Carmageddon: Reincarnation — testamos o retorno de Max Danger

Carmageddon: Reincarnation — testamos o retorno de Max Danger

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Carmageddon não é apenas imoral. Ou, pelo menos, não é imoral como seria um Grand Theft Auto ou um Saints Row. E isso simplesmente porque os atos de indecência aqui não são um meio para conquistar algo. Antes, o sadismo puro (tão puro que chega a ser caricato) é o próprio combustível — é a própria finalidade — do bando de sociopatas que varre as ruas com suas máquinas saídas das sobras de Mad Max. E, bem, sinta-se culpado, porque isso pode ser bem divertido.

Em uma era em que questões morais se tornaram bandeiras de guerrilhas online desprovidas de sentido certo ou consenso, é preciso reconhecer que entrar em um carro unicamente para atropelar velhinhas indefesas e pessoas “verdes” correndo por parques — sem se esquecer da polícia e dos demais competidores igualmente insanos — representa um raro prazer.

Dessa forma, enquanto alguns se amarram a árvores e outros exibem partes pudendas em ambiente público (isso é moral, certo?), o BJ resolveu enfiar o pé no acelerador do endiabrado carro do bom e velho Max Damage, em sua mais recente aparição. Anunciado, adiado, vendido e novamente protelado, Carmageddon: Reincarnation finalmente acabou por ganhar neste ano sua versão inacabada para testes, atualmente disponível no Steam via Early Access.

Dessa forma, embora seja difícil de ignorar a empolgação de ficar novamente atrás do volante mais nocivo da história do entretenimento eletrônico, é preciso também manter a cabeça fria, a fim de separar a diversão controversa das várias pontas soltas que ainda são bem perceptíveis na versão “em desenvolvimento” disponibilizada pela Stainless Studios. E há muitas delas.

Um novo velho jogo

Ao entrar no cockpit do Red Eagle, deixando de fora toda a mística forjada ao longo dos anos (sobretudo com a proibição do primeiro game em diversos países, incluindo o Brasil), a impressão que fica é a de um jogo consideravelmente datado. Texturas, estruturas, disposição de itens, tudo remete a gerações anteriores, à mais pura reciclagem.

Em outras palavras, enquanto alguns títulos mais atuais se ocupam de conferir algum realismo às arquiteturas de seus mundos virtuais, Reincarnation parece estender a irrealidade da sua proposta absurda — a de provocar o mais perfeito caos sanguinolento — ao formato dos seus desafios. Seja para deixar nas entrelinhas que “atropelar pessoas é errado” ou simplesmente por uma limitação técnica, fato é que tudo aqui evoca a ideia de um jogo, muito longe do status de realidade virtual.

Apesar disso, nunca é demais reforçar: a versão atualmente disponível no Steam é associada ao programa Early Access. Conforme descrito anteriormente, trata-se de uma versão intermediária, sabidamente cheia de coisas inacabadas, de bugs e de travamentos constantes em potencial — este que vos escreve, por exemplo, foi arremessado sem prévio aviso para fora do jogo pelo menos três vezes.

Simplório dos pneus às armas

Perto da jogabilidade de Carmageddon: Reincarnation, qualquer Need for Speed se parece com um simulador automobilístico. Quer dizer, a coisa toda aqui é tosca mesmo. Entretanto, longe de ser necessariamente um defeito, a pouca afeição às leis da física de Reincarnation não apenas encontra eco nos títulos anteriores da franquia como também em qualquer outro jogo cujo foco principal não seja a corrida.

Senão, basta considerar Twisted Metal, Vigilante 8 ou mesmo o próprio Grand Theft Auto. Afinal, se a ideia é fugir da polícia, destruir um inimigo com uma bazuca ou atropelar a maior quantidade possível de pedestre indefesos, seria no mínimo contraproducente precisar se preocupar coma marcha que está engrenada ou se você está na velocidade certa para “atacar” uma curva.

É claro que mesmo para o estilo arena Reincarnation ainda é um tanto simples. Além de alguns itens — de uma mola até um raio congelante — e boosts de velocidade, não há muito mais além de simplesmente jogar o carro sobre praticamente qualquer coisa que se mexa no cenário. Enfim, é Carmageddon, certo?

