Resident Evil 4 e a dificuldade adaptativa: um segredo vital para divertir

Resident Evil 4 e a dificuldade adaptativa: um segredo vital para divertir

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Toda nova jornada em um jogo tem um começo padrão. Quase como um ritual, nós colocamos o disco – ou nos moldes atuais, esperamos o download da loja digital – sentamos, nos acomodamos, pegamos uma Coca gelada e iniciamos a aventura. Como é de praxe, apertar o botão Start é, muitas vezes, essencial, assim como escolher a primeira decisão impactante da experiência: qual dificuldade selecionar?

Pode parecer algo simples, mas não é. Optar pelo nível de desafio errado pode ser como começar o dia com o pé esquerdo. A experiência geral está ali, mas pode ocorrer de uma forma que é frustrante ou entediante, com um ritmo muito cadenciado que, normalmente, não teria. Em Resident Evil 4, por exemplo, há duas opções: escolher a dificuldade Normal ou Fácil. Porém, há algo a mais, e você provavelmente não sabe (e isso é ótimo).

Como o game acaba de ganhar uma remasterização para PS4 e Xbox One, nada melhor do que usá-lo de exemplo.

Game design e a dificuldade adaptativa

Nesta matéria, é imprescindível a divisão do assunto em dois blocos para a compreensão total. Primeiro, vamos comentar sobre o game design. Diferente do que o nome possa sugerir, ele não está relacionado à direção de arte de um jogo, mas sim com as suas mecânicas, jogabilidade, conceitos etc.

Esse é o fluxo de habilidades/dificuldade que a psicologia usa

Há muito para ser explorado nesse assunto, mas vamos focar apenas a questão sobre dificuldade em games. Os profissionais que atuam neste segmento de desenvolvimento pensam em experiências que mantenham o jogador em um “fluxo” (guarde essa palavra) de diversão ou entretenimento constante, ou seja, não fique entediado ou frustrado com o que está acontecendo na tela.

O conceito de fluxo vem da psicologia criado pelo doutor Mihaly Csikszentmihalyi  Trata-se de um gráfico que mede o nível de habilidade com a dificuldade de uma tarefa, tudo para mensurar a ansiedade e a tendência da cobaia a ficar entediada. Esse conceito também é utilizado nos títulos interativos para consoles. O nome foi até mesmo homenageado por uma obra que abusa dessa mecânica: flOw.

O mesmo conceito é utilizado nos jogos

Por conta disso, os game designers tentam balancear o máximo que conseguem a jogatina, mas não é uma tarefa fácil e muito menos 100% precisa. Não tem como agradar a todos os gregos e troianos: um jogador habilidoso pode se entediar no começo e nunca chegar nos desafios da metade de um game, enquanto um jogador mediano pode optar por inicar a aventura no difícil (quem sabe para pegar uma platina mais rápida?) e se frustrar no meio do caminho.

Nesse momento, surge a dificuldade adaptativa, um conceito ainda mais árduo de ser aplicado, mas muitas vezes mais agradável ao usuário. Alguns jogos mantêm isso escondido, enquanto outros escancaram e jogam na cara do público que ele está utilizando esse recurso especial. Por ora, vamos focar em Resident Evil 4.

Resident Evil 4 é um dos jogos que utiliza o conceito de maneira mais inteligente

Resident Evil 4 e o seu sistema de dificuldade genial (e secreto)

Agora, vamos ao principal: o que a dificuldade adaptativa tem a ver com Resident Evil 4? A resposta é: tudo. Esse conceito é tão forte no game que, possivelmente, você só teve uma experiência agradável e épica com um dos jogos mais bem-conceituados da história por conta dela. Portanto, chega de enrolação e vamos ao que interessa.

Independente do nível de desafio que você escolha no início da aventura de Leon S. Kennedy, você não vai jogá-lo integralmente da maneira que foi planejado. Acontece o seguinte: toda vez que o jogador morre ou recebe danos em excesso, o sistema automaticamente facilita, mesmo que sutilmente, os obstáculos que você enfrenta. Quanto mais isso ocorre, mais fácil a experiência fica.

