Um jogo tão sofrível quanto a vida eterna

Você já deve ter percebido que, no mundo dos games, é realmente complicado surgir uma ideia completamente original. É o famoso “Nada se cria, tudo se copia”. Também pudera, já que a quantidade de títulos lançados anualmente faz com que seja complicado o desenvolvimento de algo realmente inédito.

Não que essa “inspiração” seja negativa. Alguns lançamentos são claramente baseados em outros, mas possuem pontos tão marcantes que conseguem criar uma identidade própria e até mesmo superar o original. Uncharted é o maior exemplo disso, pois possui muitas marcas de Tomb Raider, mas trouxe elementos tão únicos que tornaram Nathan Drake tão icônico quanto Lara Croft.

Por outro lado, há aqueles jogos que tentam reaproveitar fórmulas de sucesso, mas caem na mesmice. É o caso de Knights Contract, que reúne tudo aquilo que agradou aos jogadores em games recentes e dá origem a um dos títulos mais fracos desta geração.

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Mais do mesmo

Pegue alguns jogos Hack'n'Slash que abalaram a indústria nos últimos anos: God of War 3, Devil May Cry 3 e Bayonetta. Agora, misture-os bem e você terá esta aventura desenvolvida pela Game Republic, que se destaca exatamente pela falta de identidade e pela grande quantidade de falhas.

Como dissemos, não há mal algum em reaproveitar a jogabilidade dos clássicos. Se eles deram certo, é porque tinham algo grandioso a oferecer. Inspirar-se nos modelos certos é uma ótima dica para quem quer obter relativo sucesso. Contudo, de nada adianta juntar essas características sem oferecer o principal: a diversão. É exatamente nesse ponto que Knights Contract falha.

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Que teríamos um God of War genérico, ninguém duvidava. Desde que os primeiros trailers foram divulgados, era nítido que a mecânica de esmagar botões iria permanecer – o que esperar de um protagonista grandalhão equipado com uma arma gigantesca?

Porém, o mínimo que você deseja é ver algo que sirva como diferenciação. O problema é que a Game Republic não se deu ao trabalho de tentar inovar ou adicionar pontos que fizessem com que Knights Contract se tornasse interessante. O que vemos, infelizmente, é um amontoado de clichês e de problemas.

Knights Contract é o típico jogo que tinha muito potencial, seja pela história diferente, pela proposta interessante ou por utilizar uma jogabilidade já consolidada. Porém, mesmo sendo claramente inspirado em títulos de sucesso, a Game Republic errou a mão e oferece uma aventura mediana repleta de problemas.

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Não vamos dizer que o game não possui seus méritos. A imortalidade de Heinrich é muito bem aplicada e gera situações divertidas, assim como a combinação de poderes com a bruxa. No entanto, os destaques param por aí e dão lugar a uma variedade de falhas e decepções.

A criação consegue decepcionar até mesmo quem esperava encontrar um Hack‘n’Slash mediano. A única grande conquista de Knights Contract é deixar o jogador com vontade de reviver a experiência de God of War ou de tirar a poeira do PlayStation 2 com Devil May Cry 3.

“Mate-me, por favor”

Apesar de muitas falhas, não podemos negar que o jogo possui seus méritos – mesmo sendo poucos. A história é um deles, principalmente por trazer um conceito pouco utilizado dentro do mundo dos games: a imortalidade do herói.

A trama tem início em meio a uma das maiores catástrofes da Idade Média. A Peste Negra matou cerca de um terço da população e, por conta do fanatismo religioso da época, todos creem que as bruxas são as responsáveis pelas mortes. Por conta disso, a Igreja Católica permite que o Tribunal do Santo Ofício comece uma caçada às feiticeiras na tentativa de acabar com aquele mal e acalmar os ânimos das pessoas.

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No meio desse turbilhão de informações, temos Heinrich, um carrasco cujo trabalho é pôr um fim naquelas malignas mulheres. No entanto, o que ele não sabe é que elas estavam ajudando o povo a combater a Peste – o que significa que, por muito tempo, ele decapitou e queimou centenas de inocentes. Por conta disso, uma de suas “vítimas” o amaldiçoou com a vida eterna antes de ter sua cabeça separada do restante do corpo.

Voltamos a encontrar o protagonista cem anos depois, já repleto de cicatrizes e cansado de esperar que a morte o visite. Para acabar com seu sofrimento, ele tenta encontrar uma bruxa capaz de quebrar o feitiço. Ele acredita que tudo será terminado ao encontrar a bruxa Gretchen – a mesma que o puniu há um século. O problema é que, para conseguir sua redenção, ele precisará iniciar uma nova caçada às detentoras da magia.