Carros desequilibrados

Mesmo para a jogabilidade direto ao ponto de Carmageddon, entretanto, é fácil notar que Reincarnation ainda tem várias porcas para apertar. E isso sobretudo no que se refere ao equilíbrio entre os diversos veículos e personagens disponíveis.

Embora o Red Eagle de Max tenha um desempenho bastante aceitável, boa parte dos carros mais focados em velocidade acabam sendo um tanto difíceis de guiar. Senão, fique com o desafio: tente manter o Annihilator do viking Vlad dentro das curvas; na verdade, contente-se em simplesmente arrancar sem acabar rodopiando após alguns poucos metros.

Imoralidade escancarada

“Retornar a uma vida em que você não acaba com órgãos internos nos cabelos?”, dispara o game, substituindo a tradicional pergunta “Sair do jogo?”. O mais curioso, entretanto, é que essa é provavelmente a única citação remotamente moral que você encontrará em todo Reincarnation. Isso porque, uma vez dentro do jogo, tudo é absoluta e escancaradamente imoral.

E isso a começar pelos desafios. Ok, é verdade que um jogador menos afeito a banhos de sangue pode vencer os demais pilotos simplesmente atravessando primeiro todos os checkpoints de uma corrida. Entretanto, você igualmente vencerá aqui se destruir todos os seus oponentes (à la Vigilante 8, só que um tanto mais rústico) ou se deliberadamente atropelar todas as pessoas do mapa — e há centenas delas.

Este jogo é para o seu bico?

Isso ofende a sua moral vigente no “mundo real”? Bem, então pule fora, porque Carmageddon: Reincarnation não é um jogo para você, assim como seu ancestral dos anos 90 também não teria sido. A quem puder absorver a sandice toda sem maiores sequelas, entretanto, há um título em perfeita sintonia com a proposta original da série — devidamente apimentado com conquistas do tipo “O fatiador de bacon”, por exemplo.

Talvez a pergunta acima também pudesse ser colocada da seguinte forma: você é capaz de digerir um humor negro que não faz questão nenhuma de se ocultar? Há exageros aqui, há personagens completamente destituídos mesmo do mais vago traço moral. Entretanto, ao final, parece pouco provável que qualquer um capaz de distinguir a “mensagem” da Stainless Studios possa se tornar mais apto a pegar o carro e destroçar corpos na via rápida mais próxima.

Isso porque, assim como ocorria no primeiro game, a violência e a nojeira são tão grandes que acabam por inviabilizar qualquer tipo de empatia com o mundo de jogo. E, francamente, é aí que está o charme de Carmageddon. É por isso que alguém com noções bastante claras de “certo” e “errado” ainda pode se divertir com esse velho colosso, rindo ruidosamente enquanto salta e aterrissa com o bólido cheio de facas sobre uma idosa com andador ou sobre um cachorro. É tudo muito exagerado, e isso é engraçado e — quase sempre — também é divertido.

Único em seu gênero

Mesmo correndo o risco de provocar a ira de alguns fãs mais antigos da série, é preciso reconhecer: Carmageddon jamais foi um grande jogo em termos de execução e qualidade técnica. Antes, o que sempre chamou a atenção foi a possibilidade de dar vazão a doses moderadas de sadismo em um ambiente quase completamente imoral (quase como assistir aos acidentes, execuções e mutilações daquela conhecida série de vídeos, provavelmente da mesma época).

Basicamente, o mesmo pode ser dito de Reincarnation. Mesmo que a versão final do game deva chegar apenas no mês que vem, parece muito pouco provável que o título disponibilizado traga um grande primor técnico — embora alguns bugs realmente aporrinhem um bocado, mesmo com o embalo constante do heavy metal.

Entretanto, basta controlar o bom e velho Max Damage por alguns metros para ver surgir no rosto aquele sorrisinho de canto de boca — esse é o efeito de Carmageddon, e é isso que um fã da série busca. E talvez esse seja o grande segredo: embora Reincarnation possa ter arestas aparadas para sua versão definitiva, no fundo, como um bom Carmageddon, o título corre sozinho em um espaço próprio, como inegavelmente sui generis (único em seu gênero).

Carmageddon: Reincarnation deve dar as caras no dia 21 de maio, com lançamentos previstos para PC, PlayStation 4 e Xbox One. Fique ligado para a análise completa do BJ. 

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