Match Point: uma luta para ser lembrada

Match Point: uma luta para ser lembrada

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Era uma ordinária tarde de torneios com os amigos. Tal momento é organizado para, de tempos em tempos, celebrar a amizade e a cultura dos descontraídos campeonatos de games, em sua maioria envolvendo jogos de luta. Veja isso como um retiro espiritual: tomamos o rumo da rota dos tropeiros e desembarcamos na tranquilidade do interior do Paraná para nos reunirmos em alguns dias de comunhão. Mas não buscamos a paz. Pelo contrário: a condenamos com os gritos de celebração e a nostalgia de músicas nacionais dos anos 90.

Recentemente finalizamos nossa décima reunião, mas conto-lhes da que mais me marcou, quando nos reunimos em apenas um dia de 2008.

Era o tempo em que realizávamos poucos torneios. O tempo aberto convidava para sair, mas éramos fiéis ao compromisso. Ao acompanhamento de um bom churrasco e de muita Coca-Cola, os torneios começaram. Eram jogos de luta: as partidas terminavam sem muitas delongas, principalmente no estilo pouco paciente de meus amigos. Estratégia, posicionamento, controle de espaço? Dane-se tudo, quero é ver magias na tela.

E assim finalizamos alguns torneios, chegando à esperada atração — se é que podíamos ter atrações em meio àquele caos — daquela tarde: o torneio de Capcom vs. SNK 2.

Coloque a ficha e vamos lá!

Este game, em particular, era muito jogado pelo pessoal nessa época, em especial pelo nosso amigo Digão. Não que eu realmente fosse bom em jogos de luta, mas ao nível desses torneios descontraídos e entre amigos — que mal considero um real nível competitivo — eu sempre me destaquei. Meu interesse pelos jogos eletrônicos competitivos sempre resultou um certo conhecimento nessa área dos jogos de luta, colocando-me um pouco à frente quando sentávamos para jogar valendo a próxima vaga no torneio. Mas a teoria é diferente da prática, e aquela partida, final daquele campeonato, mostrou-me o quanto o conceito “jogar para vencer” pode ser emocionante.

Não era meu primeiro torneio, mas pela primeira vez eu sentei e senti a pressão dos primeiros segundos de um embate genuinamente competitivo. Da igualdade por ambos os competidores.

A expectativa tomou o local como um tiro. O silêncio assaltou a euforia que há segundos era comum daquelas reuniões. O clima estava anormalmente tenso, e a atenção estava centralizada naquela televisão que interpretava os comandos de meu controle e do Diego.

Não era como uma partida casual — daquelas que você simplesmente bota a culpa no controle, passa para o próximo da rodinha e vai buscar mais Coca-Cola. As pessoas ali presentes realmente concentravam-se na análise e na torcida de cada movimento seu e de seu adversário. O clima consumia cada movimento, realçando o desespero de cada ataque defendido. Ampliando a claustrofobia de sua zona de segurança.

Minha mente foi jogada em um estado de adrenalina contagiante. Era uma melhor-de-três, e meu primeiro trio foi batido por apenas dois personagens de meu adversário. Era necessário reduzir minha taxa de erros. Urgentemente.

Apostei então em uma formação mista: dois personagens de boa ofensiva, Balrog e Sagat, fechando com Guile — o mais defensivo do jogo. Sempre foi interessante observar, nesse time, que a ofensiva inicial invertia-se nos momentos finais da partida, quando escondia meu ritmo e tomava uma posição defensiva. Isso dava a ligeira sensação de vulnerabilidade e provocava o adversário aos erros do ataque.

Lembrei-me desta escolha, anos mais tarde, quando li de um sábio estrategista chinês que “a invencibilidade é uma questão de defesa, a vulnerabilidade, uma questão de ataque”. Palavras de Sun Tzu, de milênios atrás até hoje ajudando os gamers mais teóricos.

O oponente, principalmente na formação constante de Digão (Ryu, Ken, Akuma; o clássico), pode continuar apostando na ofensiva e abrindo brechas, levando algum tempo para adaptar-se a essa troca de estratégia. Sei que isso não funciona efetivamente em alto nível — onde os jogadores moldam-se em questão de segundos — mas foi suficiente para manter-me naquela final. A vitória foi minha na segunda partida.

O problema acirrou-se quando meu oponente também adotou o estilo de poucos riscos. A clássica posição do jogador que não quer nada a perder; que como dizia Seth Killian, “joga para vencer”. Tudo estava ampliado pelo clima silencioso e investigativo, atingindo neste momento níveis cada vez mais estremecedores. Cada movimento de meu personagem era seguido por um desespero interno, uma prece interior que pedia que a leitura que fiz do adversário estivesse certa e que me desse um alívio temporário.

Para minha própria satisfação — sim, eu realmente estava curtindo aquele momento —, a situação atingiu seu ápice de emoção, seu cúmulo de nervosismo nos jogadores e na plateia ali presente. Restou-nos apenas o personagem final. Era tudo ou nada, ganhar ou perder. A vitória estava no vencedor daquela última luta.

Ouviam-se os gritos contidos de emoção dos que assistiam atrás de mim enquanto os segundos mergulhavam em minha mente. E lá estava eu procurando freneticamente por uma brecha em meio aos passos que a todo momento denunciavam a ofensiva adversária. A movimentada dança que se exibia na tela mal denunciava a inquieta investigação mental que ocorria naquele curto espaço de tempo.

Pela primeira vez na vida consegui enxergar as dezenas de possibilidades que meu adversário dispunha naquele momento e lentamente cerquei cada uma delas, controlando-me ao máximo para que naquele momento não cometesse erros. Tudo em nome da máxima dedicação por aqueles segundos congelados em êxtase.

Finalizei aquele round com pouco menos da metade da vida, aliviando não só o meu fôlego como a de todos que estavam naquela sufocante garagem. Suspiros. Risadas. E fomos beber mais refrigerante.

Tenho certeza que teria aprendido cinco vezes mais se tivesse perdido aquela partida. Nós evoluímos quando erramos, principalmente nesses momentos críticos. Assim vivem os jogadores profissionais: vencendo, perdendo e lapidando seu conhecimento. Sempre estão em busca do mais forte.

E, quando chegar a batalha mais emocionante da sua vida, talvez vocês entendam com perfeição todos esses sentimentos. É inesquecível. Ficará pra sempre em sua memória, assim como essa música.

O Match Point é um espaço no TecMundo Games dedicado para discutir o eSport e os games competitivos diariamente, trazendo estratégias, curiosidades, campeonatos e jogadas inesquecíveis dos mais diversos títulos.  

A crônica de hoje foi originalmente publicada no projeto acadêmico do autor chamado Jogo Sério. A emoção deste momento, no entanto, resistiu ao tempo e mereceu ser contado no Match Point desta quinta-feira.

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