O mais interessante disso é a forma com que esses acontecimentos influenciam a jogabilidade. Isso porque a imortalidade de Heinrich é muito bem aproveitada dentro dos combates. Você não verá a tela de “Game Over” mesmo se for atacado incessantemente ou cortado ao meio.

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É claro que isso não impede a falha. Por conta de sua parceria com a feiticeira, ela irá acompanhá-lo em sua jornada e estará vulnerável a uma série de riscos – com o detalhe de ela ser uma mortal como qualquer indivíduo comum. Sendo assim, sua missão deve ser eliminar todos os monstros que surgirem pelo seu caminho e, ao mesmo tempo, proteger a donzela.

Dentro de um Hack‘n’Slash como Knights Contract, a liberdade proposta pela maldição do protagonista é muito bem-vinda, pois permite que o jogador esmague os botões de ataque sem se preocupar com sua barra de energia. Por mais que seja preciso estar atento ao medidor de Gretchen, isso não impede que você libere toda sua brutalidade na hora de fazer sua foice destruir alguns inimigos.

Trabalho em equipe

Outro ponto é a existência de uma parceira de batalha. Como o título é construído em torno do pacto entre a bruxa e seu carrasco, a ação conjunta da dupla é fundamental e um dos poucos pontos realmente inéditos do game. Se em God of War e Devil May Cry já existia uma diferenciação entre investidas físicas e mágicas, em Knights Contract isso é ainda mais evidente, pois temos um personagem responsável por cada natureza de golpe.

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Sendo assim, Heinrich cuida de destroçar fisicamente os monstros com sua enorme foice, enquanto Gretchen faz a cobertura com diversos ataques especiais. O mais divertido de tudo é que você pode tanto utilizar as habilidades da moça com base nos padrões da inteligência artificial quanto ordenar o momento em que elas devem ser ativadas.

Outro ponto são as almas dos adversários derrotados que são enviadas para a feiticeira, o que permite evoluir suas magias. O funcionamento é exatamente o mesmo adotado em franquias maiores, o que significa que a estrutura continua funcionando bem. A única diferença é que o usuário pode definir o nível de cada poder, independente do fato de ele estar no máximo ou não – o que dá maior possibilidade para as batalhas.

Além disso, há uma combinação de forças ainda mais poderosa, capaz de transformar seu personagem e ampliar sua força. Existem duas formas de união: na primeira, Heinrich é beneficiado com a magia de Gretchen, o que faz com que o carrasco tenha sua aparência modificada e seus golpes ainda mais potencializados. Sua velocidade também é aumentada, o que faz com que os monstros fiquem paralisados por um tempo enquanto você os destroça com sua arma.

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Já o modo avançado da bruxa é ainda mais fantástico e útil. Ao ativar seu poder mágico, a feiticeira vai ao plano astral e assume proporções colossais, o que permite esmagar todos adversários de uma só vez.

Sem identidade

Como dissemos no início desta análise, Knights Contract peca por não possuir uma identidade própria, sendo fácil perceber de onde cada característica foi retirada. Porém, esse não é o problema. A grande falha do jogo é não saber reunir todos esses elementos de modo interessante e capaz de entreter o jogador.

Por mais que a Game Republic tenha se inspirado em God of War e Devil May Cry para criar a jogabilidade do título, o melhor de cada franquia não foi aproveitado. As lutas são empolgantes e divertidas, principalmente por conta da combinação entre ataques físicos e mágicos. No entanto, bastam alguns minutos para você se cansar da falta de desafios e da eterna repetição existente.

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Tudo o que você precisa fazer é avançar e destruir seus inimigos. Apenas isso. Não há exploração de nível ou puzzles a serem resolvidos. A única exigência é encontrar o caminho correto em meio ao labirinto de vielas e estradas, derrotar tudo o que aparecer na sua frente e enfrentar um chefe gigantesco. É como se você resumisse as fórmulas dos games citados e pegasse somente o básico – ou a parte chata, se preferir.

Desnecessário dizer que isso logo se torna cansativo em pouco tempo. Para piorar a situação, temos uma narrativa irritantemente quebrada, o que faz com que o jogo perca completamente o ritmo. Para cada ação diferente de andar ou atacar, há uma tela de carregamento de dados. Vai interagir com o cenário? Loading. Derrotou todos os monstros? Loading. Quer desistir de jogar e procurar algo melhor para fazer? Loading.

Por fim, há os irritantes quick time events. Embora a ocorrência desses eventos curtos tenha se tornado cada vez mais frequente em títulos recentes, a Game Republic conseguir complicar a estrutura e fazer com que o QTE seja uma das partes mais irritantes de Knights Contract.

