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Entrevista: conversamos com os criadores do game Never Alone

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O game Never Alone é uma das gratas surpresas de 2014. O título foi desenvolvido pela Upper One Games e traz à tona a possibilidade de utilizarmos jogos de vídeo game como elementos de difusão da cultura de um povo. Esse foi o caminho escolhido pelos Iñupiaq, povo nativo de uma região do Alaska, considerada um dos lugares mais isolados do planeta.

Em nossa análise de Never Alone, destacamos a maneira como a jornada interativa proposta para contar a história desse povo funciona muito bem, trazendo uma bagagem cultural significativa para o jogador. Nem mesmo a mecânica de jogo relativamente frágil no modo single player e a curta duração da aventura são empecilhos que para que você deixe passar a oportunidade de conferir o game de perto.

Para conhecer ainda mais sobre o universo relacionado ao desenvolvimento de Never Alone, conversamos por email com Alan Gershenfelg, presidente da E-Line Media, empresa responsável pela distribuição do game, e com Amy Freeden, embaixadora cultural líder do Cook Inlet Tribal Council, que representa a cultura do povo Iñupiaq. Confira como foi a conversa.

TecMundo Games (BJ): Quais foram as principais motivações para contar a história dos Iñupiaq em forma de um jogo de vídeo game?

Amy Freeden – Sou Iñupiaq. Como uma organização tribal pioneira no Alaska, o Cook Inlet Tribal Council (CITC) estava procurando uma maneira de financiar formas de conectar o povo nativo do Alaska ao seu potencial. Queríamos também encontrar uma maneira de nos conectar com nossa juventude e difundir a nossa cultura pelo mundo. Um dia, durante um almoço, Gloria O’Neill, CEO do CITC, sugeriu: “porque não usar os games?

Histórias tradicionais têm sido usadas ao longo dos anos para transmitira sabedoria de uma geração para outra. Nós queremos explorar como os vídeo games podem ser utilizados como um novo meio para compartilhar, celebrar e expandir nossa cultura e tradição de contar histórias. Como não sabíamos como fazer jogos, procuramos o que havia de melhor na indústria e estivesse alinhado com a nossa filosofia e fundamos a E-Line Media.

Alan Gershenfelg – Sou um veterano na indústria dos games. Entrei na Activision no início dos anos 90 e fui parte da equipe que reergue a empresa da falência até que ela se tornasse uma das líderes do mercado atual. Depois da Activision me tornei presidente da Games for Change, uma associação beneficente que tem como objetivo ajudar o setor de jogos a ter mais impacto social. Nosso modelo é de parceria com universidades e fundações, visando levar ao mercado jogos que tenham como objetivo não apenas o lucro, mas um impacto positivo na sociedade.

TecMundo Games (BJ) – Como foi o desenvolvimento do jogo? Quanto tempo foi necessário desde a criação da história até a escolha das mecânicas ideais para transpor essa ideia?

Amy Freeden – Todas as mecânicas de jogo foram inspiradas nas histórias tradicionais do Alaska. Temas-chave que são abordados no jogo incluem a interdependência, a resiliência e as trocas entre as gerações. O jogo tem modos de um e dois jogadores, mas em ambos Nuna e Fox precisam trabalhar em conjunto para avançar no jogo, reforçando o tema interdependência. O jogo inclui ainda 24 minidocumentários, que chamamos de “insights culturais”, que são desbloqueados à medida que o jogador avança.

Alan Gershenfelg – O projeto com três meses de pesquisa em que estudamos como as culturas indígenas são representadas em outras mídias, como filmes, livros e músicas.  Então nós estudamos os sucessos de games independentes como Journey, Limbo, Minecraft e Braid. Todo o processo de criação do jogo demorou entre dois e dois anos e meio.

TecMundo Games (BJ) – Vocês acreditam que o exemplo de Never Alone pode encorajar outras culturas a apresentar suas histórias em forma de jogo?

Amy Freeden – Sem dúvida. Desde que lançamos o primeiro trailer do jogo nós nos aproximamos de outras culturas e desenvolvedores interessados em criar jogos para celebrar e compartilhar a cultura deles. Nós estamos conversando com diversos grupos ao redor do mundo e considerando novas parcerias para um próximo jogo. A chave é encontrar culturas e equipes de desenvolvimento de jogos que acreditem uma jornada colaborativa e inclusiva.

Alan Gershenfelg – Além de trazer novas culturas para o desenvolvimento inclusivo, também temos planos de levar Never Alone para outras plataformas no próximo ano e explorar outras histórias do povo do Alasca por meio dos jogos. Outra ideia que surgiu também é a de realizarmos workshops com jovens das tribos Iñupiaq para que eles também aprendam a desenvolver jogos e possam contar suas histórias às próximas gerações.

TecMundo Games (BJ) – Qual a expectativa da publisher com relação a este jogo? Vocês planejam publicar mais títulos como esse?

Alan Gershenfelg – Nossa expectativa é que o game seja divertido, envolvente e enriquecedor para todos os jogadores, É claro, esperamos que ele seja lucrativo para que possamos desenvolver mais títulos em parceria com a CITC. Agora que criamos um estúdio com essa finalidade nossa expectativa é a de explorar mais culturas e histórias.

TecMundo Games (BJ) – Como tem sido a receptividade do povo Iñupiaq com relação ao jogo? Eles já tinham algum conhecimento do alcance desse mercado?

Amy Freeden – Tem sido excitante para nós vermos como os Iñupiaq abraçaram a ideia do jogo. Recentemente nós apresentamos o jogo na Elders & Youth Conference, um evento da Alaska Native Elders & Youth, e foi incrível ver a reação das pessoas. Nós exibimos o trailer do jogo e jovens e idosos presentem na sala se iluminaram ao ver um pedaço da história deles na tela. Eles tiveram ainda a oportunidade de sentar e jogar um pouco e foi maravilhoso ver como eles interagiram com o título. O jogo tem feito uma conexão profunda com os Iñupiaq.

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