atento em ambas para aumentar suas chances de escapar com vida. Enquanto a TV exibe toda a ação, o GamePad concentra o mapa, a interface de seleção de armas e equipamentos, além de uma espécie de sonar que mostra quando há um infectado por perto.

Img_normal

No entanto, o joystick não se limita a isso. Para trazer um realismo maior, o jogo permite que você carregue apenas seis itens simultaneamente — imagine que você está usando seus bolsos — e todo o restante deve ser armazenado em sua mochila. O ponto é que, como toda a organização é feita a partir da touchscreen, o tempo continua passando na tela principal e você pode ser atacado a qualquer momento caso não esteja atento ao que acontece ao seu redor. O mesmo acontece quando você tenta saquear um corpo.

É claro que esse é um ponto que pode dividir a opinião de muita gente por conta da dificuldade, mas é impossível negar o quanto esse aspecto contribui para a construção do clima de terror que gira em torno de ZombiU. Além de oferecer um realismo maior — em um apocalipse zumbi, os mortos-vivos não iam esperá-lo —, essa ameaça constante apenas aumenta a tensão. Basta imaginar em como pode ser aterrorizante tentar encontrar um remédio ao ouvir grunhidos vindos de algum lugar próximo.

Img_normal

O GamePad ainda é usado em outros momentos. Vários puzzles, como arrombar portas ou remover barricadas, exigem que você preste atenção na pequena tela para serem resolvidos. Em outros, o controle se transforma em um turret que você controla com o sensor de movimentos ou em um radar que identifica os objetos interativos do cenário.

No fim das contas, ZombiU consegue usar vários recursos exclusivos do Wii U, mostrando aplicações práticas e realmente interessantes do controle. Para quem tinha dúvidas do que ele era capaz de fazer, a Ubisoft conseguiu responder de maneira única.

Um Survival de respeito

Embora a utilização do GamePad seja o recurso mais esperado de todo o jogo, ele não é o principal atrativo de ZombiU. Como mencionado no início desta análise, o game da Ubisoft se destaca por ser um excelente Survival Horror, preenchendo uma lacuna que há algum tempo permanecia vazia.

Img_normal
O grande mérito do título está exatamente em colocar o jogador em uma posição de vulnerabilidade. Em momento algum você vai se sentir em situação de vantagem. A munição é sempre escassa, o personagem tem uma resistência baixíssima, a energia da lanterna acaba com o tempo e você nunca sabe o que pode acontecer. Tudo isso constrói uma tensão impressionante que faz com que qualquer coisa faça seu coração bater mais forte.

A construção desse terror psicológico é obra da ótima ambientação, que abusa da escuridão e das incertezas. Por mais que você tenha sempre um mapa e um sonar em suas mãos, eles apenas contribuem para deixar tudo mais agonizante. Em alguns casos, seu radar vai indicar que há um zumbi por perto — para seu desespero —, mas não passa de um rato infectado passando do seu lado.

Img_normal
Como a munição é escassa — em muitos momentos, você conta apenas com um único pente —, você precisa saber quando é realmente preciso atirar ou quando a arma pode ser substituída por ataques físicos. O problema é que, com isso, você fica vulnerável a agarrões e mordidas, que podem ser fatais mesmo quando sua energia está completa — o que se torna muito comum quando você fica encurralado.

Para evitar que isso aconteça, há alguns recursos interessantes, como a possibilidade de construir barreiras. Como os zumbis são capazes até mesmo de derrubar portas, você pode fortificá-las com madeira para que eles não consigam avançar. O problema é que esses bloqueios também podem significar sua morte caso você precisa escapar por aquele caminho. Toda estratégia de salvação também pode ser a causa de sua morte.

A luta pela sobrevivência

“Por quanto tempo você sobreviverá?”. É a partir dessa proposta que a Ubisoft coloca o jogador dentro de ZombiU e, mais do que ser apenas um convite para o Survival Horror, o slogan também apresenta a ideia básica de todo o game.

Img_normal
Como a missão de se manter longe dos dentes dos mortos-vivos não é nada fácil, você irá inevitavelmente ser mordido e morrer. Mas não pense que isso vai levá-lo à tela de Game Over ou coisa parecida: ao ser derrotado, a ação continua, mas dessa vez com um segundo sobrevivente.