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O pior é que ele é encontrado ao fim de cada batalha contra um chefe. Ao acabar com a barra de energia do monstro, você deve esperar o processamento das informações para poder apertar os botões apresentados nos momentos certos. Isso até não seria um problema se os comandos respondessem com precisão, mas não é o que acontece na prática. Usar a alavanca analógica é um desafio à parte e, caso falhe, faz com que você volte e tenha de derrotar o adversário novamente.

Cenários deprimentes

Quantos filmes você já viu que são ambientados em plena Idade Média? A escolha de Hollywood de trazer a temática medieval não é somente pelo fato de os produtores gostarem do assunto, mas pelo grande leque de possibilidades que o período oferece. E nada disso é aproveitado em Knights Contract.

A começar pela própria Peste Negra, que deveria ser vista como um grande mal, mas não passa de uma desculpa para fazer com que as bruxas sejam caçadas. Com exceção disso, a doença é posta de lado e descarta todo o potencial existente.

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Além disso, os próprios cenários deixam muito a desejar. A sensação que temos é de que a desenvolvedora esqueceu-se completamente de adicionar os detalhes no ambiente, deixando-o incrivelmente sem graça. Na primeira cena, por exemplo, temos uma visão panorâmica de uma cidade devastada e a única coisa que se destaca são as superfícies chapadas que tentam simular algum tipo de relevo. Maior prova disso é o relógio, que parece ter sido desenhado sobre a pedra.

Outro problema é a pouca criatividade no design dos níveis. Tudo é completamente igual, o que faz com que você se perca com bastante frequência. A falta de pontos de referência – assim como o mapa que simplesmente não ajuda – torna a pouca exploração algo irritante, chato e extremamente cansativo.

Aula sobre como NÃO fazer um jogo

Trabalhar com games exige que você tenha um conhecimento bastante abrangente sobre os títulos existentes no mercado. Entretanto, mais do que acompanhar os bons lançamentos, também é preciso conferir aqueles que você sabe que serão ruins. São esses jogos que vão mostrar como funcionam as falhas, pois os problemas certamente vão saltar aos olhos. Se você pretende seguir esse caminho e quer economizar tempo, a dica é jogar Knights Contract, pois ele consegue reunir todos os erros técnicos em um só lugar.

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A começar pela já comentada construção dos cenários. Como dito anteriormente, não há nenhuma superfície realmente convincente. Tudo é muito artificial, o que atrapalha a imersão no clima de devastação da Europa Medieval. Mais do que isso, a própria modelagem dos edifícios e de outros elementos deixa a desejar e chega a ser motivo de piada.

Para ter uma ideia do nível de precariedade, o desabamento de prédios pode ser facilmente comparado com pedaços de isopor caindo em uma maquete. O mesmo pode ser dito de paredes sendo destruídas e até mesmo pedaços de madeira que voam em meio à destruição causada por sua foice. Chega a ser ridículo.

A modelagem de personagens secundários e inimigos mais fracos também é patética. O início da primeira fase é o maior exemplo disso, pois os corpos espalhados mais parecem bolas de carne do que cadáveres. Se você tentar olhar com um pouco mais de atenção para eles, vai perceber a grande quantidade de polígonos e a falta de qualquer detalhe – algo que faz com que Knights Contract fique abaixo de muito jogo do PlayStation 2. Isso sem falar no fato de os zumbis simplesmente caírem de cima das casas sem a menor explicação.

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Vários problemas técnicos incomodam sua jornada. O clipping (quando um objeto simplesmente entra em outro) é o mais comum, principalmente com os acessórios do protagonista. Além dele, também há uma grande quantidade de screen tearing, o que faz com que os quadros simplesmente não se encaixem e tenhamos imagens deformadas, mesmo que por apenas alguns segundos. Isso sem falar na inteligência artificial inexistente, o que faz com que Gretchen tenha uma tendência suicida de se jogar no meio do perigo.

A falta de anti-aliasing é uma categoria à parte. Lembra-se de todos os artigos postados no Baixaki Jogos sobre o tema? Pois parece que a Game Republic simplesmente se esqueceu da existência desses filtros gráficos, o que faz com que o serrilhado também acompanhe Heinrich e Gretchen em sua missão. Em determinado momento, você encontra uma cachoeira que escoa pixels em vez de água. O efeito é tão bizarro que até mesmo os elementos em torno são magicamente transformados em objetos 8 bits.

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Por fim, Knights Contract nos presenteia com uma irritante queda na quantidade de quadros por segundo, principalmente quando ela mais deveria se manter estável: na hora da ação. Basta que alguns inimigos se reúnam na tela para você ver o carrasco se movimentar em câmera lenta. Os mais ousados que tentarem utilizar magias assistirão a um show de slides, já que a luta praticamente congela a tela por alguns segundos.

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