Coluna: geração FAIL! Estamos órfãos de jogos marcantes e reféns do hype

Coluna: geração FAIL! Estamos órfãos de jogos marcantes e reféns do hype

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Atenção: Este é um texto pessoal e as visões desta matéria não necessariamente refletem a opinião do TecMundo Games.

É difícil iniciar um texto cujo tema se mostra tão delicado. Ocorre que, em tempos de mais imitação do que de criação, uma necessidade gritante de escrever algo assim deve estar urgindo em todos nós. Aposto que vocês também se viram refletindo sobre este tema paradoxal, não é mesmo?

É um assunto que bota, na balança, aqueles dois pesos que nem sempre se entendem: quantidade e qualidade. A atual geração de video games é uma fartura na primeira opção, já na segunda... Bem, há controvérsias. As experiências memoráveis de outrora estão deixando de existir. No entanto, existem duas interpretações para isso, ou melhor, os dois lados da moeda: a indústria mudou e NÓS também mudamos.

Os jogadores “rançosos” de hoje, isto é, os calejados de plantão, conviveram com as melhores pérolas do final de 1980 e por toda a década noventista, se estendendo até este milênio. A infância acompanhada de Donkey Kong Country, Act Raiser, Super Metroid, Chrono Trigger, The Legend of Zelda: A Link to the Past e Ocarina of Time, Super Mario World, Flashback, Blackthorne e, avançando um pouco, Crash Bandicoot, Resident Evil, Parasite Eve, Vagrant Story, mais além ainda, Half-Life, Half-Life 2, Ico, Metroid Prime, e olha aí o Kingdom Hearts, God of War, Shadow of the Colossus...

Essa infância é hoje massificada por Call of Duty, Battlefield, Assassin’s Creed e milhões de outros mundos abertos transformados, em sua maioria, pelo gênero ação. Tudo vira ação hoje. Jogos de corrida têm ação. Simuladores têm ação. Até mesmo minigames dão um jeito de envolver mecânicas de ação. Descerebradas, na maioria das vezes.

Este não é mais um texto reclamão sobre a “geração remaster” ou a “molecada Call of Duty”. É apenas uma reflexão sobre como os jogos não provocam mais o mesmo impacto de outrora – fato acentuado, sobretudo, pela ausência dos pilares que serviram de alicerce para os grandes jogos do passado. E quais são esses pilares?

Shadow of the Colossus: emblemático

A mudança inconsciente e a massificação dos games

Nós mudamos. A indústria mudou. Os costumes são outros, a rotina é outra, os games estão massificados mundialmente, dentro dos hábitos de toda a população. Portanto, se antes havia uma preocupação em atingir um nicho, hoje há uma mobilização de equipes enormes que buscam entregar experiências à família inteira.

Isso é ótimo. Não somos apenas seres que vivem enfurnados em quartos atopetados de coisas nerds; temos preferências e direitos exclusivos e iguais aos de todo mundo. Pessoas que antes não “ligavam” para games hoje têm um PS4 ou um Xbox One na sala – e quem sabe um 3DS ou PS Vita para levar no bolso, além do celular (que hoje é uma plataforma crucial de jogos).

É preciso atingir um público maior. E, daí, bifurcam-se dois focos:

  • Agradar a galera hardcore, old-school, que está na busca eterna por experiências tão marcantes quanto as que tiveram no passado;
  • Agradar os novatos, também hardcore, que anseiam por coisas novas e empilham shooters e mundos abertos em suas prateleiras.

Qualidade e quantidade. Quantidade está ganhando disparada. E é engraçado como isso muda quem nós somos

Infelizmente, um lado eventualmente entra em conflito com o outro, o que fica evidente nos comentários (inclusive das matérias que postamos aqui, sim), nas discussões em fóruns e afins, nas postagens cheias de alfinetadas, no Twitter e por aí vai. É triste, mas nem todos querem se ver navegando no mesmo barco: o da diversão.

A indústria sabe disso. Ela sabe que, diante da necessidade de entregar uma proposta a milhões de jogadores, inúmeros outros estúdios estão fazendo o mesmo trabalho, com a mesma preocupação e o mesmíssimo intuito: agradar as massas. Que anseiam por lançamentos de peso, mesmo que tenham 20 ou 30 jogos intactos na prateleira. No caso do Steam, sabemos que menos da metade dos jogadores consomem tudo o que têm.

Parasite Eve: pérola do PS1

Portanto, há uma massificação dos games. Não obstante, eles buscam unir aqueles dois pesos quase que opostos, a qualidade e a quantidade. Mas é difícil. A quantidade está ganhando. Disparada. Causando o desequilíbrio da balança. Provocando o cambaleio da força. E é engraçado que isso muda até o nosso vocabulário, muda quem nós somos. Felizmente, os games (ainda) têm essa capacidade.

As palavras que incorporamos e nem percebemos

Engraçado que, nesse processo, alguns estrangeirismos vão sendo incorporados ao nosso vocabulário. Downgrade, upgrade, hype, hypar, upar, farmar, grindar, rushar, ganhar XP... Olha quanta coisa nova? No passado não era assim não.

O termo “hype”, por exemplo, tem algumas acepções do inglês para o português: “promoção”, “exagero”, “bombardeio publicitário”, “publicidade exagerada”. Ou seja, quando dizemos que estamos com “hype” por alguma coisa, é porque estamos “explodindo de ansiedade” por ela ou algo assim. Coisas modernas que nós, hoje, aprendemos a olhar friamente. Adianta ter hype para quebrar a cara lá na frente?