Em tese, é como voltar ao último checkpoint, já que você tem apenas o kit básico de armas e itens e precisa refazer todo o caminho. O diferencial é que, ao chegar ao ponto em que você foi atacado, você encontrará o primeiro personagem caminhando em busca de algum cérebro para satisfazer sua fome e carregando todos os equipamentos em sua mochila.

Trata-se de uma solução simples e realista que funciona muito bem dentro da proposta do game. E para incentivar ainda mais a sobrevivência, ainda há um ranking online que destaca os jogadores que mais derrotaram infectados e que permaneceram vivos por mais tempo.

Mistura de gêneros

Embora toda a campanha seja focada no estilo FPS, isso não significa que a perspectiva é a única disponível em ZombiU. O modo multiplayer usa o GamePad muito bem ao criar uma mistura de gêneros diferente.

Img_normal

Enquanto o jogador que utiliza o Pro Controller — ou o Wii Remote, embora este não seja nada recomendado — controla um humano na TV, o segundo player usa a tela do híbrido para espalhar zumbis no cenário ao melhor estilo RTS. É preciso coletar energia para invocar mais mortos-vivos, que vão recebendo melhorias a cada novo nível.

As modalidades são bem simples, indo da básica luta pela sobrevivência até um Capture the Flag entre mortos e vivos. Em tempos em que os modos online cheiram a pólvora, a Ubisoft apostou em algo local e com uma fórmula diferenciada que funciona muito bem.

Personagens descartáveis

Como mencionado, o fato de trocarmos de personagens sempre que somos derrotados pelos zumbis é uma novidade muito bem-vinda a ZombiU. No entanto, ela não chega ilesa de problemas.

Por conta dessa troca quase constante, o jogo não consegue evitar que eles se tornem peças descartáveis em todo esse cenário tenebroso. Por mais que tenhamos um esboço de trama sendo apresentado no início do game, ele serve apenas como uma desculpa para termos vários sobreviventes e uma voz indicando para onde você deve ir.

Img_normal
Contudo, isso significa que em momento algum você se identifica com aquelas pessoas ou se importa com elas. Morrer se torna sinônimo de recomeçar e não perder alguém que faz parte daquele contexto, como a mecânica tenta sugerir — e isso apenas reforça o quão fraco e raso é o enredo principal de todo o título.

Para piorar a situação, a troca também não traz diferenças na jogabilidade. Controlar um bombeiro é exatamente a mesma coisa que estar no comando de uma dona de casa desempregada. Não há mudança nas habilidades ou no modo de usar uma ou outra arma. A única variação fica na reação de alguns deles, que serão mais escandalosos ou agirão com sangue-frio ao explodir uma cabeça.

Falhas maquiadas

A pergunta que não quer calar: como são os gráficos do Wii U? Se depender de ZombiU, o novo console da Nintendo ainda não conseguiu mostrar para o que veio. Ainda que haja alguns elementos realmente bem construídos, a simplicidade exagerada pode frustrar quem acredita que nova geração é sinônimo de visuais avançados.

A verdade é que o trabalho da Ubisoft na plataforma ainda fica abaixo daquilo que é feito no PlayStation 3 e Xbox 360, principalmente em termos de detalhes. A quantidade de texturas é mínima e é muito comum você encontrar objetos chapados em que há apenas uma única foto simulando algum efeito.

Img_normal
A modelagem também deixa a desejar. Enquanto tudo aquilo que fica em primeiro plano está muito bem construído, os elementos que deveriam ficar ocultos são um soco no olho de quem procura perfeição. Para ter uma ideia da deficiência, alguns carros exageram tanto na quantidade de polígonos que era nítida a junção de imagens prontas do farol e de demais componentes do veículo.

Por outro lado, a maioria desses defeitos é maquiada com uma densa camada de escuridão. Como tudo acontece à noite e a iluminação vinda de sua lanterna é fraquíssima, boa parte desses problemas acaba passando despercebida, sendo notada apenas por quem está realmente querendo testar o potencial do console.

90 wiiu
Excelente