Em Resident Evil 4, a dificuldade sempre vai se adaptar: seja por você estar jogando bem ou mal

A parte interessante é que o oposto também existe. Ou seja, se você for um jogador exímio que só acerta headshots, esquiva todos os golpes de Ganados e tem uma jogatina impecável, o game não vai deixar barato e com certeza atrapalhará a sua vida. Pode parecer estranho, mas isso é crucial para que o gamer habilidoso não se sinta entediado e largue a campanha.

Lembra-se quando em Resident Evil ou Resident Evil 2 você salvava em um ponto no qual não tinha mais ervas e munição, mas tinha um chefe difícil para enfrentar? Ou você ganhava habilidades sobre-humanas na faca para vencê-lo ou deveria voltar em um save mais antigo (às vezes, até recomeçar a jornada).

Contudo, o que exatamente é facilitar ou dificultar a jogabilidade? Basicamente, é diminuir o número de inimigos de forma inteligente (como retirar os snipers primeiro e reduzir aos poucos os demais oponentes), aumentar o surgimento de ervas de cura e munição, acrescentar a chance de headshots críticos (daqueles que explodem cabeças) e por aí vai. Ou o oposto, deixando tudo mais complicado para o jogador, também ocorre. Você pode ver como exemplo as imagens acima.

Essa mecânica também evita colocar o jogador em uma situação impossível de se passar, como ficar sem recursos para passar um chefe e ter que voltar em um save antigo

A parte mais interessante é que você não pode auto-infligir dano para que esse efeito seja desencadeado. Ou seja, tacar granadas nas paredes e morrer de propósito não funciona. Para deixar a aventura mais fácil, speedrunners recebem golpes de propósito e erram QTEs para conseguir terminar a campanha ainda mais rápido.

A grande cereja do bolo dessa mistura incrível é que, provavelmente, essa informação é uma novidade para você. Certamente, a parcela majoritária das pessoas que vai ler esta matéria não sabia disso. Porém, isso não é ruim, pelo contrário: é o que faz ser ainda melhor. No caso de dificuldade adaptativa, geralmente é melhor deixar assim, como segredo.

Algumas coisas devem ser mantidas em segredo para divertir

No caso de Resident Evil 4, a Capcom decidiu manter a informação longe do conhecimento geral. A característica peculiar que nivela a dificuldade do game não foi exposta em entrevistas, não foi anunciada em trailers e nem comentada pelos desenvolvedores. Esse dado foi revelado apenas um ano depois no guia oficial do game.

Alguns títulos escancaram essa dificuldade adaptativa e fazem questão de demonstrar que o jogador está utilizando um recurso que o auxilia. A Nintendo é mestre nisso: Donkey Kong fica prateado, Mario ganha uma roupa branca e fica invencível, e Yoshi ganha asas. Metal Gear Solid V aborda de uma forma diferente: Snake fica muito mais forte e resistente, mas ganha um chapéu de galinha que é obrigatório usar.

O grande problema disso? O jogador se sente subestimado ou vê isso como uma forma de humilhação. Ninguém quer ser o “café com leite” que perde muito e precisa de um arrego. Na maioria das vezes, é mais fácil que o usuário recuse essa facilidade e continue tentando, culminando em repetidos fracassos que o fazem desligar o título e tentar outro dia. Um dia que, muitas vezes, pode nunca mais vir.

Essa é a grande genialidade que jogos como Resident Evil 4, Resident Evil Umbrella Chronicles, Max Payne, Left 4 Dead, God Hand e Need For Speed Underground utilizam para usufruir da mecânica avançada. O que é melhor? Falar para um amigo que passou de um nível difícil depois de tentar diversas vezes ou que arregou e precisou facilitar o processo?

Left 4 Dead tem um sistema que mensura o nível de estresse de um jogador que pode diminuir a população de zumbis e as hordas caso as coisas estejam apertadas

Pensem nisso: essas coisas servem para ficar escondidas para o bem da diversão. Os games que fazem isso com maior maestria são os que menos vamos desconfiar e jogar com maior prazer. Trata-se de algo difícil de implementar pelo desenvolvedor, mas que traz recompensas maiores ao público. Você já sabia sobre isso? Conhece mais algum jogo que utiliza essa mecânica? Colabore com a gente nos comentários.

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