Se alguém me pergunta: “Qual é o grande jogo que faz valer esta geração?”, eu só consigo me lembrar de UM nome: The Witcher 3

Vocês devem estar se perguntando a mesma coisa, não é mesmo? Se alguém me pergunta: “Qual é o grande jogo que faz valer esta geração?”, eu só consigo me lembrar de UM nome: The Witcher 3. Assim, de primeira. Sem pensar muito, sem buscar lá no fundo. É importante frisar que não estamos no início desta geração; estamos na metade dela, três anos após o lançamento das novas plataformas. Ainda tem chão por vir, mas, a essa altura do campeonato, a geração passada já enriquecia nossas corações. Aguardemos.

The Witcher 3 é, definitivamente, o título que tem cara de atual geração. Robusto, completo e acima de tudo: correspondeu ao tão barulhento “hype”! Não só cumpriu todas as promessas como superou as expectativas. O que mais... Metal Gear Solid 5: The Phantom Pain? Capado, não é exclusivo da nova geração. E convenhamos: trouxe um mundo aberto com gameplay impecável, mas mostrou um monte de desgastes e furos de roteiro não vistos nos anteriores, hein? Bem, ao menos é a minha opinião.

Fallout 3 vs. Fallout 4: impactos muito diferentes

Que mais... Fallout 4, ok, longe de oferecer aquele impacto do 3, entediante, mas está aí. Bloodborne, esse sim, talvez tenha mais força para justificar a atual geração no lado azul da força. No lado verde, temos Halo 5: Guardians, o recém-lançado Forza Horizon 3, um lampejo com Sunset Overdrive.

É preciso tomar cuidado com o efeito “esquecimento”. Se ele existir, e isso é algo controlado pelo inconsciente de todos nós, a geração na qual estamos é, definitivamente, a geração “fail”. Ninguém nunca mais ouviu falar de Sunset Overdrive. Halo é igual a sanduíche de carne louca: só aparece nas festas. Forza, apesar da doçura, é um jogo de corrida. Mas todos se lembram e falam de The Witcher 3 como se o game tivesse sido lançado na semana passada.

Até mesmo Uncharted 4: A Thief’s End, o suposto suprassumo da Naughty Dog, foi tão rápido quanto as balas que Nathan Drake dispara na aventura. Aderência, meus irmãos e minhas irmãs. É preciso ter aderência. Resiliência, resistência ao tempo. É necessário ser à prova do hype e usar um colete que repele o efeito enjoativo. Nesta geração, nenhum outro jogo conseguiu fazer isso com mais maestria do que The Witcher 3.

Sunset Overdrive: ótimo, mas esquecido

Enquanto isso, na geração passada...

Vamos relembrar um pouco da geração passada só como exemplo, e porque ela é a mais recente. De cara, me surgem uns 12 nomes na cabeça: The Last of Us, BioShock, BioShock Infinite, Tomb Raider, God of War 3, Gears of War, Red Dead Redemption, GTA 5, Skyrim, Fallout 3, Ni No Kuni, Alan Wake.

O que mudou em nós? Ou na indústria? Há uma quantidade muito maior agora do que antes! É inegável constatar que elementos como gameplay e gráficos, ora xingados por alguns e ora venerados por outros, são, atualmente, parâmetros importantíssimos. Os quais, em muitos casos, sobrepõem a tão almejada “história”, hoje colocada num plano muito mais secundário entre os desenvolvedores.

Afinal de contas, multiplayers genéricos e microtransações vingam com mais rapidez do que elos de emoção, financeiramente falando. É bem possível que The Last Guardian consiga resgatar esse sentimento, mas... Todos notaram as críticas que o jogo tem recebido, certo? Inclusive de nós aqui do TecMundo Games; a receita emocional de Fumito Ueda está ali, mas todo o resto ficou lá atrás, tecnicamente defasado, preso a mecânicas do passado. E isso PESA hoje em dia, meus caros.

A maior prova de que esta geração é fail: ter ansiedade por remasters

Antes de mais nada, deixo aqui meu registro: acredito que as remasterizações sejam, sim, um ótimo caminho para introduzir franquias a jogadores que as desconheçam. Ao mesmo tempo, pode ser interessante revisitar aquela experiência marcante numa versão refinada.

O que pode gerar estranheza é a ansiedade – ou o “hype”, como ficar melhor – em torno do relançamento de um produto já existente no mercado. E vejam, até eu me peguei nesse sentimento! Quando a 2K anunciou a trilogia BioShock remasterizada, confesso que meu coração deu uma balançada.

Ni No Kuni: belíssima experiência da Level-5 no PS3

E o hype costuma ser assim: tem um início tímido, a partir do qual conferimos um ou outro vídeo, e cresce conforme o tempo passa, à medida que novas imagens e revelações são publicadas. Quando a gente se dá conta, não para de falar sobre o tal remaster – e já separou a suada graninha para adquirir o produto.

Se essa ansiedade por um item já existente está tão gritante, por um título que está apenas sendo relançado numa versão sutilmente refinada, é porque, meu amigo, as coisas não estão fáceis para ninguém – sobretudo para a atual geração de video games. Falta originalidade. Falta ansiedade pelo inédito, pelo novo, pelo original. O duro é quando essa novidade chega e frustra todo mundo porque não apresenta a competência que se esperava após todo o alarde marqueteiro. E tudo é adiado, e tudo vai pra 2017, 2018, 2019. Ou é cancelado. E assim o looping vai.

O ciclo é esse. O mundo é assim. Nossos cérebros produzem as informações com imediatismo, que rapidamente são absorvidas e se dilatam em algum cache perdido da nossa memória curta ou média. Longa? Raramente.

Esqueça logo e troque de jogo, tem outros 914 para você jogar.

Resete e mude o disco.

Releia as duas últimas frases.

Repita o processo.

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